Peças de ourivesaria tradicional estão a ser derretidas

Peças de ourivesaria tradicional portuguesa estão a ser derretidas por quem não tem sensibilidade para o valor das obras, numa altura de dificuldades financeiras, disse à agência Lusa, um dos mais reconhecidos ourives nacionais.

O fundador do Museu do Ouro Tradicional Manuel Freitas explicou à Lusa que alguns ourives ainda vão tendo alguma sensibilidade para preservar as peças mais valiosas, referindo, no entanto, que 90% dessas peças acabam derretidas por “ourives que não têm sensibilidade”

Este ourives de Viana do Castelo, que em 2011 doou a coleção ao município, refere que o fluxo de pessoas a quererem vender peças de ouro é diária, menor nas ourivesarias do que nas casas de compra de ouro.

“A verdade é que as ourivesarias até compram o ouro usado a melhores preços, mas têm o senão de serem um espaço aberto, em que as pessoas são vistas por toda a gente”, contou.

Face às necessidades das famílias, Manuel Freitas confessa o receio da perda de um verdadeiro “património artístico, cultural e histórico”, que “sem problemas” segue diretamente para fundir.

“As pessoas habituaram-se a um nível de vida e o que vejo são as avós a venderem o ouro para dar algumas coisas aos filhos e aos netos. Por isso desfazem-se do ouro, de peças únicas”, diz, ainda, reconhecendo que muitas vendem, mas com os olhos “em lágrimas”.

Com meio século dedicado à recolha e investigação da história do ouro tradicional e popular, este economista de formação, recorda que a venda das peças de família, passadas de geração para geração, era “muito rara”, sobretudo nas aldeias.

Agora, confessa, que nestes contactos diários com famílias que querem vender ouro para “fazerem algum dinheiro”, já lhe passaram pelas mãos “muitas peças com grande valor e antiguidade”.

Sempre que possível tenta ficar com elas, até porque diz estar certo do destino de muitas destas peças.

“O ouro tradicional, de família, que se via muito no Minho vai desaparecer, de certeza. Como desapareceu o ouro nas grandes depressões. Vejo-me aflito para encontrar determinadas peças dos séculos XIX e XX, porque muita coisa foi derretida”, disse.

O criador do Museu do Ouro Tradicional de Viana do Castelo assegurou que a venda de peças de família, algumas “com várias dezenas de anos”, nunca foi “tão elevada” como agora, sobretudo com a proliferação de casas especializadas, “no negócio e na descrição”.

Entre 2007 e 2011, com um assalto mediático pelo meio, o museu do Ouro Tradicional, e as suas 650 peças históricas, recebeu 30.000 visitas.

Entre a coleção contam-se sobretudo dezenas de peças em ouro popular, mas também outras mais trabalhadas, entre as quais um pesado colar de Gramalheira ou vistosas Custódias, além dos típicos brincos oferecidos às crianças pelos familiares.

“A importância desta coleção será dada a cada ano que passa, mas sobretudo daqui a uns 30 anos, já que por este andar serão verdadeiramente raras. Mesmo para os ourives com sensibilidade é cada vez mais difícil viver com esta crise”, reconheceu.

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