Pedro Barata: "Um IRC competitivo e sem taxinhas seria chave para atrair talento"

Líder da CFA Society Portugal antecipa inversão na inflação. Só não adivinha "se chegaremos aos 2% em 2023 ou 2024". E defende que taxar lucros extra prejudica o investimento no setor e a sociedade.

Pedro Barata, diretor executivo da CFA Society, é licenciado em Administração e Gestão de Empresas e mestre em Finanças pela Católica. Trabalha no setor financeiro há quase três décadas e exerceu funções desde auditor de empresas em consultoras a analista da Deco Proteste...e gestor de património. Agora está à frente dos destinos da CFA Society Portugal, como diretor executivo desta associação de direito privado sem fins lucrativos que opera com e para players do setor financeiro e em nome da transparência.

Estamos no final do ano. Tendo em conta o trabalho que acompanha e desenvolve no setor financeiro, que balanço faz de 2022?
Em termos de mercados financeiros foi muito desafiante, foi um ano bastante mau em performances. Infelizmente, a generalidade dos investidores perdeu dinheiro - algo que não acontecia desde o termo da crise 2007-2009 - com a generalidade dos mercados, ações, obrigações, com performances negativas. Essencialmente no primeiro semestre, devido à invasão da Rússia à Ucrânia, os mercados reagiram mal e foram meses consecutivos de quedas. Finalmente houve agora uma luz ao fundo do túnel com outubro e novembro positivos. Se bem que no fim do ano, com o presidente da Fed anunciar que as subidas das taxas de juro se vão prolongar, tenha havido novas quedas, acreditamos que 2023 será melhor.

Estamos num mundo em revolução, da descarbonização à digitalização. Que prioridades marcarão 2023 para os investidores?
As energias limpas são uma preocupação dos reguladores, essencialmente do BCE. Muitas medidas estão a ser tomadas e levarão, de 2023 em diante, a que cada vez mais projetos de investimento e empresas que recorrem a financiamento bancário o consigam apenas se tiverem viabilidade energética, se não provocarem emissões de carbono. Em termos de mercados numa perspetiva de outlook, começamos a ver no setor obrigacionista rendibilidades atrativas. Nas yields, derivado da política monetária dos últimos dez anos, muito expansionista, com BCE e Fed a introduzir liquidez via compra de obrigações, criou-se uma bolha que as trouxe para valores muito baixos. Há um ano, a maioria dos países tinha yields muito baixas e quem investia perdia dinheiro; essa bolha rebentou em 2022 - foi uma das justificações para ter sido um ano tão mau. É um refúgio onde investe quem tem um perfil mais conservador e que tem retornos mais baixos mas não há grandes perdas, mas com a bolha a esvaziar-se tão rapidamente houve grandes quedas. Agora, as yields começam a ficar atrativas. As americanas, principalmente de curto prazo, já estão com 4,5% na dívida governativa e as empresas chegam a 6% ou 7% - há um ano eram negativas, é uma inversão brutal. Na Europa, havendo ainda compras de dívida pública pelo BCE estão nos 2%/2,5%, não tão atrativas.

Na última década o nível de literacia financeira revelou-se baixo na maior parte dos países, incluindo os mais desenvolvidos. Portugal devia adotar uma estratégia nacional neste domínio?
Há estudos que indicam que a literacia financeira em Portugal é mais baixa do que noutros países europeus. Há análises comparativas que indicam que os portugueses que investem em ações vs. espanhóis, belgas, alemães são muito menos, e tem que ver com isso. A nossa função na CFA é também a promoção da literacia financeira. Criámos em 2019 um grupo formado por membros que se dedicam a isso, organizamos workshops gratuitos, online e presenciais, sobre as vantagens de investir: porque é que ao fim de dez anos a poupar e investir podemos criar um pé de meia, explicamos o que são os produtos financeiros (ação, obrigação, produto estruturado, depósito a prazo, graus de risco), explicamos erros típicos dos investidores (ganância, medo). Havendo empresas interessadas, fazemo-lo junto dos seus colaboradores e a aposta é continuar na medida do possível, trabalhando com os órgãos reguladores, nomeadamente a CMVM e o BdP.

