Porque estamos tão mal de mulheres nas cotadas?

Carlos Tavares, presidente da CMVM
Carlos Tavares, presidente da CMVM

"Sempre me senti bem num mundo tradicionalmente masculino, como o sector financeiro", garante ao Dinheiro Vivo a única banqueira em Portugal e a primeira mulher portuguesa a exercer a profissão de corretora de bolsa.

A histórica Maria Cândida Rocha e Silva é um caso raro, já que é uma das (muito) poucas mulheres a ocupar a presidência de um Conselho de Administração em Portugal, neste caso do Banco Carregosa.

Outra exceção à regra dá pelo nome de Fátima Barros. O facto de ser a primeira e única mulher a liderar um regulador em Portugal, ou a primeira a liderar o board dos reguladores europeus para as comunicações eletrónicas, “nunca foi um fator que eu sentisse como distintivo ou sequer alvo de alguma discriminação menos positiva”. Apesar dos dois exemplos de liderança e gestão no feminino, e da imposição de um sistema de quotas a nível europeu, as empresas cotadas na Bolsa de Lisboa continuam a não ter um toque cor-de-rosa. Dito por outras palavras, não há qualquer mulher à frente dos destinos de uma empresa do PSI 20, limitando-se apenas a assumir cargos de vogais e não executivos. Para chegar a esta conclusão, o Dinheiro Vivo analisou a composição dos Conselhos de Administração e Conselhos Executivos e, contas feitas, as mulheres representam apenas 10% das administrações das cotadas da Bolsa de Lisboa.

Mais concretamente, de um universo total de 223 administradores que compõem as 18 empresas do índice de referência nacional, 200 são homens e os restantes 23 são mulheres (ver tabela). Como se não bastasse, há sete empresas em que o sexo feminino nem sequer marca presença. Mas nem todas as administrações estão totalmente pintadas a azul. Que o diga a NOS, a empresa com mais mulheres gestoras: cinco no total. E a ter de eleger a mulher mais poderosa do PSI 20, ou seja, com o cargo administrativo mais importante, a escolha recai em Paula Amorim, uma vez que a filha do português mais rico do mundo passou este ano a ocupar o cargo de vice-presidente da Galp Energia.

“As empresas, especialmente as cotadas, deverão ter processos de seleção dos membros dos respetivos órgãos de governo que sejam abertos, transparentes, proporcionem igualdade de oportunidades aos potenciais interessados e conduzam à escolha dos mais competentes”, defende Carlos Tavares. O presidente da CMVM salienta que “a sua composição deverá refletir uma adequada diversidade de formação, competências e género, pois isso contribuirá para um processo de decisão mais robusto”.

Além de admitir que “estes objetivos nem sempre têm sido atingidos” e por considerar que “não é razoável pensar que a competência potencial para os lugares de administração” tenha uma distribuição em que mais de 90% são homens, Carlos Tavares revelou ao Dinheiro Vivo que “a CMVM está a preparar uma revisão pontual das recomendações de bom governo societário no domínio específico da seleção e composição dos órgãos de governo, incluindo a diversidade de género”.

Desde 2012 que a representatividade feminina no PSI 20 deixou de ser um mar de rosas, com a saída de Ana Maria Fernandes da presidência da EDP Renováveis. E apesar de representarem mais de 40% da força de trabalho em Portugal, apenas 6% das mulheres tinha um papel de liderança nas 500 maiores empresas nacionais. Isabel Vaz faz parte dessa percentagem. A presidente da Luz Saúde é uma das três mulheres CEO de cotadas portuguesas, o que revela o longo caminho que Portugal ainda tem de percorrer no sentido de atingir a igualdade de género.

Para alcançar esse objetivo, o governo pretende que as empresas cotadas passem a assegurar que, até ao fim de 2018, 30% dos seus administradores sejam mulheres. Ironicamente ou não, são as próprias que afirmam estar contra esta medida.

“Não concordo com a introdução de quotas e, sobretudo, com a alternância de género do presidente que foi imposta nas entidades reguladores”, diz perentoriamente Fátima Barros. De acordo com a lei, o próximo presidente da ANACOM não pode ser uma mulher, mas a responsável contra-argumenta defendendo que “a seleção para posições nos boards deve sempre ser feita em função da competência e do mérito e não em função do género. Isto é verdade também, e sobretudo, para as grandes empresas”.

Já Estela Barbot considera que a forma de igualar oportunidades “passa pela mudança das mentalidades e por criar condições iguais, tanto em casa como nas empresas”. “Na geração atual já existe a partilha das tarefas domésticas e da educação dos filhos e empresas que não discriminam as mulheres com salários inferiores e dificuldades em aceder a lugares de direção”, explicou a economista e administradora da REN.

Mas porque é tão complicado encontrar mulheres à frente das administrações? “A nível das administrações executivas, o potencial campo de recrutamento são os diretores de primeira linha e aqui começa-se a verificar em muitas empresas o aumento de mulheres”, explica António Gomes Mota. O vice-presidente da direção do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG) salienta, contudo, que “a nível de administradores não executivos, os principais campos de recrutamento são o meio universitário e antigos administradores executivos”, o que significa que “por força da história passada são muito poucas as mulheres que têm experiência de gestão executiva ao mais alto nível, o que, naturalmente, restringe o campo de recrutamento”.

O problema está então nos administradores homens? “Não tenho qualquer dúvida que liderar equipas mistas em termos de género é muito mais fácil do que liderar equipas essencialmente masculinas”, revela Fátima Barros. Já Maria Cândida Rocha e Silva salienta: “Um homem que não respeite uma mulher é, antes do mais, uma pessoa que não respeita outra. Pelo facto de ser mulher, posso dar mais atenção a pormenores que os homens não dão”. “As pessoas boas tendem a tratar bem o seu semelhante”, conclui.

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