Pela primeira vez, poupança é negativa. Famílias gastam mais do que têm

Compra de carros contribuiu para algo inédito. Famílias gastaram todo o seu rendimento disponível e mais que isso em consumo, sobretudo, de automóveis

As famílias portuguesas tiveram um rendimento disponível de 29 mil milhões de euros no primeiro trimestre deste ano. Mais 0,4%. Mas Estão a prejudicar a sua poupança. Pela primeira vez em 17 anos (pelo menos), todo o valor que receberam em salários, pensões e rendimentos do capital foi gasto em consumo, e ainda foram buscar dinheiro às poupanças para pagar estas despesas.

Resultado: a taxa de poupança do primeiro trimestre (peso da poupança bruta sobre esse rendimento disponível) foi negativa (-1,2% do rendimento disponível bruto), algo nunca visto nas últimas décadas.

Parece que muito do dinheiro foi para comprar carros, diz o Instituto Nacional de Estatística (INE) nas contas nacionais por sector institucional até final do primeiro trimestre, ontem divulgadas.

O “rendimento disponível corresponde ao valor que cada sector institucional dispõe para afetar à despesa de consumo final ou à poupança”. Quando o consumo aumenta mais rápido do que esse rendimento (como acontece agora), a poupança cai, necessariamente.

Neste primeiro trimestre, até houve uma recuperação dos salários (aumento homólogo de 2,5%), algo que será explicado pela retoma ténue do emprego e pelas medidas de reposição dos rendimentos tomadas pelo novo governo.

Transferências recebidas de Suíça e Angola caem

No entanto, houve outras fontes de rendimento que correram mal, comendo o orçamento disponível do conjunto das famílias.

O INE dá conta de uma “diminuição das transferências recebidas pelas famílias” que foi ditada “por uma redução significativa das remessas de emigrantes, o que em parte terá sido determinado por restrições às transferências privadas, impostas em países de destino da emigração portuguesa, como Suíça e Angola”.

Angola entrou numa grande crise por causa da queda brutal nos preços do petróleo, o que motivou menos repatriamento de valor para Portugal por parte dos que lá trabalham.

Os acordos de partilha de informação entre Estados para limitar a fuga aos impostos e a lavagem de dinheiro em bancos da Suíça também terão tido um papel restritivo. Há hoje mais barreiras à circulação de capitais do que havia há um ano.

Em cima deste efeito, há ainda o impacto direto das decisões das famílias relativamente à forma como usam o seu dinheiro. Acresce ainda o facto de o atual ambiente ser de taxas de juro historicamente baixas, o que desmobiliza a poupança em produtos como depósitos.

O INE, referindo-se à soma dos últimos quatro trimestres terminados em março, diz que “o consumo final aumentou 0,9% no ano terminado no primeiro trimestre de 2016, refletindo sobretudo um incremento dos bens duradouros e, em particular, da componente automóvel”.

“Em parte, deveu-se a uma antecipação de aquisições devido às alterações introduzidas no respetivo imposto”, que passou a penalizar mais a compra de carros.

Portanto, em suma: a taxa de poupança foi negativa no primeiro trimestre; o valor poupança bruto colapsou para 356 milhões de euros negativos.

Analisando a série (soma acumulada de quatro trimestres), percebe-se que a taxa de poupança anual das famílias andará agora perto de 3,5% do rendimento disponível, uma das mais magras da Europa. A média da zona euro ronda os 13%, na Alemanha é 17%, só para se ter uma noção das disparidades existentes.

Menos poupança significa menos capacidade para investir ou inovar, maior dependência em relação ao crédito bancário, menor criação de emprego a prazo.

Centeno. Défice do INE é bom e ajuda a aguentar Brexit

O défice público português do primeiro trimestre foi de 3,2% do produto interno bruto (PIB), ficando acima, portanto, da meta de 2,2% que o governo tem para este ano, revelou o INE no apuramento do indicador em contas nacionais, as que contam para Bruxelas.

“O saldo das administrações públicas situou-se em -1406,1 milhões de euros no primeiro trimestre de 2016, correspondente a -3,2% do PIB.”

Este valor compara com um défice no mesmo trimestre do ano anterior de 5,5% do PIB (2344,6 milhões de euros). A meta do ano passado (do anterior governo) era 2,5% para o ano como um todo e depois foi flexibilizada para 2,7%. O défice acabou por ser 4,4% por causa da ajuda ao Banif.

O desequilíbrio das contas públicas caiu de 2,3 mil milhões para os tais 1,4 mil milhões porque “verificou-se um aumento da receita total (2,3%) e uma diminuição mais acentuada da despesa (2,7%)”.

Do lado da receita, destaca-se o aumento da receita com impostos sobre a produção e importação (9,3%); do lado da despesa, o INE repara numa queda de 28% no investimento público e de 11,1% na despesa com juros.

Numa nota enviada ao Dinheiro Vivo, Mário Centeno congratulou-se com os números que classificou como bons, sublinhando que ajudam o país a aguentar o cenário Brexit (saída do Reino Unido da UE), que entretanto se materializou.

Este 3,2% é “o défice orçamental do primeiro trimestre mais baixo desde 2008” e representa uma redução de “2,3 pontos percentuais no desequilíbrio orçamental entre o primeiro trimestre de 2015 e igual período de 2016”. Isto “excede a melhoria de 0,9 pontos percentuais prevista para 2016”.

Para o ministro das Finanças, o resultado apurado pelo INE “reafirma o compromisso com os objetivos orçamentais que permitirão a saída” de Portugal do défice excessivo.

As Finanças terminam dizendo que “a continuação de uma gestão orçamental rigorosa é fundamental para ultrapassar momentos de incerteza que se vivem na União Europeia, como os que resultam da opção brexit expressa pelos eleitores britânicos”.

Custo do trabalho em queda há ano e meio

Os custos do trabalho por unidade produzida (CTUP) estão a cair há um ano e meio, desde o último trimestre de 2014, mostra o INE. “No 1º trimestre de 2016, os custos do trabalho diminuíram 0,5%, menos intensamente do que no trimestre anterior (redução de 0,7%)” fruto da “redução de 0,6% da remuneração média”.

Esta quebra nos salários “mais do que compensou a ligeira diminuição da produtividade” e “a diminuição da remuneração média resultou de um aumento do emprego superior ao aumento das remunerações”. Durante o programa da troika, no final de 2012, os custos chegaram a afundar mais de 3%.

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