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Peter Villax: “António Costa trouxe confiança, mas ser jovial não chega”

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Em entrevista, o empresário fala sobre os desafios para a economia portuguesa. O principal é crescermos a um ritmo de 4% ao ano.

Inventor e autor de patentes na área farmacêutica, Peter Villax fez parte da carreira na empresa da família, a Hovione, fundada em Portugal na década de 1950. Começou como programador, tornou-se administrador e hoje lidera a Hovione Capital, uma das empresas do grupo, dedicada ao investimento. Mentor do manifesto dos 100 empresários, que há quatro anos mostrou preocupação com a possibilidade de um governo PS apoiado pelo BE e PCP, é presidente da Associação de Empresas Familiares.

A Associação de Empresas Familiares desafiou há pouco tempo o governo, os empresários, os sindicatos para que Portugal assuma o objetivo de crescer 4% ao ano. Neste momento o crescimento está a abrandar… Que caminho propõe para lá chegar?
Precisamos de metas ambiciosas para o nosso crescimento e estes 4% são uma meta ambiciosa, mas também realista. Portugal já teve, há muitos muitos anos, estas taxas e mesmo hoje outros países têm crescimentos de 6%, 7%, 8%.

Na Europa é um cenário difícil.
Mas porque é que temos de nos cingir ao exemplo da Europa?

É o espaço onde estamos…
Só dependemos das nossas ideias, da capacidade de gerar novos mercados e fazer produtos e serviços novos. Porque é que não podemos crescer mais do que a Europa?

Mas não há uma série de empecilhos nesse caminho?
Então vamos ultrapassá-los.

A nível nacional e internacional? Mesmo de contexto?
Precisamos de ambição, de visão e de pessoas que acreditam que é possível fazer muito melhor.

Mas quais são então esses ingredientes que defende?
Temos uma coisa nos últimos 10 anos que é a economia baseada sobre o conhecimento. É uma economia nova, que traz enormes vantagens mas tem imensos desafios. A economia baseada sobre o conhecimento permite que consigamos transformar o que aprendemos na escola, no ensino superior e na vida em produtos que têm muito mais funcionalidade, utilidade e que se podem vender com uma excelente margem. Há duas mensagens importantes: a transformação digital e a indústria 4.0. A indústria já há décadas que se automatiza mas hoje, com os sensores que conseguimos instalar nas máquinas, conseguimos fazê-las muito mais inteligentes e produtivas.

O que traz desafios enormes.
Traz muitos, sobretudo a nível social porque infelizmente o conhecimento não está bem distribuído. Os níveis de conhecimento necessários hoje para operar uma máquina, para ser um blogger não estão, infelizmente, ao dispor de todos. E este desequilíbrio de conhecimento gera desequilíbrios na sociedade e no emprego. No século XX, conseguimos pleno emprego porque havia um capitalismo baseado sobre a indústria, uma indústria não muito sofisticada. A taxa de desemprego rondava 3%. Agora é muito diferente. Temos carros que se conduzem sem condutor; o que é que vai acontecer aos motoristas de táxi, autocarro?

E como se faz essa reconversão?
Neste momento estamos no período mais difícil, que é o da transição, mas no século XIX os trabalhadores manuais foram substituídos com o surgimento da energia do motor a vapor; houve revolta social em Inglaterra, mas o sistema conseguiu reabsorver essas pessoas. Ainda não conhecemos a solução, mas há precedentes na História que mostram que é possível.

Há que envolver toda a sociedade civil para encontrar solução?
Absolutamente.

Há quatro anos manifestou preocupação com a possibilidade de termos um “governo de esquerda apoiado pela extrema-esquerda”, temia que “passássemos de uma política de formiga para uma política de cigarra”. Entretanto já elogiou o discurso otimista do primeiro-ministro. Elogia também os resultados que foram obtidos nestes anos? Os receios foram dissipados?
Quatro dias antes de António Costa ser nomeado primeiro-ministro, portanto quando ainda havia aquela incerteza, ele convidou-me para o Largo do Rato para me explicar o seu programa, porque eu tinha manifestado grandes preocupações em relação a um governo com participação dos comunistas e do BE. Tivemos uma conversa de hora e meia e efetivamente o meu prognóstico era desfavorável mas ele, com a sua jovialidade extraordinária, ouviu-nos. Encontrámo-nos agora há dias e ele diz-me: “Lembra-se daquela reunião? Então quando é que dá a mão à palmatória?” É uma pessoa com um fantástico sentido de humor e fair play. Costa representa um capital de confiança que não existia antes deste governo e essa confiança foi um ativo essencial para as pessoas sentirem que havia futuro.