Mas há falta de cultura dos portugueses para investir em bolsa ou faltam incentivos?
Ambos. Por um lado é a falta de literacia e um histórico recente de alguns escândalos e perdas - ações cotadas que desapareceram de um dia para o outro com perdas de 100%. Mas os incentivos legais não são os melhores. Nos EUA há incentivo a poupar a longo prazo com muito mais benefícios para o investidor - estamos a falar de pequenos investidores que querem compensar as baixas reformas; porque é essa a tendência, ir baixando com a fraca sustentabilidade da Segurança Social. Portanto, está tudo mal. E talvez também falte literacia financeira nas empresas - são poucas as que recorrem ao mercado de capitais quer na ótica de emitir empréstimos obrigacionistas quer de dispersarem capital em bolsa.

Os desafios de ESG e sustentabilidade económica, ambiental e social são enormes e vão implicar muito investimento. Poderá isso ser chave para incentivar o uso desses instrumentos, até pela mudança geracional na gestão, com maior predisposição dos gestores mais jovens para recorrer aos mercados?
Claramente há um problema geracional e as novas gestões têm muito mais abertura. Quanto ao quadro ESG, é uma inevitabilidade imposta pelos organismos da UE e do BCE e tem impactos inevitáveis em custos, que serão diluídos com as sinergias futuras, mas a tendência será para as instituições financeiras só financiarem projetos sustentáveis. Portanto é uma questão de tempo. Terá de acontecer uma adaptação.

E poderá provocar a mudança nas vias de financiamento?
Vai provocar. Tendo de ter uma avaliação ESG nos produtos financeiros e sendo as green bonds uma inevitabilidade, isso terá de acontecer, com mais ou menos dor.

Tudo isto acontece no meio de uma crise brutal. As empresas têm de transformar-se enquanto lidam com a inflação e ainda com os efeitos de dois anos de pandemia... Que mundo de negócios sairá desta convulsão profunda?
Era ter uma bola de cristal... Há sempre coisas novas a acontecer e empresas que se conseguem adaptar melhor. Quando a covid apareceu, era o fim do mundo, os governos a mandar fechar a economia, a proibir as vendas, a laboração das fábricas... e as empresas adaptaram-se. Portanto há que haver resiliência e neste momento os custos energéticos (petróleo e gás) são o maior desafio, mas caso não haja estabilização e os preços continuem a escalar, pode abrir-se uma tremenda oportunidade para as empresas de renováveis. Acredito muito na resiliência do ser humano.

Essa tem sido uma bandeira de Bruxelas, mas há algum atraso...
Em Portugal especificamente há um potencial tremendo, somos dos países europeus mais desenvolvidos, temos facilidades no solar, na eólica, nas marés. Estamos no sítio certo. E podíamos estar menos dependentes das energias sujas, mas isto é um caminho, que passa pela inovação para haver mais players a participar e trazer os preços para baixo. Mas não é para amanhã, é uma tendência que vai continuar.

Estamos a assistir à definição de taxas solidárias sobre lucros imprevistos, definição de IRC mínimo no espaço europeu para as big tech... É a falência do capitalismo, ou uma nova forma de capitalismo, que se preocupa em deixar melhor a comunidade em volta?
Só há investidores se houver ganhos. Se eu invisto - particular ou grande player - é para ganhar dinheiro, isso faz parte da condição humana. Se não houver perspetivas de ganhos, acaba-se o investimento - deste tipo mas também no que respeita ao negócio das empresas. Portanto, taxar lucros pode ser uma situação em que pode haver vantagens temporárias resultantes de circunstancias da economia, mas no longo prazo é um impeditivo ao investimento nesse setor.

Taxar lucros é contraproducente.
A médio prazo sim, pode ser contraproducente para o investimento no setor e prejudicar a sociedade, sobretudo se for em setores críticos, como a grande distribuição. Taxar é uma barreira a haver novas empresas. Se eu penso vir para Portugal - imagine a Mercadona, que está a entrar aqui - isso pode ser uma barreira que me afasta. A médio e longo prazo é mau para a economia.

