Raparigas portuguesas à frente dos rapazes na leitura. Fatores socio-económicos influenciam

PISA 2018, o estudo da OCDE, para avaliar internacionalmente os alunos de 15 anos mostra que rapazes portugueses têm maior dificuldade de compreensão de leitura que raparigas e diferenças socio-económicas têm forte influência a vários níveis. Jovens em Portugal falharam os padrões PISA para taxa de respostas e só 45% distingue que informação é tendenciosa e só 50% distingue facto de opinião.

Chama-se PISA e mais não é do que o Programa de Avaliação Internacional de Alunos, um estudo trienal com alunos de 15 anos em todo o mundo para avaliar até que ponto os estudantes adquiriram os conhecimentos e competências essenciais para a plena participação nas sociedades atuais.

O PISA de 2018 a que o Dinheiro Vivo teve acesso através da Fundação Vodafone Alemanha foca a avaliação na leitura (essencial no mundo digital), matemática, ciências e no domínio de inovar como competência global e mostra como os estudantes portugueses estão bem posicionados no acesso a internet e computador em casa - a situação piora em escolas consideradas em situação de desvantagem -, mas a situação quase que estagnou desde 2009.

Ainda no caso português, um em cada quatro alunos em Portugal apresentou comportamentos que revelaram facilidade em navegar e ativamente explorar temas de uma ou várias fontes, que são correlacionados com estratégias eficazes de leitura.

Os estudantes em Portugal estão assim na média da OCDE no index de estratégias de leitura consoante a credibilidade de fontes (bem longe das referências Dinamarca, Alemanha, Irlanda ou Holanda), mas estão no top 5 dos países onde a influência das diferenças socio-económicas é maior nesta categoria.

Os jovens portugueses falharam ainda assim os padrões PISA para taxa de respostas a nível geral, apenas com 76% da amostra dos estudantes a responderem, quando o padrão mínimo é de 80%. Uma análise complementar do Instituto de Avaliação Educativa indicou que os estudantes que não responderam ao teste tinham pior performance em exames nacionais de matemática e tinham maior tendência em ter piores notas (entre o 7 e o 9) do que os alunos que participaram.

Acesso a ferramentas digitais: Portugal acima da média

O estudo indica também que 93% dos estudantes em Portugal têm tanto uma conexão à internet em casa, como um computador que usam no trabalho escolar. Um registo superior à média dos 37 países da OCDE (que é de 89%) e mais 46 pontos percentuais face ao PISA 2003, mas apenas de 2% face a 2009. A média nos países OCDE só subiu 28% de 2003 para 2018, o que mostra que as famílias portuguesas melhoraram bastante nesse domínio, o de ter acesso às ferramentas digitais em casa, especialmente entre 2003 e 2009.

Além disso, 87% dos estudantes em escolas consideradas em desvantagem (na parte de baixo do index de estatuto económico, social e cultural) indicaram ter acesso a internet e computador para o trabalho escolar em casa, em comparação com 96% dos estudantes em escolas consideradas com vantagem no mesmo index. A diferença de 9% é inferior ao que se vê na média dos países da OCDE (de 79% para 94%), com uma maior diferença (15%) para os estudantes de escolas em desvantagem.

Os melhores exemplos nesta categoria são da Dinamarca, Islândia e Polónia, onde mais de 95% dos estudantes em escolas em desvantagem têm acesso a computador e internet em casa, em contraste com os menos de 20% na Indonésia, México ou Morrocos.

Desigualdades socio-económicas influenciam leitura

Destaque ainda para uma média de performance de leitura dos estudantes portugueses muito ligeiramente acima da média da OCDE, tal como dificuldades de percepção de leitura. Tal como noutros 69 países (do total de 79), os alunos em situações de desvantagem em Portugal acharam o teste de leitura PISA mais difícil do que os outros. Esta percepção de diferença na dificuldade entre alunos em possível vantagem ou desvantagem foi maior na China, Luxemburgo e Singapura, com Portugal a ficar ligeiramente abaixo da média da OCDE.

Em Portugal os rapazes consideraram o teste de leitura mais difícil do que as raparigas, e essa diferença acentua-se ao considerar-se contextos socio-económicos. Acontece o contrário, em média, nos países OCDE, com os rapazes a acharam o teste de leitura PISA mais fácil do que as raparigas, embora os rapazes tenham ficado atrás das raparigas ao considerar-se os contextos socio-económicos.

Raparigas gostam mais de ler

Os leitores de livros impressos em Portugal lêem 44% mais em geral do que os estudantes que raramente ou nunca lêem livros, enquanto os que lêem livros digitais registaram mais 11% de taxa de leitura - quem lê livros tem uma média de 3h30 de leitura por semana.

São as raparigas e os estudantes de melhores contextos socio-económicos que costumam ter níveis mais elevados de gosto pela leitura, sendo que a maior diferença é mesmo entre raparigas e rapazes (bem acima da média dos países) - elas apreciam bem mais a leitura -, indica a OCDE.

Cerca de três quartos (75%) das diferenças entre género estão relacionadas com a diferença entre rapazes e raparigas no conhecimento de estratégias efetivas de leitura - perceber e memorizar um texto, resumir a informação e perceber a credibilidade das fontes.

Embora o país seja uma das 24 economias que demonstram um declínio no index do gosto pela leitura entre 2009 e 2018, o nível ainda assim continua positivo para quem lê. Neste patamar a OCDE registou uma das maiores diferenças em Portugal entre sexos nos países participantes, com vantagem para as raparigas.

O estudo foi feito a 600 mil estudantes em 2018, representando cerca de 32 milhões de jovens de 15 anos de 79 países e economias participantes. Fizeram parte os 37 países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), da América do Norte e do Sul, da Europa e da Ásia-Pacífico, mas também 42 países e economias parceiras. A OCDE inclui muitos dos países mais avançados do mundo mas também países emergentes como a Colômbia, o México, o Chile e a Turquia.

Reconhecer informação tendenciosa: Portugal na média

Outra conclusão é que em Portugal 55% dos estudantes indicaram receber algum tipo de treino na escola de como reconhecer se uma informação é tendenciosa (a média da OCDE é de 54%). As referências na categoria são Albânia, Singapura e EUA, com mais de 75% a terem acesso a treino na área. A percentagem de diferença entre alunos com contextos de vantagem ou desvantagem para esta dimensão do estudo é de 8% a favor dos alunos em situações do que a OCDE considera de vantagem.

Sistemas de educação com maior proporção dos estudantes que receberam competências digitais na escola e têm acesso digital em casa tinham maior tendência de distinguir corretamente factos de opiniões no teste de leitura PISA, mesmo depois depois de ter em conta o PIB per capita do país. Em Portugal, 50% dos estudantes conseguiram distinguir facto de opinião (a média da OCDE é de 47%).

Práticas dos professores positivas

Os estudantes em Portugal receberam de forma positiva os estímulos para uma maior ligação com a leitura, com mais de 60% dos estudantes e indicar ainda que na maioria das aulas os professores encorajam os estudantes a expressar as suas opiniões (61%), mostram aos estudantes como a informação construída em texto acrescenta algo além do que já sabem (62%) e coloca questões e motiva os estudantes a participar ativamente (63%).

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