entrevista

Paulo Nunes de Almeida. “É tempo de repetir o referendo da regionalização”

Paulo Nunes de Almeida
Paulo Nunes de Almeida. Fotografia: João Manuel Ribeiro/Global Imagens

Presidente da AEP diz que “centralismo se acentuou”, como se vê pelo “decréscimo da despesa pública local sobre a total”.

No 170º aniversário da Associação Empresarial de Portugal (AEP), Paulo Nunes de Almeida, o 30.o presidente, fala da instituição que nasceu como Associação Industrial Portuense por decreto da rainha D Maria II para “desenvolver e aperfeiçoar a indústria, instruir e educar as classes laboriosas e assegurar o melhoramento de condições aos operários”. E do apoio às empresas.

O associativismo ainda faz sentido?
As empresas continuam a rever-se nele desde que acrescente valor à sua atividade. A AEP tem hoje 1800 associados ativos, mas relaciona-se diariamente com centenas de milhares de empresas.

Quais as suas maiores preocupações quanto ao futuro das empresas?
A competitividade – as empresas têm de ter boa estratégia e boa gestão. Os recursos humanos, um dos maiores desafios que temos pela frente, não só pelas circunstâncias demográficas que todos conhecemos mas porque mais de 50% dos trabalhadores por conta de outrem ainda têm, no máximo, o ensino básico. E todo o processo de internacionalização, que assenta em boa estratégia e bons capitais.

Que nem sempre existem…
As estruturas de capitais das nossas empresas são débeis, também por questões culturais. Por isso lançamos o Finance for Growth para ajudar a fortalecer as empresas.

Qual foi o momento mais difícil na história da AEP?
A grande reestruturação interna que tivemos de fazer em 2008. Porque se conjugaram dois aspetos extremamente complexos: a situação da AEP, que tinha acumulado níveis de passivo muito elevados e uma estrutura de recursos humanos muito pesada, e a crise em Portugal e no mundo. É difícil reestruturar uma instituição e mais difícil quando o ambiente é pouco favorável. Mas fomos bem-sucedidos e estamos satisfeitos. De uma dívida inicial de 98 milhões, fechámos 2018 com menos de 3 milhões. E temos até 2023 para a pagar, felizmente com um nível de juros muito baixo – mas queremos levar o passivo a zero. E fizemos tudo isto sem perdermos o nosso maior ativo, a representatividade e a ligação às empresas.

Porque cedeu a presidência da Fundação AEP?
A Fundação nasceu há dez anos e só teve um presidente. Cresceu muito, já tem 81 curadores, todos privados, e é uma instituição com credibilidade. Era chegado o momento de passar a pasta e desafiei o vice-presidente a candidatar-se.

É um primeiro passo para a sua sucessão na AEP?
Não significa nada em relação ao futuro da AEP. Tenho mandato até maio de 2020 e ainda posso fazer um terceiro mandato.

Vai fazê-lo?
Estou muito empenhado neste e o meu grande objetivo, quando sair,é entregar ao 31.o presidente desta casa uma associação sustentável, credível, inovadora e com projetos importantes. Se vai acontecer em 2020 ou mais tarde, não sei dizer.

E o futuro da Exponor?
Continuará a ser a grande montra dos produtos que se fazem em Portugal e o espaço propício para a organização de grandes eventos e congressos. Precisa de uma intervenção, estamos a ponderar qual será a melhor maneira de a fazer.

Está definido o investimento?
Não depende só de nós. A Exponor é detida por um fundo [Nexponor, de que a AEP e a fundação têm 7%] que temos tentado sensibilizar para a necessidade de se concretizar essa reabilitação.

Estamos em ano de eleições, que balanço faz da legislatura?
Ganhámos um equilíbrio das contas públicas, a melhoria do rating e credibilidade externa, mas eu teria preferido que grande parte desse esforço e dessa evolução tivessem sido acompanhados de uma reestruturação do Estado. Mantemos uma carga fiscal elevada e o que nos tinha sido vendido era que o aumento da carga fiscal era transitório, durante o ajustamento.

Houve um desagravamento sobre as famílias.
Mas não sobre as empresas, e a folga orçamental deveria ser partilhada. A verdade é que não só não houve desagravamento como continuamos a ter um sistema tributário extremamente complexo, com um conjunto de impostos especiais criados ao longo desta legislatura que prejudicam a vida das empresas e a captação de investimento. Já para não dizer que, sem reestruturação da despesa pública, não sobram recursos e o investimento público continua a ter um valor muito baixo, cerca de 2% do PIB. Se olharmos para os países da UE, só Itália está abaixo de nós, em percentagem do PIB.

O PS vence as eleições?
Não gosto de fazer futurologia, mas, olhando às últimas sondagens, acho que é o partido que reúne melhores condições para vencer. A grande questão é saber qual vai ser o quadro parlamentar depois das eleições de outubro.

Relançou recentemente o debate da regionalização. Porquê?
Porque o centralismo se acentuou e isso vê-se no decréscimo do peso da despesa pública local sobre a despesa total. Com as legislativas no final do ano, o tema deve voltar a estar em cima da mesa.

Quer novo referendo? Acredita que o resultado será diferente?
Acredito, porque tenho ouvido muita gente que votou contra e hoje tem uma posição diferente. O mapa da divisão regional que hoje supostamente será apresentado, o das cinco regiões-plano a nível do continente, é mais consensual. Claro que a regionalização, só por si, não resolve todos os problemas, mas seria uma boa razão para provocar uma reestruturação do Estado, reduzindo custos e prestando um melhor serviço.

Brexit e guerra comercial EUA/China são questões que preocupam. Portugal preparou-se bem?
É muito difícil preparar o brexit quando, ainda hoje, não sabemos como o processo vai terminar. O governo fez o que tinha de fazer e as instituições como a AEP têm prestado a informação possível aos empresários. O brexit não é bom para o Reino Unido nem para a Europa e aí o bom relacionamento que há entre os dois países e a nossa capacidade de adaptação até podem tornar o processo menos complexo para Portugal do que para outros países. Quanto aos EUA, Portugal é muito pequeno quando estamos a falar numa guerra comercial de gigantes. O que me preocupa é o clima de incerteza que interfere com os mercados.

PERFIL
Três décadas ao serviço do associativismo

Licenciado em Economia pela Universidade do Porto, Paulo Nunes de Almeida tem mais de 30 anos de experiência associativa. Foi vice-presidente na Associação Nacional dos Jovens Empresários, teve vários cargos diretivos na Associação Comercial do Porto e liderou a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. Chegou à AEP em 2008, como vice de José António Barros e, desde 2014, lidera a instituição. É membro do Conselho Geral da CIP e presidente do Conselho Fiscal da SAD do Porto.

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