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Paul de Grauwe: “Os portugueses é que estão a pagar aos alemães”

Paul de Grauwe
Paul de Grauwe

Paul de Grauwe tem uma visão diferente da crise da zona euro. São
os contribuintes portugueses que estão a dar dinheiro aos alemães e
não o contrário. Professor de Economia Internacional da
Universidade Católica de Lovaina e conselheiro da Comissão
Europeia, admite que Portugal nunca beneficiou realmente com o euro,
mas desaconselha uma saída. Para o BCE não tem meias-palavras: ou
são incompetentes ou estão a ser guiados por objectivos obscuros.

Em um ano, a zona euro estará mais integrada ou perto da
separação?

É difícil saber. Estamos perante uma bifurcação. Podem
acontecer duas coisas: uma implosão completa, com recessão e crises
bancárias, ou os Estados membros e o BCE decidem fazer o mais
correcto e evitam o colapso. Sou optimista; acredito no segundo
cenário, mas não excluo o outro.

Mas o fim do euro é plausível?

A zona euro continua frágil e pode desintegrar-se, mas temos os
meios para o evitar. Tudo depende do empenho de quem está no poder.
Se colapsar é porque as pessoas em posições-chave o quiseram.

Algum país beneficiaria com isso?

Não. No longo prazo, talvez. Países como a Grécia poderiam
desvalorizar a moeda, o que estimularia a economia. Mas seria muito
disruptivo, principalmente para a banca. No curto e médio prazo,
ninguém beneficiaria.

Nem a Alemanha?

Países como a Alemanha seriam os verdadeiros prejudicados. Essas
economias beneficiaram antes da crise, com a acumulação de
excedentes externos e forte crescimento. Durante a crise têm sido os
que mais ganham. Estão a endividar-se quase de graça. A Alemanha
pede emprestado de graça e depois empresta-vos, com um bom lucro,
não é? Na Alemanha ouve-se que os contribuintes pagam aos
portugueses, mas é o contrário. Os portugueses é que pagam aos
alemães. Se tudo colapsar, perderão imenso.

Portugal continua a beneficiar por estar na zona euro?

Não sei se alguma vez beneficiou verdadeiramente. No futuro,
Portugal poderá viver com a sua própria moeda, mas vai ser difícil
passar desta situação para uma divisa própria. O problema é a
transição. Será muito traumático e imprevisível. Não sei se
seria boa ideia fazê-lo agora.

É inevitável reestruturar a dívida?

Não acho que seja inevitável como na Grécia. Portugal é um
país honesto, apesar de ter muitos problemas. Depende das
perspectivas de crescimento. Se houver crescimento, não é preciso
reestruturar. Por agora, não teriam vantagem em negociar a dívida.

Temos um programa de austeridade muito exigente. É o caminho
certo?

É demasiado intenso e duro. Se Portugal o fizesse sozinho talvez
resultasse, mas com a Espanha, Itália e França a fazê-lo é muito
difícil e não resulta. Além disso, a queda do PIB faz aumentar o
rácio de dívida, o que torna os mercados mais nervosos e leva a uma
maior pressão deflacionária.

Passos disse que os portugueses têm de empobrecer. Concorda?

É totalmente errado. Os portugueses têm de gastar e aumentar a
produção. Reduzir o consumo sem aumentar a produção é
empobrecer. A pobreza depende da capacidade produtiva.

Que alternativas deveriam ser seguidas pela Europa?

Bruxelas devia anunciar a extensão dos programas de emergência
devido à recessão. Países como a Alemanha e a Holanda deviam
interromper a austeridade e estimular o consumo privado, para que os
países do Sul consigam sair da crise. Falta vontade ao Norte da
Europa para aumentar a despesa. Os países com défices têm de ser
ajudados pelos que têm excedentes.

As eurobonds são algum tipo de alternativa ou um pormenor?

Não são uma alternativa nem vão resolver a crise. Contudo, no
longo prazo, é importante que sejam criadas para assinalar aos
mercados o comprometimento com um projecto. Todos entendem que tem de
haver união orçamental e as eurobonds são o primeiro passo nesse
sentido.

O Banco Central Europeu (BCE) tem de ter um papel diferente?

Sim. Deve ser um credor de último recurso no mercado de
obrigações. O BCE está a dar centenas de milhões de euros aos
bancos sem preocupações de “risco moral” e não o faz com
obrigações soberanas devido a esse mesmo risco. Se não se resolver
a crise da dívida, dar liquidez aos bancos é tentar encher um balde
furado. Atacar o problema na fonte seria muito mais eficaz.
Infelizmente, o BCE não pensa assim, o que é inexplicável. Estão
a ser guiados por questões dogmáticas, em vez de práticas. Só
resolvendo a crise se salvam os bancos.

A preocupação do BCE com a inflação está a ir longe de mais?

Que fazem os bancos com a liquidez do BCE? A última coisa que
querem é aumentar o crédito; estão a acumular reservas porque têm
medo. Não há risco de inflação porque a liquidez fica nos bancos:
é pressão zero. É a incompetência completa. Não sabem o que se
passa – ou têm objectivos obscuros.

Mario Draghi pode trazer uma perspectiva diferente ?

Ele é uma esfinge: fala, mas não sei o que ele pensa. São
puzzles. Sei é que está cheio de medo dos alemães.

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