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Petróleo em Portugal. Ouro negro pode tornar o país no novo Eldorado?

Kosmos e Australis estão a aguardar por autorizações para novas concessões
Kosmos e Australis estão a aguardar por autorizações para novas concessões

Há petróleo em Portugal? Há e não há. A resposta é ambígua e há razões para isso.

Se por um lado o país desfruta de características morfológicas e geológicas favoráveis – semelhantes às do Canadá, que explora e produz petróleo e está numa região com a qual o território que hoje é português fez fronteira há milhões de anos – e existem vários estudos, dados e análises que apontam para a existência de reservas de hidrocarbonetos, por outro é ainda totalmente desconhecida a quantidade e as condições dessas reservas. Certo é que o elevado potencial do país, aliado a uma subexploração, tornaram-no no mais recente alvo do apetite de várias empresas internacionais de prospeção, traduzido nos contratos de concessão que foram assinados nas últimas semanas. Contudo, fica no ar – pelo menos por enquanto – um ponto de interrogação quanto à viabilidade para uma futura exploração comercial que permita a Portugal tornar-se o novo Eldorado do ouro negro.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo (DV), Paulo Carmona, presidente da Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis (ENMC), justifica o forte interesse recente na prospeção e perfuração em Portugal com o facto de “se estar a apostar mais na valorização dos recursos e na criação de condições mais favoráveis que possam tornar mais viáveis este tipo de projetos, que visam, pelo menos para já, a pesquisa de potenciais áreas de desenvolvimento de produção”. Já António Comprido, presidente da Apetro, preferiu salientar a existência de “condições morfológicas e geológicas, bem como estudos que apontam para a existência de reservas de hidrocarbonetos”, e que são aproveitadas por “empresas que trabalham em nichos, sendo que Portugal é uma dessas oportunidades de nicho para empresas pequenas e especializadas, que beneficiam da ausência de players gigantes”.

Mas o interesse internacional na procura de hidrocarbonetos na costa e solo portugueses não é de agora. Além da primeira demonstração de interesse ter surgido no final da década de 30 do século passado, o facto de o processo de negociações de contratos de concessão ser demorado e só ficar fechado anos mais tarde, ajuda a explicar as mais recentes formalizações. “Os contratos de concessão para prospeção e produção de petróleo já vêm de há muito tempo. Nessa altura os preços do petróleo estavam mais altos e os projetos estavam em crescimento. Ou seja, o interesse não é de agora, os projetos já existiam há muito tempo”, explicou António Costa e Silva, da Partex. Também em declarações ao DV, o presidente da Endesa Portugal sublinhou que “estes contratos e negociações levam tempo e são um procedimento formal, é normal que tenha havido agora a concretização de um pacote de contratos assinados”. Ainda assim, Nuno Ribeiro da Silva não duvida que “há informação geológica, no Algarve e Alentejo, que revela a existência de boas condições para haver algum potencial de prospeção e perfuração”.

Repsol, Galp Energia, Eni, Partex, Kosmos Energy, Australis Oil & Gas e Portfuel são as empresas de energia a que, sozinhas ou em con-sórcios, foram concessionadas um total de 15 áreas, tanto deep offshore (zona imersa profunda) como onshore (zona emersa), por parte da ENMC. E a expectativa é positiva.

“Os estudos geológicos que têm sido realizados permitiram identificar sinais da presença de hidrocarbonetos em Portugal”, afirmou fonte oficial da Galp ao DV, adicionando que “as características geológicas são muito semelhantes às que se encontram do outro lado do Atlântico, que são zonas conhecidas de produção”. “Possivelmente, serão estas semelhanças que terão atraído outras empresas para fazerem prospeção de petróleo em Portugal”, considerou a mesma fonte.

Thomas Golembeski, da Kosmos Energy, revelou ao DV que a empresa está à espera de autorização governamental para a concessão de mais dois blocos (Berbigão e Búzio) no offshore do Alentejo e explica a razão da escolha de Portugal: “É uma das últimas regiões no mundo com potencial genuíno de recursos que ainda não está explorada”. Além de representar uma “oportunidade para o desenvolvimento da empresa e do país”, o “ambiente positivo de negócios” também foi decisivo. A opinião é partilhada por Ian Lusted, da Australis Oil & Gas, que, também ao DV, enumerou a “subexploração, as características positivas e os resultados iniciais” como fatores “encorajadores” para a escolha de Portugal. O responsável revelou que a Australis também está à espera do ok das autoridades para fechar a sua terceira concessão (Cadaval).

Comercialização viável?

Num balanço recentemente apresentado, a ENMC avançou que entre 2007 e 2013 foram investidos quase 240 milhões de euros pelos operadores na pesquisa e exploração de petróleo na costa portuguesa, através de 174 sondagens em que foram detetados 117 casos de indícios de petróleo. 27 destas prospeções deram origem a produção em teste de óleo (petróleo e gás natural). Ou seja, há sinais da existência de hidrocarbonetos em Portugal. A questão está em saber se em quantidade suficiente para uma comercialização viável.

“Só depois de todos os dados interpretados e de serem perfurados poços de exploração é que será possível determinar se as quantidades encontradas a tornam viável”, alerta fonte oficial da Galp ao DV. Apesar de afirmar estar “otimista”, a Kosmos também admite que “não existe garantia de sucesso”, que será “um longo caminho a percorrer” e que “mesmo que encontremos hidrocarbonetos, irá demorar pelo menos sete anos ou mais desde a descoberta até à comercialização”. Já a Australis reconhece que “não foram ainda descobertas quantidades para a comercialização” mas “acreditamos que existe uma hipótese razoável de acontecer no futuro, daí o nosso interesse e vontade em investir nesta oportunidade”.

Na prática, apesar de poder tornar-se um tiro no escuro, se as empresas de energia estão a centrar as atenções, e sobretudo avultados investimentos, em Portugal é porque os indícios da existência de grandes quantidades de hidrocarbonetos são elevados, permitindo a sua futura comercialização. “As empresas com investidores privados regem-se pela rentabilidade, pelo que, se apostam em Portugal, é porque a análise de risco feita por essas empresas indica que vale a pena e faz sentido”, explica António Comprido. Na mesma bitola, Nuno Ribeiro da Silva salienta que “a questão está na quantidade e quais as condições desse petróleo. Mas não há empresas a trabalhar e a fazer furos que custam largas dezenas de milhões de dólares se não houvesse racional e estudos a comprovarem”. Por isso, avisa: “é preciso trabalhar para se confirmar se Portugal é ou não uma província petrolífera.”

Impacto e alternativas

Portugal consome 300 mil barris de petróleo por dia e paga anualmente, segundo António Costa e Silva, “8 a 10 mil milhões de euros em importações de petróleo, gás e carvão”. Desta forma, a existir petróleo no país, os vários responsáveis não têm dúvidas de que beneficiaria a fatura energética e permitiria o equilíbrio da balança comercial. “Em termos de balanço, Portugal iria beneficiar muito. Tomara nós que o país tivesse muitas riquezas no subsolo, seria muito positivo para a economia”, lamentou António Comprido.

E nem as energias alternativas serão suficientes para travar a exploração, produção e a continuação do petróleo como principal fonte de energia. “O crescente consumo energético a nível mundial justifica o continuado interesse na procura de novos recursos”, disse fonte oficial da Repsol. E Ribeiro da Silva não tem dúvidas: “Vai continuar a consumir–se muito petróleo.”

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