Conferências do Estoril

“Porquê tanto pessimismo?” perguntam os líderes do futuro

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As Conferências do Estoril ficaram marcadas pela participação em massa de jovens estudantes, uma "geração sensível" que "nunca teria votado em Trump".

Levantam o braço sem vergonha e sem medo. De microfone em punho, confrontam prémios Nobel, ministros, chefes de estado, doutores e engenheiros. A sexta edição das Conferências do Estoril foi tomada de assalto pelos mais jovens. Não têm medo de falar, mas têm medo do futuro. Não querem repetir os erros de quem os trouxe até aqui.

“Porquê tanto pessimismo, tantas ideias negativas? Nós estamos aqui, acreditamos que o mundo tem solução e queremos fazer parte dela. Porque não acreditam vocês também?”. A pergunta surgiu na plateia de um dos debates mais concorridos das Conferências. O painel juntou três prémios Nobel, da Economia e da Paz, para falar de pobreza e desigualdades.

“Joana”, estudante de relações internacionais, não disfarçou a indignação ao ouvir Bernard Kouchner, um dos fundadores dos Médicos Sem Fronteiras, discorrer durante duas horas sobre o estado de decadência da humanidade.

Ao longo dos três dias do evento organizado pela Câmara de Cascais, e este ano também pela Universidade Nova, houve dezenas de “Joanas” entre a assistência das Conferências. Entre os oradores, Kouchner foi uma exceção. Os restantes cabeças-de-cartaz depositaram nos jovens toda a esperança, senão a responsabilidade, de mudar o mundo.

“Acredito no ser humano, sobretudo na juventude. É ela que pode introduzir mudanças a favor da humanidade. Se hoje existe uma geração insensível, ela tem de ser substituída por uma geração sensível e humana”, sublinhou no mesmo debate Rigoberta Menchú Tum, ativista e Nobel da Paz em 1992.

Num painel anterior, a camada mais nova da plateia já tinha saído galvanizada pelas palavras de Fareed Zakaria, jornalista da CNN. “Quando os jovens governarem o mundo tudo vai ficar bem, só é preciso garantir que não rebentamos com o planeta até lá”, afirmou. Segundo Zakaria, as gerações mais jovens são “mais abertas”, e se votassem não teriam sido eleitas figuras como Donald Trump ou Marine Le Pen.

Logo na abertura do evento, que este ano trocou o Centro de Congressos do Estoril pelo campus da Nova School of Business and Economics, em Carcavelos, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tinha lançado o repto, afirmando que cabe à juventude ter “coragem, criatividade, imaginação, novas formas de pensar, viver e decidir”.

Conferências influencers

A mudança de morada das Conferências para o coração da academia terá contribuído para o movimento “jovens ao poder” que dominou as sessões, admite Daniel Traça. “Este é um espaço de debate e conversa onde se imaginam novas soluções para os problemas. O objetivo este ano era influenciar a juventude, incutir-lhes vontade de passar à ação. E acho que isso foi conseguido”, destacou o Dean da Nova SBE ao Dinheiro Vivo.

A vontade de agir manifestou-se de várias formas, algumas mais ambiciosas, outras mais simples. Como a dúvida levantada durante um painel sobre emergência climática. “Como é que posso convencer a geração dos meus pais de que as mudanças climáticas são reais? Eles não percebem por que deixei de comer carne”, questionou uma estudante de mestrado.

Para Daniel Traça, a presença “dos melhores speakers do mundo” nas Conferências foi fundamental para estimular o interesse dos alunos, que em dias de 30 graus trocaram o sol de Carcavelos pelo confronto acalorado de ideias. No balanço que faz dos mais de cem debates que a universidade acolheu, o líder da Nova SBE não tem dúvidas de que a semente da mudança ficou plantada.

“Foram deixados desafios e algumas pistas sobre soluções. Nomeadamente sobre o meio ambiente, as desigualdades ou a inclusividade de género. Temos esperança de que os jovens desta e de outras escolas se sintam inspirados e levem este impulso para a sala de aula e para o dia-a-dia”.

Foi essa, afinal, a razão pela qual o campus da Nova foi construído, adiantou Traça. “O mundo não precisa só que nos sentemos aqui a debater. Precisa de ideias e de uma juventude consciente da necessidade de mudar, que se engaja politicamente. Se conseguirmos isto, vamos garantir que estas conferências são o início de um movimento onde começa a resolução dos problemas mais complexos do mundo”, conclui Daniel Traça.

Apelo semelhante foi deixado pelo presidente da Câmara de Cascais. “O facto de estarmos na Nova simboliza a ambição que temos de depositar na juventude, de levá-la a participar mais na vida comunitária, pública e política. Desde as primeiras conferências a participação dos jovens foi muito presente, não só em quantidade mas em qualidade. Essa é muitas vezes é desvalorizada. Aqui estamos a esforçar-nos para mudar isso porque os jovens não são o futuro, são o presente”, destacou Carlos Carreiras.

No discurso de encerramento das Conferências, foi essa a mensagem que quis passar: “É contra os que têm medo que o medo acabe, que os mais jovens têm de se erguer. Esta academia não lhes vai dar tréguas nem descanso”.

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