Pandemia já afetou seis milhões de empregos no sul da Europa, 2021 "altamente incerto"

OIT diz que recuperação em 2021 é "frágil e altamente incerta" e pede manutenção de estímulos sempre que possível.

Os efeitos da crise do novo coronavírus no mercado de trabalho no último ano puseram em causa o equivalente a seis milhões de empregos nos países do sul da Europa, com uma quebra de 12,3% nas horas trabalhadas na subregião mais afetada do continente, avança nesta segunda-feira a Organização Internacional do Trabalho (OIT) no seu sétimo relatório de acompanhamento da pandemia.

As perdas nesta subregião europeia onde se inclui Portugal são as quartas piores a nível mundial, atrás da América do Sul, América Central e Sul da Ásia.

O documento hoje publicado, já com estimativas completas para o conjunto de 2020 no que diz respeito ao impacto nos mercados de trabalho, aponta que para uma quebra global de horas trabalhadas em 8,8%. É o equivalente a 255 milhões de postos de trabalho a tempo completo com horários semanais de 48 horas, e teve como reflexo uma perda de rendimentos de trabalho na ordem dos 3,7 biliões de dólares (4,4% do PIB global), significando uma quebra de 8,3%.

A perda de trabalho estimada em 255 milhões de pontos de trabalho representa quatro vez mais que o impacto da crise financeira de 2009, refere a OIT, notando níveis "sem precedentes" de perdas de emprego, para além dos horários reduzidos e suspensos (por motivo de lay-off, por exemplo).

Segundo a organização, 114 milhões de pessoas ficaram sem trabalho em todo o mundo, mas sem que isso representasse na verdade desemprego oficial. Mais de dois terços das perdas de trabalho, 71%, traduziram-se no aumento de inativos: pessoas impossibilitadas de trabalhar devido às restrições da pandemia e que deixaram de procurar emprego, possivelmente, refere a comunicação da OIT. Mais uma vez, a organização alerta que olhar para o número de desempregados oficiais falha em traduzir o impacto sofrido pelo mercado de trabalho.

Mulheres, jovens e o sector de alojamento e restauração foram desproporcionalmente afetado, assinala o relatório, a dar conta de uma redução do emprego superior a 20% nas atividades ligadas ao turismo.

Para 2021, a OIT admite que a segunda metade do ano possa já ser de forte recuperação na maioria dos países, com o progresso dos programas de vacinação em todo o mundo. Porém, a incerteza mantém-se elevada, acautela.

"Os sinais de recuperação que vemos são encorajadores, mas são frágeis e altamente incertos, e devemos lembramo-nos de que nenhum país ou grupo consegue recuperar sozinho", refere o diretor-geral da organização, Guy Ryder.

As previsões da OIT, apoiadas nas últimas projeções do FMI de outubro (serão atualizadas, entretanto, nesta semana), antecipam três cenários, do mais pessimista ao mais otimista. No cenário base, este ano assistirá ainda a quebras de 3% nas horas trabalhadas, no equivalente a menos 90 milhões de postos de trabalho. O intervalo das previsões começa nos 1,3% de perda, na visão otimista, e termina em 4,6%, no cenário mais pessimista.

Em todo o caso, a Europa - a par do continente americano e Ásia central - continuará a sofrer o dobro das perdas de outras regiões mundiais. Para os países do continente europeu, excluindo Leste da Europa, a OIT antecipa no cenário base uma quebra de horas trabalhadas em 6,2%, equivalente a dez milhões de postos de trabalho (sem dados desagregados para os países da Europa do Sul).

"Estamos numa encruzilhada. Um dos caminhos conduz a uma recuperação insustentável, desigual, com crescente desigualdade e instabilidade, e a perspetiva de mais crises. O outro foca-se numa recuperação centrada no ser humano para reconstruir melhor, dando prioridade ao emprego, rendimento, proteção social, direitos dos trabalhadores e diálogo social. Se queremos uma recuperação inclusiva, sustentável e duradoura, este é o caminho com o qual os decisores políticos devem comprometer-se", defende o secretário-geral da OIT.

A organização deixa um conjunto de cinco recomendações: manter as políticas macroeconómicas "acomodatícias em 2021 e para além dele, incluindo estímulos orçamentais quando possível, e medidas para apoiar rendimentos e promover o investimento"; adotar medidas para apoiar mulheres, jovens, trabalhadores pouco qualificados e outros grupos especialmente atingidos; garantir apoio internacional para os países com menores rendimentos e falta de recursos para desenvolver vacinação e promover a recuperação; apoiar os sectores mais atingindo e promover o emprego naqueles que mais crescem; e promover o diálogo com os parceiros sociais nas estratégias de recuperação.

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