Pacto Português para os Plásticos já engloba 20% das embalagens no mercado

Um ano e meio depois, são 105 as entidades aderentes e que colocam no mercado mais de 90 mil toneladas de plástico ao ano. A pandemia prejudicou as metas, sobretudo no que aos plásticos descartáveis diz respeito

Eliminar os plásticos de uso único problemáticos ou desnecessários até 2025 é uma das metas definidas pelo Pacto Português para os Plásticos (PPP), iniciativa de adesão voluntária que engloba 105 entidades, como a Sonae, Jerónimo Martins, Lidl, Mercadona e Aldi. Em 2020, estes plásticos pesavam 4% no portefólio dos membros do Pacto, um valor que é um ponto percentual acima do ano anterior. A culpa é da pandemia que veio alterar os padrões de consumo dos portugueses, levando ao consumo crescente de takeaway, com o consequente aumento das respetivas embalagens. "São dados alarmantes", admite Pedro São Simão, coordenador do Pacto Português para os Plásticos.

Foram 3.408 toneladas de plásticos de uso único que foram colocadas no mercado em 2020 pelos membros do PPP, mais 848 toneladas do que em 2019. "Num período especialmente atípico, a pandemia de covid-19 obrigou à alteração de hábitos e rotinas que estimularam o consumo de alguns plásticos de uso único. Na área da embalagem, o incremento dos serviços de takeaway e de delivery ""impactou significativamente o consumo de plásticos descartáveis", pode ler-se no relatório da Associação Smart Waste Portugal, que hoje deu a conhecer os resultados do primeiro relatório do progresso do Pacto Português para os Plásticos. Pedro São Simão reconhece que esta "não é a tendência que se pretendia", no entanto, garante, hoje mesmo, os membros do pacto vão reunir os diferentes grupos de trabalho para "procurarem soluções conjuntas de modo a tornarem os descartáveis necessários em reutilizáveis".

O PPP é uma plataforma colaborativa que reúne os diferentes atores da cadeia de valor nacional do plástico, desde os produtores e distribuidores de matéria-prima, até aos recicladores, passando pela indústria, retalhistas, entidades gestoras de resíduos, etc., que pretende criar uma economia circular para os plásticos, de modo a que estes sejam valorizado e nunca se convertam em resíduos. Conta já com 105 membros, quase o dobro dos 55 com que arrancou em fevereiro de 2020, que colocam ao ano 91.500 toneladas das 400 mil toneladas totais colocadas no mercado ao ano. São mais de 20% do total.

Mas nem tudo são más notícias. No que aos 19 itens da Diretiva de Plásticos de Uso Único, cuja colocação no mercado passou a ser proibida em 2021, os aderentes a esta iniciativa "fora já muito além". Por exemplo, os sacos de supermercado, os copos, as 'mesinhas' nas caixas de pizza e as varas para balões "já não constavam do portefólio dos membros do PPP em 2020". Também as palhinhas "já quase desapareceram" e os cotonetes com bastão de plástico foram reduzidos em 99%.

Quanto à meta 2, que pretende que até 2025 100% das embalagens de plástico sejam reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis, a evolução também foi positiva: mais de metade (52%) das embalagens de plástico são já recicláveis, um valor que está acima da meta intermédia do pacto definida para 2021 e que era de 40%.

Mas este valor poderia ser significativamente maior, na ordem dos 64%, se fossem criados novos fluxos de triagem específicos para os tabuleiros PET (o material que se vê habitualmente nas embalagens de carne ou de legumes e que vieram substituir o esferovite) e para as embalagens em polipropileno, sobretudo usadas nos detergentes. Os tabuleiros em PET representam 5% das embalagens totais, "um número já expressivo"; as embalagens de polipropileno representam cerca de 20%.

De qualquer forma, sublinha o relatório, há já vários membros do pacto a colocar no mercado embalagens 100% recicláveis.