A digitalização das sociedades traz desafios enormes, desde logo de reskilling. Temos neste momento, pleno emprego e a maior falta de pessoas de sempre. O que devíamos estar a fazer para reconverter pessoas desses empregos que vão deixar de existir para novas funções?
É mais uma vez um tema geracional. Se há setores com falta de trabalhadores - e sempre os houve - as pessoas acabam por apostar nessas funções. Se calhar é mais difícil converter pessoas mais velhas, que até podem ter menos aptidão, mas os jovens acabam por seguir as áreas onde há mais oferta de trabalho.

Mas como se garante que ninguém fica para trás nesta transição tão rápida?
A IA vai ser uma revolução parecida com a Revolução Industrial, eventualmente muito mais rápida, mas não estou a ver isso acontecer já, acho que vai ser gradual.

É o que temos visto na banca.
Exatamente, é um bom exemplo. Os bancos tradicionais portugueses estiveram nos últimos 20 anos a cortar. E muitos comerciais reconverteram-se, foram para carreiras por exemplo no imobiliário e outras em que se valorize a componente comercial, e os serviços prestados pela grande banca começaram a ser prestados por pequenas empresas de wealth managemnet, family offices... Portanto, vão surgir outras necessidades que hoje não imaginamos e que vão puxar pessoas. O setor bancário mudou imenso e tivemos a sorte de Portugal estar na moda e haver muito investimento em pequenas empresas ou projetos imobiliários que precisam de corporate finance, houve muitas multinacionais a querer vir para cá, como BNP Paribas, Mercer, Natixis e Revolut e isso permitiu reter muita capacidade qualificada em postos relevantes. E que estão até a servir clientes que não estão em Portugal.

Mas há falta investimento em talento? Como se trava a fuga de jovens qualificados?
Nós não temos a capacidade financeira de outros países europeus, ou mesmo dos EUA, por isso não conseguimos travar. Quando aqui me oferecem um valor e na Alemanha me dão para as mesmas funções quatro ou cinco vezes mais, muita gente quer mudar... Mas isto já acontece há muitos anos - nós temos no setor financeiro universidades muito reputadas internacionalmente, que fazem excelente trabalho, pelo que muitos estrangeiros vêm formar-se aqui e muitos portugueses emigram, mas ao fim de um tempo regressam e são mais-valias, em termos de ideias, de trabalho e até de capital, porque muitos vêm abrir os seus negócios. Portanto, mesmo mantendo-se esta tendência de exportar capacidade, acabamos por ter algum retorno quando as pessoas regressam às origens.

Alguns não regressam e isso também pesa no problema demográfico, com reflexo na pressão sobre a previdência...
Isso está a acontecer, a saída de quadros jovens, mas o setor financeiro por exemplo é constantemente contactado por pessoas que querem vir para Portugal. E alguns têm capacidade de financiamento, vêm para montar negócios. Portanto, há também essa tendência de pessoas qualificadas que querem imigrar e têm capacidade financeira - as coisas não são tão más quanto se pintam. Quanto à retenção de pessoas, há duas coisas que funcionam. Uma é a medida que se tomou há uns anos de permitir o regresso de quadros com isenções fiscais - isso funciona bem. Mas mais do que isso, sermos muito mais competitivos a nível empresarial. No IRC. O modelo irlandês de que toda a gente fala bem é uma referência e se nós tivéssemos um quadro regulatório muito mais competitivo, com taxas de IRC mais competitivas e sem taxinhas que somam e tornam a taxa real muito mais pesada, e sem alterações permanentes do quadro fiscal - porque quem investe não gosta de surpresas, mesmo boas - isso seria um motor de atração, ainda mais do que os benefícios em termos individuais. Porque aí estamos a criar riqueza, multinacionais que vêm para Portugal criam postos de trabalho, descontam para a segurança social, pagam IRC, os empregados pagam IRS, consomem e pagam IVA, portanto engordam a receita fiscal e baixam a taxa de desemprego. Devíamos ir mais por aí.

