Coronavírus

PIB pode registar quebra entre 9% a 15% em 2020

O primeiro-ministro, António Costa. Fotografia: António Cotrim/Lusa
O primeiro-ministro, António Costa. Fotografia: António Cotrim/Lusa

As previsões têm como base os “dados muito negativos de abril e maio” e aos “grandes atrasos nas ajudas públicas”.

O Fórum para a Competitividade reviu “em forte baixa” as estimativas de crescimento da economia em 2020 e aponta, agora, para uma quebra entre 9% a 15%, sobretudo devido aos “dados muito negativos de abril e maio” e aos “grandes atrasos nas ajudas públicas”.

“Para 2020, o Fórum para a Competitividade espera uma recessão entre 9,0% e 15,0%, com uma recuperação gradual e parcial no próximo ano”, lê-se na nota de conjuntura de abril divulgada esta segunda-feira pelo Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade, que anteriormente tinha perspetivado uma contração de 4,0% a 8,0% do Produto Interno Bruto (PIB) português este ano.

Segundo sustenta, “na avaliação da resposta à crise o Governo não consegue ir além do “suficiente menos”, com um “razoável” na política orçamental, um “medíocre” na urgência e um “mau” na visão estratégica, “porque as medidas propostas não saem do mais do mesmo”.

“Um dos aspetos a referir, infelizmente, é o muito significativo atraso nos apoios públicos, desde os pagamentos de ‘lay-off’, aos empréstimos às empresas (só 28% do crédito aprovado chegou às empresas), aos pagamentos a fornecedores (que subiram quando deveriam ter baixado drasticamente) e até nos reembolsos de IRS”, refere o Fórum para a Competitividade.

“Como é evidente dada a natureza excecional desta crise, estas demoras estão a agravar a recessão em curso”, acrescenta.

Embora recordando que os recentemente conhecidos dados do primeiro trimestre “não ficaram afastados” da estimativa que tinha feito, o Fórum assenta em diversos fatores a revisão “em forte baixa” agora efetuada.

“As quebras brutais de atividade de abril; o facto de os portugueses terem iniciado ao confinamento alguns dias antes das instruções oficiais e estarem a adiar, de forma significativa, o desconfinamento e o esperado prolongamento do confinamento na zona de Lisboa” são alguns dos argumentos avançados.

Adicionalmente, são referidos “a esperada diminuição muito forte do investimento; o previsível aumento do desemprego, das falências e da destruição de capital e a perspetiva, cada vez mais generalizada a nível internacional, de uma recuperação lenta”.

“Aliás o próprio Governo fala em ‘dois anos muito duros’”, aponta ainda.

Na nota de conjuntura, o Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade ressalva que “estas perspetivas estão muito dependentes do turismo, um dos setores mais afetados e sobre o qual pendem as maiores incertezas”, pondo em cima da mesa “sobretudo duas possibilidades benignas, cujo impacto é muito difícil de quantificar”.

Assim, embora considere “altamente provável que haja, em geral, uma forte contração da procura de férias fora de casa, quer de nacionais, quer de estrangeiros”, o Fórum aponta “dois efeitos favoráveis expectáveis”: A substituição por estadas no território nacional de viagens de lazer dos portugueses ao estrangeiro e a atração de turistas que, em condições normais, iriam para Espanha e Itália, dois países muito afetados pela pandemia.

“Desde que seja feita uma campanha significativa e eficaz, Portugal poderá beneficiar de algum do desvio de tráfego que iria para aqueles países”, considera.

No que se refere à resposta à crise económica resultante da pandemia, o Fórum para a Competitividade defende que, no curto prazo, “o essencial é apoiar com a máxima urgência famílias e empresas”, sustentando que “todo o apoio via liquidez (empréstimos, adiamento de pagamento de impostos, pagamento antecipado a fornecedores, etc.) deve ser imediato” e que “tudo o que seja ajuda não reembolsável também deve ser disponibilizada com a máxima rapidez”.

“O que faz mais sentido corrigir é a perda de rendimento e não de procura, porque esta, na generalidade dos casos, caiu porque o Estado a proibiu, pelo que é até ilógico que o Estado a tente aumentar por via indireta”, defende.

Também essencial para o Fórum é “investir na saúde, para compensar o sub-investimento do passado recente e as novas necessidades da covid-19”, até porque “nos últimos meses houve uma reafetação de recursos para lidar com a pandemia, tendo ficado por realizar até abril “quase 1,4 milhões de consultas médicas”, enquanto “51 mil cirurgias foram adiadas”.

Já no médio prazo, o Fórum para a Competitividade acredita que “muitos setores irão recuperar automaticamente e não precisarão de apoios específicos”, mas destaca o turismo – pelo “peso muito significativo quer em termos de PIB, quer de contas externas”, e por “vir a ter uma recuperação mais lenta do que quase todos os outros” – como justificando “algum tipo de ajuda extra, como alívios fiscais, entre outros”.

Por outro lado, e sendo uma das respostas da União Europeia à pandemia a relocalização de atividades da Ásia para a Europa, aponta esta “inevitável reorientação estratégica de investimentos e produção” como “uma grande oportunidade para Portugal”.

“Mas não é uma oportunidade de mão beijada. Se não fizermos o nosso trabalho de casa, podemos passar completamente ao lado”, avisa, sustentando que o país tem de se tornar “mais atraente para o investimento direto estrangeiro” (IDE), reduzindo “obstáculos” como o “IRC alto, licenciamentos demorados e instabilidade regulatória”.

“Precisamos de assumir que estamos em concorrência direta com os países de Leste, que têm tido tanto sucesso na sua captação e que deverão também melhorar a sua atratividade. Não vai ser suficiente melhorar face às vantagens passadas dos nossos concorrentes, temos que os ultrapassar na sua nova atratividade”, defende, insistindo na proposta de criação de duas Zonas Francas, em Leixões e Sines, “com condições excecionais, como forma de atrair IDE”.

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