Indústria 4.0

Patrões e sindicatos unidos em defesa da qualificação

Indústria tem falta de soldadores e é uma das profissões garantidamente com futuro, diz Gonçalo Lobo Xavier, vice-presidente do CESE (Sérgio Freitas / Global Imagens)
Indústria tem falta de soldadores e é uma das profissões garantidamente com futuro, diz Gonçalo Lobo Xavier, vice-presidente do CESE (Sérgio Freitas / Global Imagens)

Relatório. Revolução tecnológica obriga a agir hoje para tentar antecipar as profissões do futuro, recomenda o Comité Económico e Social

Com a digitalização e a robotização a avançar em ritmo acelerado, o Comité Económico e Social Europeu defende que a Europa se prepare para “este desafio”, definindo e adotando novas políticas em matéria de competências. O objetivo é preparar o futuro, sem desrespeito pela mão de obra atual e “salvaguardando os seus direitos e obrigações”. Em causa está a necessidade de “acelerar a adaptação dos sistemas de ensino e de formação em função dos novos postos de trabalho que se prefiguram no horizonte”. Para Gonçalo Lobo Xavier, da Associação da Metalurgia e Metalomecânica, “é preciso uma agenda que procure perceber quais serão as profissões do amanhã”. Carlos Silva, da UGT, diz que os sindicatos apoiam, até porque “não vale a pena meter a cabeça na areia”, a tecnologia veio para ficar. Mas querem, também, que se aposte na qualificação e na ‘reprogramação’ dos trabalhadores atuais.

Lobo Xavier, vice-presidente do CESE em representação da CIP- Confederação Empresarial de Portugal, foi o relator do parecer “Adoção de uma abordagem global da política industrial na UE – Melhorar o ambiente empresarial e o apoio à competitividade da indústria europeia”. Documento que, como o título sugere, defende a importância de uma estratégia de médio e longo prazo em matéria industrial, começando logo por recomendar à Comissão Europeia que elabore um estudo comparativo sobre os diferentes planos de apoio à indústria transformadora recentemente adotados nos Estados Unidos, na China e na Coreia.

O objetivo da União Europeia é aumentar para 20%, até 2020, o contributo do setor industrial para o PIB, face aos atuais 15,1%. Uma meta curta, considera a CESE, que pede uma perspetiva de longo prazo. “O objetivo não é suficiente em si mesmo”, diz Gonçalo Lobo Xavier, que alerta, ainda, para a necessidade de aprofundar a interação das startups com a indústria, contribuindo para a sua sustentabilidade. Recorda o CESE que 50% das startups estão em situação de falência nos primeiros cinco anos de vida.

Quanto à questão da qualificações, Gonçalo Lobo Xavier lembra que há um conjunto de profissões que vão desaparecer, por via da digitalização dos processos, mas que “vai ser sempre preciso alguém para comandar a máquina” e já hoje “há uma falha enorme” de trabalhadores em tudo o que é ligado à maquinação das peças, à impressão 3D e aos operadores de máquinas em geral. Com tendência para se agravar. “Temos sido muito críticos na associação, nos últimos quatro ao cinco anos, da política de cativações do Estado nos centros de formação protocolares, que criou um problema enorme na formação, quando a taxa de empregabilidade destes centros ronda os 100%”, diz.

O vice-presidente do CESE reconhece que é preciso “dar um rumo” a quem já está no mercado de trabalho e irá, eventualmente, tornar-se obsoleto. Até porque, em Portugal, apesar do desemprego estar a diminuir, um em cada três desempregados está à procura de trabalho há mais de três anos. “São pessoas que têm de ser formadas para entrar noutras áreas, como a maquinação, a análise de dados e, até, para o controlo das próprias máquinas. Quanto às novas gerações, o desafio é europeu e transversal. Não temos engenheiros suficientes e há uma falta enorme das profissões intermédias especializadas”, defende. No entanto, Lobo Xavier lembra que os profissionais no futuro “terão que ter competências muito globais e muito sociais porque as equipas produtivas vão ser, cada vez mais, multidisciplinares”.

O secretário-geral da UGT garante que o mundo sindical “está disponível e interessado em discutir” toda esta revolução tecnológica, sublinhando que “é preciso fazer um esforço para que os mais frágeis estejam, também, preparados para as alterações que aí vêm”. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), que para o ano comemora o seu centenário, elegeu, precisamente, o futuro do trabalho como o ponto central das comemorações.

Para o sindicalista, é urgente que o Governo afete mais meios para apoiar a requalificação dos trabalhadores e que altere as regras em termos de formação de turmas. Carlos Silva lembra que a qualificação faz parte do plano nacional de reformas do Executivo, mas considera que “tudo está a acontecer de forma muito lenta”. A UGT pede que este tema esteja em cima da mesa na preparação do próximo quadro comunitário de apoio.

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