Andávamos deprimidos.

O sentimento de depressão existia e era forte. Mas ser jovial não chega. Estamos com um crescimento de 2,1%, tem de ser maior. Estamos com uma dívida pública que baixou para 121% do PIB e vamos numa boa direção mas continuamos frágeis; se a economia mundial espirra, apanhamos pneumonia. Nunca temos almofadas para nos protegermos dos espirros dos vizinhos e isso é preocupante. Não somos robustos, falta-nos solidez e é para isso que temos de trabalhar.

Na altura da crise, as nossas empresas tiveram de começar a exportar mais e a procurar novos mercados. Tem sentido que há um abrandamento nesse movimento ou é conjuntural?
É conjuntural. As empresas têm os seus orçamentos, planos de venda, estratégias, apontam sempre para conseguir e esforçam-se. É muito importante o que gestores e trabalhadores se esforçam por conseguir os objetivos,… sobretudo quando há uma boa distribuição dos proveitos do sucesso e toda a gente luta pelo mesmo.

O endividamento da economia como um todo ainda ronda os 350% do PIB. As dívidas pública e privada são altas, nomeadamente a das empresas. Isso também condiciona o crescimento?
Claro, mas não há muitas soluções senão repagar as dívidas. O que temos é de libertar mais riqueza através das empresas. Estamos sempre a dizer que a produtividade é baixa e há uma conotação do trabalhador que trabalha pouco, que chega tarde, que está sempre de baixa… mas essa não é a causa. A baixa produtividade é devida a gestores que não têm negócios com margem suficientemente alta. Produtividade é valor acrescentado bruto dividido pelo número de trabalhadores.

É um ciclo vicioso: mais produtividade gera riqueza, riqueza permite pagar a produtividade.
Então é um ciclo virtuoso. Temos de ter melhores empresas e negócios, margens mais elevadas para poder aumentar os salários.

Vídeo: Falta de produtividade em Portugal não se deve aos trabalhadores

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O Banco de Portugal acredita que a produtividade deve aumentar em 2019, depois de dois anos consecutivos em que deu contributo negativo ao país.
Porque o emprego subiu. O emprego é o denominador da fração e a produtividade baixa por isso.

O desemprego baixou até 6%, não há muito mais margem…
Aí não, o que temos de trabalhar é no numerador da fração, que é a quantidade de valor bruto gerado.

Acredita que nos próximos anos o aumento de produtividade pode ser uma realidade mais constante do que até agora?
É nessa direção que devemos todos caminhar, gestores, trabalhadores, sindicatos, governo, administração, todos temos de ir no sentido de maior crescimento e abrir os braços aos investidores.

Tem dito que o salário mínimo é miserável…
Costumo utilizar o termo indigno.

Até onde é que os salários podiam subir para serem dignos?

Não lhe vou dar um valor mas muito mais do que 600 euros. A Suíça não tem recursos, não tem petróleo, não tem carvão……tem neve, água e suíços. O sistema financeiro não existia no século xix, foram os suíços que o fizeram. Trabalhar com suíços é rigoroso, é transparente e é simples, é dos países onde se consegue fazer negócios com empresas industriais da forma mais simples que há. Temos ainda o exemplo de Singapura. Na sua independência, em 1961, era um país pobre e teve uma transformação tão incrível que quando Deng Xiaoping sucede a Mao e vai visitar o primeiro ministro de Singapura pergunta-lhe como é que eles fizeram para copiar na China.

E enquanto não houver aqui essa transformação o salário mínimo deve ficar nos 600 euros ou há condições para o subir?

Eu falo de estratégia de longo prazo, para ter uma economia próspera daqui a cinco, dez, 20 anos. O curto prazo será responsabilidade do governo, não sou eu que vou dizer para que nível é que o salário mínimo deve subir. Quero que suba o mais possível e que a economia consiga aguentar sem afetar a competitividade das empresas e a realidade das exportações. Não podemos mudar Portugal de um dia para outro mas conseguimos dizer o que temos de mudar para sermos um dia como a Suíça e Singapura.

António Costa disse, neste mesmo espaço, que prioridade não era baixar impostos, mas o investimento. Concorda?

Quando tem uma dívida nos 121%, sob escrutínio atento de Bruxelas, é óbvio que não tem muita margem de manobra em termos de impostos, tem de assegurar a receita fiscal. Pode fazê-lo de duas maneiras: subir impostos ou aumentar a receita. Subir ele não vai, mas pode aumentar a receita através da melhoria da economia, por isso a solução é o investimento.