Falando em PRR, a maior injeção de fundos de sempre na economia, é uma oportunidade mas há risco de perdermos e de no meio disto se perder investimento e investidores?
Se o plano for executado, não. Neste momento está atrasado, há um compromisso do governo em acelerar e recuperar do atraso. Mas não acontecendo, esta fonte de receitas, este investimento que vai beneficiar o país e será muito bem-vinda terá risco.

Que será perder a oportunidade e os investidores?
Isso sempre aconteceu, mas além da oportunidade que se pode perder se o plano não for executado tem que ver com a nossa política em termos empresariais ser competitiva. Se for, a médio longo prazo vamos beneficiar.

Voltando à conjuntura, temos a inflação ainda alta, as projeções para 2023 estão acima do que se previa, o BCE está a subir mais e mais rápido as taxas de juro... É o remédio certo?
É preciso dar tempo ao tempo para as coisas acontecerem. E perceber o que está na génese desta inflação: houve dois acontecimentos totalmente atípicos que provocaram esta disrupção enorme. Primeiro, a covid, que provocou o encerramento das economias, é uma anormalidade e foi um fator atípico. O segundo foi a invasão da Ucrânia, totalmente inesperado e que gerou uma crise mais focada nos setores energéticos e das commodities alimentares. Ainda há um ano, quando retomaram as economias, discutíamos e acreditávamos que a inflação era transitória. Daí há quem aponte que os bancos centrais demoraram muito a subir taxas de juro, permitindo-se que a inflação chegasse a esta anormalidade que são os 10%, passámos de 0% a 10%. É muito poder de compra que pessoas e empresas perdem. Mas como se perdeu tempo, os bancos centrais tiveram depois de ser mais rápidos e violentos a subir as taxas - e já se vê alguns efeitos disso, nomeadamente em novembro, o primeiro mês em 5 ou 10 anos em que a massa monetária nos EUA se reduziu. O que isso significa é uma tendência para o dinheiro ficar mais caro, logo as pessoas tendem a poupar e conservá-lo e a procura de bens reduz-se, É um dos princípios na origem da subida da taxa de juros. Por outro lado, um dos fatores que originaram inflação foi a subida muito acentuada até junho de 2022 das commodities, tanto alimentares como energéticas, metais. Foram subidas de 40% a 80% com impacto na economia. Estas atingiram um pico no final do primeiro semestre e estão agora em desvalorização ou estabilização. Depois, se anualizarmos a inflação dos últimos quatro meses nos EUA chegamos a valores em torno de 3%, o que para quem estava em 8% é bastante bom.

O ano de 2022 fica marcado por diversos casos a envolver figuras públicas em processos, ligados a alegada gestão danosa, ou outro tipo de crime financeiro, quer a nível nacional ( o ex-secretário de Estado adjunto do 1º ministro, entre outros) quer a nível internacional (o caso Qatargate. Onde é que falham as instituições?
Estou curioso para ver o que vai acontecer agora na Europa e acredito que haverá uma reflexão profunda e que sejam tomadas medidas céleres. Porque enquanto aqui já estamos de certa forma acostumados a crimes de colarinho branco os países do norte da Europa não e irão provavelmente reagir com força. Isto é mau, põe em xeque a credibilidade das instituições europeias mas pode ser um mal que vem por bem e permita melhorar nesta área. Nós na CFA Society temos um objetivo de promover a ética no setor financeiro, que vai muito além da corrupção. A certificação dos nossos membros, quase todos a trabalhar no setor financeiro, é revista anualmente e para isso tem de assinar um código de ética que tem um conjunto de regras a cumprir, nomeadamente profissionalismo, conhecer a legislação, ter integridade na atuação nos mercados de capitais, estar de boa-fé e não manipular, deveres para com o cliente e a entidade patronal, entre outros. Nós ao promovermos a ética atacamos a corrupção mas tentamos também ser cada vez mais exigentes eticamente no setor financeiro.

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