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Paddy Cosgrave: “Muito do sucesso da Web Summit passará pela vinda de políticos”

Entre eventos, Cosgrave falou, em exclusivo ao Dinheiro Vivo, sobre as expectativas e a preparação da Web Summit.

Em Portugal desde o início da semana, o irlandês de 32 anos, CEO e co-fundador da Web Summit, esteve em reuniões com parceiros, incluindo o primeiro-ministro António Costa, falou com a task force portuguesa a trabalhar a tempo inteiro no evento, esteve no primeiro Meetup relacionado com a Web Summit, realizado no aeroporto da Portela, visitou a Startup Lisboa no dia da entrega das chaves às novas startups incubadas e ainda gravou e partilhou no grupo do Facebook do Web Summit um vídeo da chegada ao Meo Arena, um dos espaços onde o evento de novembro decorrerá. Entre eventos, Cosgrave falou, em exclusivo ao Dinheiro Vivo, sobre as expectativas e a preparação da conferência. E confessou que talvez ainda demore a voltar à quinta onde cresceu, nos arredores de Dublin.

Como estão a decorrer os preparativos para a Web Summit? Lisboa está diferente das primeiras visitas?

É incrível o entusiasmo das pessoas com o evento. É impressionante como as pessoas nos apoiam, nos fazem sentir bem-vindos e são tão apaixonadas por isto de construir empresas, negócios. Estamos impressionados com as boas-vindas a novas empresas, a empreendedores e a negócios de todo o mundo. Nunca vi pessoas tão entusiasmadas e isso é fascinante.

Esta é a primeira vez que a equipa de engenheiros está em Lisboa?

Comigo vieram 25 engenheiros que estiveram num processo de hackathon interno, a trabalhar em ideias que farão com que a experiência dos participantes seja melhor em Lisboa. Temos vários bons produtos e, depois desta semana em Lisboa, vamos organizar um demo day para organizar as diferentes grupos de trabalho internamente. Trabalhámos todos os dias nesse tema e espero que alguns desses produtos sejam lançados no Web Summit.

Estamos a trabalhar em 10 diferentes, talvez cinco sejam desenvolvidos e três podem tornar-se parte do software presente na Web Summit, em novembro, em Lisboa. O tempo o dirá.

Temos e teremos equipas em Lisboa todas as semanas: trabalham cerca de 140 pessoas na organização do evento. Desde as vendas, parceiros, fornecedores, já há muita coisa a acontecer.

Como tem respondido a cidade às vossas necessidades?

Têm sido dois meses e meio de muitos progressos, reuniões, planos. Olhando para os números de pessoas que esperamos, estarão em Lisboa cerca de 55 mil pessoas para a Web Summit, em novembro, vindos de mais de 100 países de todo o mundo. Nos próximos meses vamos começar a anunciar oradores de muitas indústrias, não só da tecnologia mas de muitas outras que serão afetadas pela tecnologia nos próximos anos. E Lisboa funciona tão bem. Acho que isso vai estar à vista quando se tornar real, em novembro, no momento em que virmos a cidade com milhares e milhares de pessoas que, todas as noites, vão estar a trabalhar e a conhecer-se, a criar redes de contactos nas incubadoras, nos bares, nos restaurantes, nos hotéis lisboetas. Acho que as pessoas em Lisboa ainda não perceberam o que vai acontecer. Lisboa vai estar cheia de gente, vai haver muitas fotografias da cidade no Instagram.

Que características tem o ecossistema empreendedor para provocar este buzz?

Acho o ecossistema empreendedor bastante raso. Talvez noutras indústrias, as pessoas pensem nelas como estrelas. Mas não acho que no caso das startups isso aconteça. Por exemplo, o Mike, o tipo que fundou o Instagram, estava mais do que satisfeito por poder andar pela Web Summit sem que ninguém o reconhecesse. Ele não sequer tinha o badge, andou a falar com pessoas sobre os respetivos negócios, e muitos mais representantes de empresas fazem o mesmo. Nem sequer lhes passa pela cabeça que deviam estar num hotel de 5 estrelas, e isso é ótimo. As pessoas na tecnologia não se esquecem que é isso, a tecnologia, que torna o sector interessante. Não é hierárquico, e isso não significa que a hierarquização seja posta de lado. Só que as pessoas não ficam obcecadas com bons vinhos e hotéis caros. O que é importante é que as pessoas aproveitem para se encontrarem, para desfrutarem dos cafés e da cidade de Lisboa, e para se envolverem com as coisas das startups, porque as startups trazem uma energia muito boa.