Investimento público?
Público ou privado, o importante é que haja. Se ele não conseguir financiar-se vai ter de recorrer ao privado. E não havendo hipóteses de aumento de investimento público, é o privado que tem de assegurar o crescimento da economia.

E precisamente por isso não era um bom sinal mexer nos impostos, de uma vez, e depois apostar na estabilidade fiscal?
A estabilidade fiscal é sempre desejável, é muito importante porque quando se faz planos de investimento plurianuais temos de saber que não nos vão mudar as variáveis de base. E os impostos são uma variável bastante séria. O que dizemos ao governo é que tem de haver sinais por parte do Estado de que é amigo dos investidores – e esses sinais não têm existido. Sobretudo agora que se inicia o período da entrega de declaração de IRS estamos a assistir a uma campanha de comunicação do Fisco, de importantes membros da nossa governação que estão a intimidar…

Vídeo: Autoridade Tributária está a intimidar, não é digno de um Estado de Direito

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Refere-se a quê?
Aos artigos que têm aparecido nos últimos dias em relação aos grandes contribuintes e até aos jovens que têm cartões de crédito Revolut e que vão ter de declarar que os têm. Neste período inicia-se a declaração do IRS e temos uma máquina de comunicação que está a intimidar: “faz a declaração como deve ser ou vamos descobrir quem és e vamos atrás de ti”. Isto não é digno de um Estado democrático. Portugal é um país civilizado e temos de nos comportar como pessoas civilizadas, contribuintes e Autoridade Tributária. Temos de ser responsáveis, pagar os nossos impostos e lidar com uma administração fiscal que nos trata como adultos e não como crianças. Pede-se eficácia sem haver perseguição.

Tem criticado a lista de Grandes Contribuintes – grupo que rendeu ao Estado 20 mil milhões de euros (45% da receita fiscal), com apenas 3 milhões em falta. Esta lista afasta investidores?
Depois de uma atenção redobrada aos grandes contribuintes, o Fisco recuperou 3,4 milhões, são 0,2% do total arrecadado com esse grupo de contribuintes. Eu recebi um e-mail que resume o problema. Vou ler: “Depois de uma carreira de 27 anos nos EUA e de um sucesso que excedeu as minhas melhores expectativas, a minha esposa americana e eu montámos cá a nossa empresa e estamos a fazer investimentos que se poderão revelar importantes para Portugal, mas francamente este tipo de iniciativas assusta-nos. Chegámos para investir e fomos de imediato colocados numa lista de pseudo-criminosos. Bem-vindo de volta a casa! Como é que consigo justificar a mim mesmo e sobretudo à minha esposa que faz sentido investir o nosso património em Portugal?”

Ora este senhor vai trazer investimento e pagar impostos muito superiores a 3,4 milhões… Escrevi logo uma carta ao primeiro-ministro a contar isto e a dizer que é por esta razão que deve considerar a extinção da lista dos grandes contribuintes, porque ela está a fazer-nos perder mais dinheiro do que conseguimos recuperar.

Que alternativa sugere?
Precisamos de eficácia na AT, de funcionários bem equipados, com meios informáticos de boa qualidade a fazer o cruzamento de dados da situação patrimonial e de rendimentos dos contribuintes, que é o que se deve fazer num Estado de Direito. Se há que investigar alguém, não há problema porque o nome do funcionário fica registado, logo há responsabilização. Queremos eficácia, que toda a gente pague o que deve pagar e que os funcionários nos ajudem. A minha filha trabalha em Inglaterra e resolve problemas fiscais ao telefone. Conheço um senhor que paga os seus impostos na Suíça e a quem um inspetor avisou que estava a pagar a mais e corrigiu as contas. Temos de ter uma visão ambiciosa. Não podemos continuar de costas uns para os outros, estamos todos no mesmo barco.

