Pais do Amaral: "Neste momento ninguém paga a ninguém"

O empresário Miguel Pais do Amaral espera que os bancos a quem pagou a operação de tomada de posição na Media Capital, que esta semana chegou ao fim, o ajudem agora com as "devidas contrapartidas" nos seus "outros negócios".

"Espero agora ter as devidas contrapartidas dos bancos a quem paguei, nos meus outros negócios", disse o empresário em entrevista com a Lusa.

Pais do Amaral é o maior acionista da Novabase, com pouco mais de 10%, e da Reditus, é dono do Grupo Leya, e, nos vinhos, da Companhia as Quintas, para além de deter interesses imobiliários e negócios como a Hemera Energy na área da energias renováveis ou como a Quifel Natural Resources na agricultura de Moçambique.

"Neste momento de dificuldades não é um momento para se estar muito exposto e eu estava muito exposto. Isto faz parte de um movimento de 'back to basics'", afirmou.

O empresário, que se mantém como presidente do conselho de administração da Media Capital, apesar de ter deixado de ter interesses financeiros na dona da TVI, escusou-se a revelar o montante que esteve em causa na operação de devolução das ações à Prisa.

Pais do Amaral pagou à Prisa em 2011 apenas 70% do valor correspondente a 10% do capital da Media Capital que lhe foram entregues, avaliados em cerca de 35 milhões de euros. Foi isso que lhe foi agora devolvido, qualquer coisa na ordem dos 25 milhões de euros, acrescidos de uma mais-valia, que o empresário também não revelou.

"Não vou falar de números, penso que o montante da transação é conhecido", afirmou à Lusa.

A operação não trouxe liquidez significativa ao empresário, permitiu-lhe, isso sim, "ter menos exposição à banca", disse.

"Hoje em dia a banca portuguesa está muito apertada pela 'troika' e pelo banco central para seguir um movimento de desalavancagem, de redução dos seus rácios de transformação. Isso faz com que os bancos queiram ser pagos dos seus empréstimos. Penso que aqui estou claramente a dar uma contribuição positiva nesse aspeto e espero agora ter as devidas contrapartidas dos bancos a quem paguei, nos meus outros negócios".

"Neste momento ninguém paga a ninguém. São raras as empresas que amortizam aos bancos. Esta operação foi integralmente amortizada, o que é uma situação rara, nos prazos e de acordo com os acordos, apesar de as pessoas dizerem que ia haver 'default', que ia haver isto e aquilo. Tudo correu na perfeição, não houve o menor problema e os bancos foram integralmente pagos, capital e juros", acrescentou.

"É disso que se constrói a credibilidade e a capacidade de ir agora pedir apoio. Porque a questão é que, neste momento, existem muito boas oportunidades de mercado e o que não existe é capital, ninguém olha para Portugal como destino de investimento -- é impossível arranjar sócios para fazer negócios -- e o financiamento bancário não está fácil, existem muitas restrições, e está caro", afirmou Miguel Pais do Amaral.

O futebol não devia ser um monopólio

"O que se passa em Portugal é um pouco parecido com o que acontece em Espanha, os clubes estão a deixar ficar muito dinheiro em cima da mesa", afirmou à Lusa o empresário que preside ao conselho de administração da Media Capital, dona da TVI.

"Mas esse é um problema dos clubes e das plataformas de distribuição, da Zon, da Portugal Telecom, da Olivedesportos, eu não tenho nada a ver com isso", acrescentou.

Miguel Pais do Amaral relembra que os planos que teve para criar um canal desportivo "era algo que fazia todo o sentido para a TVI". O objetivo era a criação de "um canal de desporto internacional, não com a Liga portuguesa", sublinha o empresário, "porque a Liga portuguesa está comprometida".

Mas era perfeitamente possível ter constituído um canal interessante de desporto internacional", acrescentou Pais do Amaral que chegou a adquirir os direitos televisivos da Liga Espanhola e da Liga dos Campeões, que acabou por ceder.

O empresário assume que que apesar de não ter sido concretizado, o projeto poderá voltar a ser retomado. "As circunstâncias fizeram com que os aliados estratégicos necessários na altura em que as decisões tinham que ser tomadas não foram a jogo e esse projeto teve que ficar pelo caminho. Mas é um projeto que pode ser sempre retomado por outra entidade qualquer", disse ainda Miguel Pais do Amaral.

"A oportunidade de negócio está lá e todos os dois ou três anos essas ligas, a Liga espanhola, a italiana, a inglesa , a Champions League, a Liga Europa estão no mercado. Não há razão para haver aí monopólios", acrescenta o "chairman" da TVI.

