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Pior trimestre de sempre obriga governo a rever metas

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O primeiro-ministro, António Costa (E), conversa com o ministro de Estado e das Finanças, João Leão (D), durante o debate e votação da proposta do orçamento suplementar para 2020, na Assembleia da República, em Lisboa, 17 de junho de 2020. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Alta exposição ao turismo complica tudo. Mais recessão gera mais despesa e pode obrigar a novo retificativo. Governo vai atualizar suplementar

Portugal entrou oficialmente em recessão, com a economia a cair dois trimestres seguidos. Mas os números do 2.º trimestre são tão maus (os piores de que há registo) que devem empurrar facilmente a recessão económica anual para 10% ou mais em 2020, de acordo com cálculos da Comissão Europeia (CE).

O governo ainda assume que a quebra anual será de 6,9%, mas ontem o ministro da Economia aceitou que o agravamento da recessão vai obrigar a rever este valor que serve de base ao orçamento suplementar aprovado há menos de um mês.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou, nesta sexta-feira, que a economia portuguesa afundou 16,5% no 2.º trimestre face a igual período do ano passado. É o pior valor de sempre nos registos oficiais.

E entrou oficialmente em recessão pois acumula já dois trimestres consecutivos de queda: a redução em cadeia (trimestral) foi de 14,1% no segundo trimestre face aos primeiros três meses do ano. E isto depois de já ter sofrido uma contração de 3,8% no início do ano.

Fonte: INE

Fonte: INE

 

É o efeito destruidor das medidas de confinamento aprovadas no âmbito do estado de emergência para tentar travar a pandemia.

Fala-se muito no efeito devastador da interrupção no turismo, mas ontem também, o INE deu conta de uma forte retração nas perspetivas de negócio das empresas exportadoras de mercadorias.

De acordo com um novo inquérito feito a “3247 empresas que representavam cerca de 90% das exportações de bens”, os empresários perspetivam agora “um decréscimo nominal de 13% nas suas exportações em 2020”. No inquérito anterior, em novembro, esperavam uma subida de 2% este ano.

As estimativas oficiais para o PIB coincidem exatamente com os cálculos recentes (de 7 de julho) da CE sobre a economia nacional.

Segundo a Comissão, depois da redução de 3,8% no arranque do ano viria uma pesada quebra de 14,1%. Os economistas de Bruxelas projetam uma recessão anual de 9,8%, mas isto num cenário de base, que não é o mais severo. Neste cenário moderado, o produto interno bruto (PIB) real recupera 6,8% no 3.º trimestre e 2,9% no último trimestre do ano.

No entanto, a CE está pouco confiante de que assim seja. “Os riscos são mais negativos por causa do enorme impacto do turismo estrangeiro, onde as incertezas em relação ao médio prazo continuam a ser significativas”. Assim, os 9,8% estão em risco; a recessão deverá ser pior.

O INE também já aponta para o problema do turismo dos não residentes, que se está a propagar pela economia.

“O contributo negativo da procura externa líquida acentuou-se no 2.º trimestre, traduzindo a diminuição mais significativa das exportações de bens e serviços que a observada nas importações devido, em grande medida, à quase interrupção do turismo de não residentes”, refere o instituto.

Além disso, “refletindo o impacto económico da pandemia, o PIB registou uma forte contração em termos reais no 2.º trimestre”, resultado que “é explicado em larga medida pelo contributo negativo da procura interna”.

O INE fala de uma “expressiva contração do consumo privado e do investimento”, mas sem dar mais detalhes uma vez que estas são estimativas rápidas. No dia 14 de agosto e no dia 31 haverá informação mais completa sobre o estado da economia no 2.º trimestre.

Para já, o governo é de todas as instituições a menos pessimista relativamente ao colapso da economia este ano. A referida descida prevista de 6,9% compara com os -9,4% projetados pela OCDE, com os -9,5% do Banco de Portugal.

A equipa da Moody’s que segue a República Portuguesa e avalia regulamente a qualidade do crédito público diz que a recessão deve chegar a 9,5% e que o défice orçamental público chegará facilmente aos 9,2% do PIB. Bem acima dos 7% calculados pelas Finanças.

Sarah Carlson, a analista principal responsável por Portugal na agência de rating, lamenta que a recessão portuguesa “esteja entre as mais severas da zona euro” e explica porquê. “Esperamos um decréscimo considerável no comércio e, em particular, no enorme setor do turismo que direta e indiretamente representa 19,1% do PIB e perto de 23% das exportações totais de Portugal”.

“O turismo será atingido severamente este ano e provavelmente vai levar mais tempo a recuperar que outros setores da economia”. “Embora o turismo doméstico possa ser um substituto do não residente”, a verdade é que o turismo estrangeiro vale cerca de 60% do mercado turístico total do país.

Segundo a analista da Moody’s, qualquer retoma será “lenta e parcial”. “A recuperação da economia portuguesa tenderá a ser mais gradual do que a de outros países menos expostos ao turismo”, remata.

Retificar o suplementar

Como referido, o Governo fez um orçamento retificativo apoiado no pressuposto de que a economia cairia 6,9% este ano, cenário que agora parece ser demasiado otimista (salvo seja) face ao colapso económico registado nos dois primeiros trimestres.

Esta degradação da atividade implicará, quase de certeza, mais despesa pública do que a foi aprovada no orçamento suplementar. Se isto acontecer, terá de haver novo retificativo. O ministro das Finanças, João Leão, disse que “se houver necessidade”, o Governo fará “outra retificação no final do ano”. “Não teremos problemas em fazê-lo”.

Ontem, o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, deu o pontapé de saída para esse debate. “Obviamente, estes números do INE vão obrigar a refletir sobre as previsões do Orçamento suplementar. Não é nada que não antecipássemos já e vão, portanto, levar-nos a fazer essa reflexão” sobre o cenário macroeconómico e as componentes orçamentais mais importantes.

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