Qualificações

Peso de desempregados licenciados bate recorde de 25,5% do total

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O primeiro-ministro, António Costa, numa visita à Bosch de Ovar. Fotografia: PAULO NOVAIS/LUSA

Contingente dos desempregados nunca teve tantas pessoas com curso superior como agora, indicam dados do INE, analisados pelo DV.

O desemprego tem descido de forma consistente nos últimos anos – desde o início de 2013, com alguns solavancos e depois desde 2016 de maneira mais contínua -, mas há um problema que continua por resolver.

O contingente dos desempregados nunca teve tantas pessoas com curso superior como agora, indicam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) analisados pelo Dinheiro Vivo.

As séries disponíveis, que remontam a 1998, mostram que a proporção de desempregados licenciados atingiu, no quarto trimestre de 2018, o maior valor de que há registo: 25,5% dos 349,1 mil desempregados tinham algum diploma de ensino superior completo. Este grupo conta agora com 89 mil casos.

Ao passo que o desemprego total caiu mais de 19% no último trimestre do ano passado, o contingente de diplomados sem trabalho engrossou mais de 14%.

Pior: o Ministério do Trabalho, através do seu Gabinete de Estratégia e Planeamento, revela que o desemprego de longa duração de licenciados (diplomados que estão à procura de trabalho há mais de um ano) também aumentou. No quarto trimestre, a subida foi de quase 4%, para um total de 33,8 mil pessoas nessa situação. O peso deste grupo no desemprego total ascende agora a 10%, o maior em dois anos.

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Portanto, mesmo com a economia a recuperar, existe um problema grave com as qualificações mais elevadas. Ou são qualificações que as empresas não procuram ou não há investimento suficiente para absorver este capital humano. Segundo especialistas, os dois problemas coexistem.

Há quinze dias, o Banco de Portugal referiu-se a eles como um travão ao desenvolvimento futuro. No boletim económico, a instituição de Carlos Costa admitiu que o emprego vai crescer “a um ritmo progressivamente mais moderado” e que existe “um aumento das restrições na oferta de trabalho”. O número de empresas que diz ter “dificuldade em contratar pessoal qualificado encontra-se acima da média histórica”.

Entre os fatores limitativos, elas apontam “a dificuldade de contratação como o segundo fator mais relevante em 2018”. A percentagem de empresários que assumem essa dificuldade “como sendo limitativa do investimento também tem aumentado”. Menos investimento, menos produção.

O pico provocado pela indústria 4.0

Os economistas parecem estar de acordo com a tese do desfasamento das qualificações. Portugal tem mais licenciados e pessoas com qualificações elevadas, mas há um desencontro entre o que os investidores procuram e o perfil de capital humano existente.

Ricardo Paes Mamede, professor de Economia do ISCTE, diz ao Dinheiro Vivo que há evidências de que existe “desencontro” entre as qualificações que determinadas empresas ou setores necessitam e as qualificações disponíveis.

“Há sinais muito óbvios de falta de pessoas qualificadas sobretudo nas tecnologias da informação, programação, big data”, “áreas que estão a crescer muito”. O economista dá como exemplo “uma série de projetos em curso ligados à indústria 4.0, à aplicação do big data, das ciências de dados, que faz que haja muita procura e isso ajuda a explicar relativamente bem o tal desfasamento de que se fala”.

Frisa ainda que o desencontro é feito de muitos pequenos casos nas novas indústrias do conhecimento e não tanto transversal à economia. “Não acho correto dizer que o desajustamento das qualificações é generalizado, que é o que os liberais costumam defender.”

Além disso, acrescenta Paes Mamede, “houve grande saída de pessoas muito qualificadas para o estrangeiro”, que agravou a rarefação de certos qualificados. “O fenómeno das novas tecnologias está a acontecer em vários países e mesmo produzindo cá um contingente aceitável de qualificados, boa parte acaba por sair, consegue empregos altamente bem pagos no estrangeiro.”

Claro que os salários também podiam ser superiores, para aliciar melhor um programador ou engenheiro, mas o economista aceita que “é muito difícil para algumas empresas em Portugal praticarem os níveis salariais da Alemanha”.

O governo criou recentemente o Conselho para a Produtividade, uma estrutura partilhada entre os ministérios das Finanças e da Economia que alertou para o problema da falta de qualificações em certas áreas e ao nível das chefias e dos empresários, reparou no desalinhamento das qualificações com o que procuram as empresas e para a falta de investimento em geral, que limita o potencial do país.

“Portugal é o terceiro da área do euro que regista maior desfasamento entre qualificações e exigências do posto de trabalho”, “23,6% dos trabalhadores estariam sobrequalificados face às suas funções”, por exemplo. O mercado de trabalho tem ainda “uma das maiores percentagens de trabalhadores com áreas de estudo desfasadas face às necessidades do posto de trabalho”. “A elevada segmentação no mercado de trabalho, ao constituir um entrave à mobilidade, contribui para estes desfasamentos, prejudicando a eficiente alocação de recursos.”

O conselho está também preocupado com a falta de dinamismo dos salários, que trava a produtividade. “O crescimento dos salários em termos reais tem sido inferior ao crescimento da produtividade, traduzindo-se numa redução da componente do produto distribuído em rendimentos do trabalho.”

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