Energia

“Os municípios foram determinantes nas renováveis em Portugal”

Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Jorge Borrego, responsável da União para o Mediterrâneo, falou ao Dinheiro Vivo sobre o 2º Energy Business Forum, que terá lugar em Lisboa.

Qual deve ser o papel das autoridades locais face às alterações climáticas, nomeadamente na implementação de estratégias de utilização de energias renováveis e locais? As respostas a esta questão serão dadas esta quinta-feira, 18 de julho, durante o 2º Energy Business Forum da União para o Mediterrâneo (UpM), que terá lugar em Lisboa.

Dedicado à temática “Apoiar as autoridade locais nos seus esforços de transição energética”, o foco do evento estará na melhoria da cooperação e promoção de soluções inovadoras e alcançáveis financeiramente orientadas para as autoridades locais e nos seus esforços para alcançarem uma transição energética sustentável, explicou ao Dinheiro Vivo Jorge Borrego, vice secretário-geral para a área de Ação Climática e Energética da UpM.

Durante o evento serão também referidos várias exemplos de boas práticas, com destaque para um projeto em que as autoridades locais se alinharam com as organizações financeiras para instalarem o primeiro parque eólico da Jordânia, entre outros.

Para o final de 2019 está prevista pela UpM a divulgação do primeiro estudo independente que faz uma avaliação clara da evolução dos riscos climáticos na região do Mediterrâneo.

A edição deste ano é dedicada aos desafios da transição energética ao nível dos municípios. O que motivou a escolha deste tema?
Temos trabalho a nível nacional e regional, mas faltava completar a cadeia de atuação. O primeiro agente de mudança é cada um de nós, e a nossa escala de atuação passa pelos grupos sociais em que nos inserimos, numa escala mais local. A nível municipal faz todo o sentido atuarmos. É aí que vamos encontrar muitos projetos e medidas de ação que depois se traduzem em resultados a nível nacional. Estes projetos estão dispersos e têm um potencial enorme de serem bem sucedidos se forem replicados ou integrados numa rede de atuação maior. Queremos fazer o matching entre projetos e quem pode financiá-los. A grande barreira dos projetos à escala local é o financiamento, precisamente.

Com Portugal a dar nas vistas internacional pelo seu potencial renovável, faz sentido realizar aqui este fórum?
Não é por acaso que a segunda edição deste fórum é em Portugal. Em 2017, no primeiro fórum no Cairo, dedicado às renováveis e ao investimento em grande escala, Portugal foi o país convidado e esteve presente com o secretário de Estado da Energia de então, Jorge Seguro Sanches, que fez uma apresentação do potencial renovável português e manifestou interesse que uma nova edição do fórum tivesse lugar em Lisboa. E também porque Portugal é um país com um track record muito positivo na área das renováveis e da integração energia, com medidas com impacto ambiental e muita força que os municípios têm demonstrado. Portugal tem uma excelente rede de agências energéticas a nível municipal, e os municípios foram parte determinante no desenvolvimento das renováveis em Portugal.

O financiamento também vai estar em destaque no fórum. Está disponível para os pequenos projetos locais?
Na questão do financiamento vamos dar destaque ao fundo R20, que procura, como já fez na Ásia e América do Sul, fundos específicos regionais no Mediterrâneo para agregar financiadores com interesse específico em determinado tipo de projetos. Destinado a financiar projetos que à escala da banca financiadora não são relevantes porque têm custos de gestão enormes e não têm a mesma rentabilidade que os grandes projetos oferecem. São aqueles projetos que sendo interessantes podem ficar no limbo por falta de financiamento mais tradicional.

Os grandes financiadores têm tido soluções para investir através da banca comercial, como é o caso do BEI, que descarrega nos bancos locais , que avaliam os projetos. O financiamento num nível local tem escala menor do que o radar apanha. A solução não é um caminho único, mas passa por várias soluções. E aqui entra o setor privado (caso do R20 e do Clima Med) para financiar projetos locais. As autarquias agem com planos integrados que traduzem preocupação energética e de ação climática: iluminação pública, poupança de água, requalificação de edifícios. Promovemos também o encontro de grupos de cidades norte e sul, com experiências interessantes a partilhar. Não financiamos projetos, mas encontramos quem financie.

Por outro lados, vamos apresentar um conjunto interessantes projetos potencialmente replicáveis, onde também vamos ter projetos portugueses, como o desenvolvido pelo CeiiA, sobre os créditos de carbono, ou os projetos Lisboa E-nova e a plataforma de investimento para projetos eficientes do ponto de vista energético Ponto Energia.

As comunidades de energia que vão nascer em Portugal, assim que o governo publique a legislação que as autoriza, pode, ser também um bom exemplo para a região?
As comunidades de energia, que vão ser uma realidade e por isso a força municipal é fundamental, vão assentar na geração não descentralizada e na autogeração residencial e ou de pequenas unidades industriais. A experiência das comunidades de energia é uma experiência que Portugal vai aportar, mas que se aplica muito facilmente aos países da orla mediterrânica, quer a Norte, quer a Sul, e mais até a sul, porque têm geografias com uma grande polarização de populações em que os espaços pelo meio são vazios, porque o desenvolvimento das redes não é interessante do ponto de vista económico. Vão surgir estas comunidades de consumo que depois vão ser, como já aconteceu na Europa, o ponto de motivação para se vir a desenvolver a ligação por rede. Portugal vai ter visibilidade e o governo tem vindo a sublinhar a criação destas novas comunidades de energia.

Portugal foi visionário e pioneiro. Na década de 80 surgiu uma comunidade de energia no Vale da Rosa, com painéis solares na aldeia, com baterias e acumuladores. Fez-se ali uma pequena comunidade local. Hoje em dia, as comunidades energéticas são uma espécie de evolução do conceito offgrid, para o aplicar também nas zonas de rede. A comunidade energética vai resolver o problema da integração na rede dos excedentes dos autoprodutores. Vão funcionar como um agregador desses excedentes. Vai criar uma oportunidade tremendas para que mais pessoas se interessem em ter autoprodução ou microgeração, porque vai dar saída comercial e vai permitir à rede gerir bem essa integração.

É um conceito que interessa a países onde a rede está desenvolvida, mas também a países que ainda não estão nessa fase, com o são os do norte de África. É uma experiência a transportar.

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