Sempre de mochila às costas, Paddy Cosgrave gosta de andar por Lisboa a pé. À chegada à Startup Lisboa, nem a chuva o desanima. Está habituado ao mau tempo de Dublin. É o entusiasmo das pessoas com que se cruza que o surpreende. (Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens)

Sempre de mochila às costas, Paddy Cosgrave gosta de andar por Lisboa a pé. À chegada à Startup Lisboa, nem a chuva o desanima. Está habituado ao mau tempo de Dublin. É o entusiasmo das pessoas com que se cruza que o surpreende. (Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens)

Já há mais de 20 mil inscritos para a primeira Web Summit em Lisboa, dez meses antes do evento. São esperadas 55 mil. Como vês o futuro de um encontro que começou há cinco anos com pouco mais de 200 pessoas?

Uma das coisas mais entusiasmantes, do meu ponto de vista, é o crescente interesse dos governos, um pouco por todo o mundo, nestas questões relacionadas com o impacto da tecnologia. E não falo só no ponto de vista da regulação, como também do facto de estarem otimistas pelo crescente uso da tecnologia na educação, nos transportes, na recolha de resíduos e na forma como essa tecnologia pode diminuir os custos e melhorar os serviços prestados aos cidadãos. Muito do nosso crescimento em 2016 vai passar pela vinda de responsáveis políticos, talvez até já tenhamos algumas confirmações. E isso é muito entusiasmante porque, no limite todos somos cidadãos: todos usamos transportes públicos, todos andamos na estrada, a segurança é importante. E, quanto mais os governos forem proativos no espaço, melhor a prestação dos serviços. Ainda não tenho filhos mas quero que, um dia, quando tiver, os meus filhos tenham acesso às melhores oportunidades na educação, e a tecnologia pode ter aí um papel fundamental. E quanto mais os políticos estejam a par do que é possível fazer, mais vamos beneficiar e mais as novas gerações beneficiarão da adoção e uso destas novas tecnologias. É melhor que os políticos estejam cá do que não estejam, se é que isto faz sentido.

“Com a dimensão que já temos nunca poderemos voltar a Dublin”, diz Paddy Cosgrave.

O progresso passa apenas pela questão política?

De todo. Outra área que é muito apelativa, do meu ponto de vista, são os carros. Provavelmente um dos maiores empregadores em Portugal é a Volkswagen. A indústria automóvel está a entrar num período muito interessante, que junta as maiores inovações a uma indústria muito tradicional. A Apple, a Google, entre outras, estão a trabalhar nisso. E vai ser fascinante porque algumas dessas empresas tecnológicas, e outras da indústria automóvel, vão estar em Lisboa a falar sobre o que estão a desenvolver. E de como isso terá impacto nos transportes que usamos, na maneira como vivemos as cidades e na nossa vida.

Tal como o tema central de Davos… Achas que estamos perante uma nova revolução industrial?

O tema da 4.ª Revolução Industrial vem de um livro de um investigador do MIT, e é ótimo que estejam a discutir isso porque o tema da Web Summit há dois anos foi esse [risos]. O impacto dessas tecnologias na sociedade foi o tema central em 2013: discutiu-se a forma como as grandes empresas, como a Ford, por exemplo, estão a desenvolver mecanismos de adaptação que estão a revolucionar um sector tão tradicional. Acho que esse vai ser um tema recorrente em discussão, não só pelo Fórum Económico Mundial como noutros encontros, porque são assuntos que devem ser facilmente vistos e adotados. Para os encontros mais tradicionais, demora um tempo até que as pessoas se apercebam que determinada coisa está mesmo a acontecer.

De que maneira um encontro como a Web Summit pode revolucionar até os sectores mais tradicionais da indústria portuguesa?

