Coronavírus

Para exportar máscaras, empresas têm de as certificar país a país

(Rui Oliveira/Global Imagens)
(Rui Oliveira/Global Imagens)

Nem todos os países aceitam a certificação do Citeve, o que obriga as empresas a terem de repetir o processo em laboratórios acreditados localmente.

A Euratex, a federação europeia da indústria têxtil, quer promover a harmonização entre os vários países da União Europeia dos requisitos de certificação dos produtos têxteis de combate à covid-19, designadamente das máscaras de uso comunitário. É que cada mercado definiu os seus próprios parâmetros e especificações técnicas que não são, necessariamente, reconhecidos pelos restantes. E há empresas a ter de certificar os seus produtos em Espanha, França, Bélgica e Alemanha para poderem exportar as suas máscaras.

Ninguém sabe ao certo quantas máscaras estão a ser produzidas em Portugal, mas admite-se que serão já mais de um milhão a cada dia. Garantido é que são mais de 250 os modelos de máscaras certificados pelo Citeve, a grande maioria para uso comunitário – população em geral e profissionais diversos que não da área da saúde – e reutilizáveis, a que acrescem mais mil que estão em testes neste centro tecnológico. A que se somam os de outros laboratórios, designadamente do ISQ e do Centro Tecnológico do Calçado, que estão também habilitados para isso. Abastecido o mercado nacional, as empresas começam a posicionar-se para fornecer os mais de 500 milhões de europeus que precisam deste novo acessório de moda que ajuda a proteger do novo coronavírus.

“Está toda a gente a trabalhar para fora. As empresas são contactadas, antes de mais, pelos seus clientes habituais e estes são essencialmente europeus. Sabemos que muitos aceitam a certificação Citeve mas, em alguns casos, estão a ter que fazer a certificação nos diversos países”, admite Braz Costa, diretor-geral do Citeve, que está já a articular-se com centros tecnológicos de outros países para tentar ultrapassar esta questão. É o caso de França, que “usa os mesmos métodos e os mesmos limites” e, por isso, “está-se a tentar encontrar uma forma de confiabilidade entre os dois sistemas”. A ideia será que, com a mera apresentação da aprovação do Citeve e do relatório de ensaio aqui realizado, as autoridades francesas emitam a respetiva certificação para França, sem necessidade da realização de testes de ensaio adicionais.

Mário Jorge Machado, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), reconhece que a situação atual penaliza as empresas. Quanto mais não seja, em termos de custos acrescidos. “As empresas têm recebido pedidos de vários mercados, designadamente da Suíça, França e Espanha, e se há clientes que aceitam a certificação portuguesa, outros não, o que obriga a repetir todo o processo lá fora. Mas isso é o mercado a funcionar”, admite. Certificar uma máscara no Citeve custa cerca de 55 euros, mas lá fora pode chegar a custar 250 euros. “Não é um custo abismal, depende de país para país, mas claro que inibe as empresas. Sei de quem tenha encomendas da Suíça e que esteja à espera de aprovação para poder prosseguir”.

A Polopique, um dos maiores grupos têxteis nacionais e das poucas empresas totalmente verticalizada ainda existentes no mundo, com produção desde o fio ao produto final, optou por certificar primeiro as suas máscaras em laboratórios internacionais, como o Aitex, o AMSLAB ou o Intertek, e só depois no Citeve, quando percebeu que necessitaria desse carimbo para vender em Portugal. E já tem 24 milhões de máscaras vendidas para a Alemanha e a Bélgica e três milhões no mercado nacional, que deverão começar a chegar às farmácias a partir da próxima semana.

Com quatro modelos já certificados, a Polopique aguarda ainda a certificação do modelo para criança. Luís Guimarães, responsável da empresa, critica fortemente a demora do Citeve. “Eu percebo a boa intenção do Ministério da Economia em nomear o Centro Tecnológico do Vestuário para a certificação das máscaras, mas deviam ter nomeado logo dois ou três, como fizeram depois, permitindo maior diversificação. Era previsível que, com uma só entidade a certificar, criaria um afunilamento das respostas. O Citeve teve centenas e centenas de milhares de máscaras para testar, é impossível que chegue a bom porto”, defende. Luís Guimarães alerta ainda para a falta de rigor nos produtos que estão à venda. “Faz-se uma encomenda online e recebem-se cinco máscaras, quando só uma delas foi aprovada e certificada, e as matérias-primas utilizadas são completamente diferentes. Estamos a brincar”.

A Estamparia Adalberto, uma das primeiras empresas a ter modelos de máscaras comunitárias reutilizáveis aprovadas pelo Citeve, é outra das empresas que está a proceder à sua certificação em vários países. Para já, está muito concentrada no mercado nacional, onde conta com uma parceria com o grupo Sonae. “Estamos a fazer muito pouco para fora, quase só vendas pontuais e como acessório de moda para alguns clientes habituais, a nossa prioridade é Portugal”, diz a CEO da empresa. Susana Serrano admite que o objetivo, esta semana, é chegar a uma produção diária de 50 mil máscaras, mas espera que, em junho, consiga estar já a fazer 500 mil unidades ao dia.

O ISQ já também está a certificar estes produtos. O bom nome da indústria nacional no fabrico de componentes para a muito exigente indústria automóvel, por exemplo, dá uma ajuda. O ISQ é não só a maior infraestrutura tecnológica nacional, como conta com 16 laboratórios acreditados e “muito habituados a responder às normas internacionais” de indústrias como a automóvel, aeronáutica ou a aeroespacial. Basta ter em conta que os airbags de todos os grandes construtores do mundo, da Bentley à Ferrari, passando pela Rolls Royce, Jaguar, Mercedes ou BMW são testados pelo ISQ.

“A indústria portuguesa, fruto da sua característica empreendedora, fez esse shift muito rápido para a produção de máscaras e equipamentos de proteção, que têm hoje uma imensa procura, e o ISQ está a ajudar as empresas nesta adaptação, ajudando também a economia nacional”, diz Pedro Matias. O ISQ está a ser procurado por “muitas multinacionais e entidades internacionais de referência, altamente conceituadas” para fazer as “análises de conformidade às máscaras que estão a produzir, em larga escala, para uso interno das suas equipas”. Os contratos de confidencialidade impedem a divulgação dos nomes. Quanto às empresas nacionais que procuram esta entidade, Pedro Matias admite que estejam a exportar, mas desconhece para que países. “Quando a empresa faz o pedido de análise de conformidade não tem de indicar para que países vai vender. O ISQ analisa e entrega o selo, o processo acaba aí”, frisa.

Embora a moda de luxo seja a sua área de negócios tradicional, a Calvelex, uma empresa de Lousada, tem muitos anos de experiência na produção de roupa de trabalho e, por isso, rapidamente se posicionou na produção de máscaras reutilizáveis, que certificou em laboratórios internacionais, com que habitualmente trabalha, e que tem estado a vender essencialmente para mercados europeus. E está também a fabricar batas e vestuário cirúrgicos para hospitais em Inglaterra, na Alemanha, em França e na Holanda. Sendo materiais da área da saúde, obedecem a normais europeias e a certificação nos laboratórios internacionais é aceite por qualquer país. “Já exportei muitas máscaras, mas agora a grande procura é de equipamentos hospitalares e é isso que estamos a fazer. Mas foi por necessidade, não me vejo a fazer disto negócio, quero mesmo é voltar a fazer roupa de luxo”, sublinha César Araújo.

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