Quanto à reutilização, em 2020 eram 7% as embalagens reutilizáveis, um ponto percentual acima de 2019. É o caso das caixas de fruta nos supermercados ou dos tabuleiros dos pães. "Há um esforço concreto", sublinha o coordenador da iniciativa, acrescentado que os primeiros modelos comerciais de embalagens reutilizáveis em plástico em Portugal foram implementadas por membros do PPP. "O eco-design e a otimização da produção, que muitas vezes passam despercebidas ao consumidor, têm permitido incrementar a reciclabilidade das embalagens de plástico", frisa Pedro São Simão.

Sobre a reciclagem, cuja meta é nacional e pretende garantir, até 2025, que 70% das embalagens serão recicladas, os números são de 2019 e correspondem a 36% do total. Mais importante ainda é que, esta taxa representa uma subida de dois pontos percentuais, face ao ano anterior, permitindo "inverter uma tendência negativa", que se vinha a arrastar desde 2015, com a taxa de reciclagem a decrescer.

Quanto à quarta meta, em que os aderentes do PPP pretendem incorporar 30% em média de plástico reciclado em novas embalagens, a taxa em 2020 estava já nos 11%, um ponto percentual acima do ano anterior. "Estamos a cerca de um terço daquilo que é a nossa ambição e vamos continuar a trabalhar internamente para que estes exemplos possam ser replicados em cada vez mais embalagens, sobretudo com alguns membros da área da indústria a avançarem com inovações tecnológicas que permitam, por exemplo, através da reciclagem química do plástico, que o material que daí resulta possa ser usado no contacto com alimentos, o que é ainda uma dificuldade porque só o PET reciclado é que é permitido, para já para contacto alimentar. Acreditamos que, com estas inovações da reciclagem química, isso vá ser possível", explica o coordenador da iniciativa.

Por fim, as empresas que aderiram ao PPP prometem continuar a reforçar as iniciativas de sensibilização e educação dos consumidores para estas temáticas, de que a campanha 'Vamos Reinventar o Plástico', que decorreu em 2020 e 2021, é um exemplo. Para o próximo ano, o PPP vai avançar com uma nova campanha a estimular a reciclagem, mas não só. "Vamos aventurar-nos num projeto educativo para os mais pequenos, alertando para a necessidade de evitar os descartáveis, sejam eles de plástico ou de outro material, e vamos também ter um programa de masterclass para disseminar a iniciativa junto dos nossos parceiros das universidades e politécnicos. Além disso, vamos ter um programa de geração de ideias junto de jovens empreendedores para estimular novos negócios de reutilização", explicou, ao Dinheiro Vivo, Pedro São Simão.

Este responsável reconhece que o tema dos plásticos gerou um "alarmismo muito grande", sobretudo a partir de 2016, quando se começou a perceber a dimensão da poluição dos oceanos, mas lembra que os plásticos "têm inúmeras vantagens", razão porque são tão usados em inúmeras aplicações, da indústria à construção, passando pelo retalho, entre outros.

"Reconhecemos que os plásticos têm um papel determinante na nossa qualidade de vida e não queremos perder essa vantagem. Queremos os plásticos dentro da economia, mas não os podemos deixar escapar para o ambiente. De nenhuma forma. Foi isso que mobilizou o pacto português para os plásticos. Também faz parte da nossa pedagogia e da nossa sensibilização tentar explicar às pessoas que o problema não são os plásticos, é a forma como os usamos", sublinha.

E acrescenta: "Se trocarmos os plásticos por outro material qualquer, e isso já está a acontecer, depois temos outras consequências ambientais se calhar mais graves ainda do que aquelas que queremos solucionar. Temos que ser bastante racionais e menos emocionais na abordagem a este material, e em vez de responsabilizar o material, temos que nos responsabilizar a nós. Não foi o plástico que foi parar aos oceanos, fomos nós que fizemos com que ele lá fosse ter".

Além das marcas de retalho alimentar já referidas, integram o Pacto Português para os Plásticos empresas como a Delta Cafés, Coca-Cola, Imperial, Super Bock Group, Unilever, Colgate Palmolive ou Empresa de Cervejas da Madeira, entre outras.

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