Essa não é, no entanto, a situação em Portugal, em que Pais do Amaral considera "normal que haja uma situação de espécie de monopólio em relação à Liga portuguesa, embora neste momento considere que os clubes não estão a ser minimamente beneficiados com a atual situação".

Empresa Leya com melhores resultados no Brasil

No que toca ao negócio do grupo Leya no Brasil, Pais do Amaral, dono do grupo, diz que deverá ultrapassar, pela primeira vez, as operações da editora em Portugal. A empresa é líder em Portugal na edições gerais e está no segundo lugar nas edições escolares. No entanto é no Brasil que estão as suas maiores expetativas.

"Em vendas, o Brasil deverá ultrapassar Portugal, em resultados não vai ultrapassar, mas aproximar-se-á", disse o gestor, acrescentando que "este ano esperamos ser já muito rentáveis no Brasil. Já somos rentáveis na área das edições gerais e de e-learning, estamos em fase de investimento, e portanto, de perdas, na área educacional. Mas o nosso orçamento aponta para resultados apreciáveis no Brasil este ano".

Miguel Pais do Amaral explica que o Brasil é um mercado que "tem a demografia certa, ao contrário de Portugal, é um mercado de 180 milhões de pessoas, onde a classe média está a crescer, onde as pessoas estão a ler mais e onde o ensino é uma prioridade do governo. Tudo isso são novas oportunidades que se abrem aos operadores na área"

Segundo o empresário, a empresa Leya entrega o "top 5" nas edições gerais do Brasil, apesar de não possuir muito catálogo e de vender sobretudo novidades editoriais. A empresa é já Brasil "uma realidade muito séria" no Brasil, acrescenta Pais do Amaral

No entanto, o investimento no ensino não está a ser tão fáciol. A Leya tem já livros do 1º ciclo no mercado e espera que o Governo brasileiro certifique os do 2º ciclo. "É um investimento grande e um processo longo, que demora cinco anos, e lançámos isto do zero. Não há dúvida de que existia muita capacidade e 'know how' aqui na Texto Editores, o que nos ajudou a fazer no Brasil uma equipa muito forte. Estamos com expectativas muito positivas sobre o desenvolvimento do nosso negócio escolar no Brasil".

O grupo está também a fazer uma aposta no negócio e-learning, também no Brasil, que já é rentável. Pais do Amaral revela haver a possibilidade de "ramificar" Para Moçambique e Angola. "Nunca é fácil fazer 'start-ups' , as 'start-ups' são sempre operações complexas e com dificuldade de previsão. Mas o facto é que neste momento já não estamos na fase de 'start-up' nas edições gerais e na área das edições escolares já temos uma massa crítica muito substancial"

Vender, só se a oferta compensar

Em entrevista à Lusa Pais do Amaral diz não estar "à procura de compradores para nada" mas não põe de parte a possibilidade de vender caso apareça uma "oferta adequada".

"Se alguém quiser comprar esta ou aquela quinta, o facto de ter uma vinha no Alentejo ou na Estremadura não é propriamente uma raridade. Posso perfeitamente vender uma e comprar outra. O importante é ter as marcas", afirmou em entrevista com a Lusa.

O empresário sublinhou que "neste momento, os compradores que há estão à procura de negócios de ocasião. Estão a tentar comprar coisas a preços muito baratos. Eu não tenciono neste momento vender nenhum dos meus ativos a preços de ocasião", e essa é uma razão para não estar à procura de compradores.

A companhia das Quintas, um dos "ativos" de Miguel Pais do Amaral" é o mais procurado. "Todas as semanas tenho uma pessoa a bater-me à porta a dizer-me que está interessada em comprar ou a Companhia das Quintas, a vinha A ou B, a marca C ou D. De facto, existe muito interesse pelo setor dos vinhos, atendendo ao seu potencial de exportação", disse.

Pais do Amaral explica que a Companhia das Quintas "teve uma performance muito interessante no ano passado", mas este ano "o mercado nacional está a arrancar muito mal, como já era previsível". "Vamos ter que compensar isso com a exportação", explica o empresário à agência Lusa.

"Há muito interesse pelo vinho português". Miguel Pais do Amaral acrescenta que têm sido "abordados por muitos investidores estrangeiros, existe muito interesse". "Até não se agora não se materializou", indicou.

Quanto à possibilidade de venda Pais do Amaral é pragmático: "depende do preço". "Não tenho preço para aquilo porque não está à venda. Se aparecer um comprador sério interessado em comprar eventualmente conversaremos, mas eu não estou vendedor, não estou num processo de venda", rematou o empresário.

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