O que espera das eleições europeias e legislativas deste ano?
As primeiras preocupam-me mais, as europeias são sempre um barómetro da opinião pública. Temos um fenómeno em muitos países da Europa, que felizmente não ocorre em Portugal porque somos um país civilizado, em que se seduz o eleitorado com soluções fáceis. As soluções são sempre difíceis mas temos esta tendência de acreditar nas fáceis porque custam menos. Todos os grandes populistas ou ditadores tiveram o condão de identificar um grupo que é culpado de tudo e concentram todas as atenções nele, sejam migrantes, estrangeiros, europeus (caso da Inglaterra). As elites que governam têm de reconhecer que temos de falar verdade, não podemos prometer o impossível mas ao mesmo tempo temos de realizar que nem toda a gente alinha pelo mesmo diapasão porque somos diversos e diferentes. Há certos desenvolvimentos na sociedade,…os coletes amarelos, por exemplo, que ficaram para trás, pessoas que não aguentam mais e votam num presidente americano nacionalista e isolacionista ou manifestam o seu desagrado nas ruas sábado após sábado – e temos de perceber que essas pessoas estão frustradas e descontentes e ouvi-las mais. Temos de ouvir melhor o eleitorado e perceber as suas inquietações.

Está mais preocupado com as europeias do que as legislativas?
É verdade.

Há quatro anos não era assim.
O que preocupava então era a imprevisibilidade, a instabilidade intrínseca. Nunca houvera em mais de 40 anos de democracia uma aliança política entre PS e PCP, a relação entre estes partidos ficou determinada entre em 1975 entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. E de repente surge um jovial secretário-geral do PS que diz que vai tirar o coelho da cartola.

Depois disto, tivemos quatro anos que não são os meus preferidos, mas não corresponderam à minha expectativa. Temos de olhar para os resultados e eles são positivos. Preocupa-me a falta de uma almofada de segurança e devia haver mais humildade por parte dos nossos governantes, porque amanhã pode ser tudo diferente e volta tudo atrás. Não podemos esquecer que em 1978, 1982 e 2011 fomos à bancarrota e tivemos de ir de mão estendida ao estrangeiro.

Vídeo: Resultados são positivos, mas devia haver mais humildade no Governo

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Refere a falta de humildade por algum aspeto específico?
O otimismo irritante – é uma boa expressão. Não posso esquecer que a contribuição ao capital de confiança ao país também foi determinante. Neste momento, é a humildade de dizer que isto não está mal mas cuidado… Nas 35 horas, quem fez as contas esqueceu-se que ia criar um buraco (nos horários) e em termos de horas extraordinárias ia criar um buraco nas contas da administração pública. É uma medida que cai muitíssimo bem, mas traz problemas. Também não sei quanto é que este passe social maravilhoso vai custar… tomarmos medidas sociais que são importantes para a população, que ganha salários muito baixos, mas temos de pensar como é que se paga isto. E é pelo investimento e pelo aumento de riqueza, porque não se consegue recuperar a economia através do aumento de impostos.

Qual era o pior cenário que podia sair das eleições deste ano?
Eu só acredito em bons cenários e quando um cenário é sub-ótimo vê-se logo o que se consegue fazer para melhorar. Por pior que seja, temos de ver como tirar partido.

Ainda acredita que pode não existir um brexit?

O brexit é o sinal acabado de que a democracia é um sistema imperfeito. Sou democrata até ao tutano, mas a democracia tem imperfeições e fraquezas e pôr uma escolha a um eleitorado em que uma das respostas não é exequível no tempo em que julgaram que se podia fazer é de uma irresponsabilidade completa.

Neste momento chegamos a um ponto dramático que as instituições do Reino Unido – PM, governo, câmara dos comuns ou dos lordes – não conseguem resolver. O que tem de acontecer é do lado da Europa e a Europa já percebeu que esticou demasiado a corda. Macron e Merkel têm de dizer: time out, parámos o relógio, resolvam o vosso problema no tempo que precisarem. Esta situação é que má para todos – há empresas estrangeiras a esfregar as mãos com o que está a acontecer na Europa. Não é o Reino Unido que está em causa, é a Europa. Temos de lhes dar espaço para resolver um problema gigantesco no qual se colocaram e do qual não conseguem sair.

Mas é possível não haver brexit?
Da maneira que o governo nos últimos dois anos trabalhou para entregar o brexit, vai ser difícil que, de forma controlada ou descontrolada, não aconteça. Neste momento, o modelo defendido pelo Economist é o norueguês, mas isso demora anos a negociar, não pode ser sob pressão. Os ingleses têm de perceber que esta solução não funcionou, até tinha os atores errados, tinha um partido conservador partido ao meio e que nunca mais recupera disto. E depois tem à frente do partido trabalhista, que teria sido a solução para isto, um senhor que de vez em quando faz declarações absolutamente surpreendentes e que não inspira confiança no eleitorado. É a tempestade perfeita para o Reino Unido. E já agora, para nós também.

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