Se trouxermos a Portugal dezenas de milhares de empresas tecnológicas, empreendedores, investidores, jornalistas internacionais, sob o pretexto de uma conferência de tecnologia, é difícil que Portugal não beneficie disso.

Estão todos cá e a questão é: o que é que as incubadoras, o sector privado e o governo farão com todas estas pessoas? Está nas mãos de Portugal decidir quais as prioridades.

Mas só podem acontecer coisas boas: e mesmo que tudo falhe, vai haver muita gente a ganhar com as pessoas que vão andar por Lisboa nessa semana. Na pior das hipóteses, os táxis, os restaurantes e os hotéis vão estar cheios. Na melhor, tudo isso acontecerá. E espero que muitos jovens estudantes portugueses, nas universidades e nos liceus, possam pensar, face às oportunidades, tornar-se engenheiros ou cientistas em alternativa ao trabalho nestas indústrias mais tradicionais. Espero que possam pensar num futuro brilhante, independentemente do país onde estejam.

Um evento para mudar mentalidades?

O nosso objetivo é encorajar as pessoas a escolher áreas preponderantes e esse é um grande desafio porque, nem sempre são decisões sexy. Mas espero que a Web Summit ajude nisso e que permita abrir os olhos dos empresários e das indústrias mais tradicionais, de maneira a que estes percebam que podem beneficiar da tecnologia. A tecnologia não é nenhum inimigo a abater, pode ser um aliado, seja nas vendas, no marketing ou na análise do negócio. Há ferramentas e serviços que podem ser usados para melhorar a performance da empresa e, na maioria dos países do mundo, há sectores mais tradicionais que não estão preparados para abraçá-los. E se não sentem essa abertura, é difícil imaginar como estarão essas empresas dentro de 10 ou 20 anos. É como decidir não usar telefone: imagine-se uma empresa que diz que não precisa de telefone. Hoje parece uma ideia completamente ridícula. Mas antes dos telefones apareceu a eletricidade, e muitas empresas disseram que não precisavam.

As empresas mais tradicionais devem ser as primeiras a dizer ‘eu quero experimentar’?

Sim, eu sou completamente aberto a isso. Todas as pessoas deviam ser. Só que, muitas vezes, as pessoas não entendem o que é isto sobre que andam a ouvir falar. Acho que quanto mais as pessoas experimentem as novidades tecnológicas, sejam early adopters, melhor. Mesmo que experimentem e digam: ‘Na verdade, usar o Google como uma maneira de atingir mais pessoas, construir um website, não é para nós’. E isso é bom, pelo menos tentaram.

E o que pode o Web Summit ganhar com Lisboa?

Em primeiro lugar, as boas infraestruturas, o tamanho da área da Expo, entre a FIL e o Meo Arena. Nunca tivemos uma possibilidade assim em Dublin. Éramos já demasiado grandes para aquela área que ocupávamos, grandes de mais para a cidade.

Mas disseste na despedida que esperavas voltar…

Com a dimensão que já temos nunca poderemos voltar a Dublin.

 

55 mil em lisboa em novembro

Mais startups Entre 8 e 10 de novembro, a organização da Web Summit estima que estejam, em Lisboa, cerca de 55 mil pessoas vindas de mais de 100 países para participarem no evento. Ontem, depois da reunião com o primeiro ministro António Costa, Paddy Cosgrave confirmava já mais de 20 mil inscrições. Um dia antes, na Startup Lisboa, Fernando Medina sublinhava um dos grandes objetivos do evento. “Queremos que seja um sucesso. É uma organização impressionante que envolve acessibilidades, circulação na cidade mas estamos à altura. O maior desafio é aproveitar esse grande movimento da comunidade empreendedora, trazido pela Web Summit, para potenciar ao máximo as oportunidades para o desenvolvimento de Lisboa”, explicou Medina, acrescentando que o evento é uma oportunidade para as startups portuguesas conhecerem outras empresas e investidores. Mas também para apresentar ; Lisboa como local de investimento e de atração de novas empresas, “sejam startups ou grandes empresas tecnológicas”.

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