Portos: Leixões não faz greve porque se vive “clima de terror” constante

Despedimento coletivo avança de imediato no Porto de Lisboa
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O “esquema” de cada porto é único e só há uma regra comum a todos: quem falar vai ter problemas. No caso do porto de Leixões, os trabalhadores efetivos (cerca de 90) não falam “para não serem perseguidos” e os contratados a prazo – apenas 28, mas a trabalhar, segundo afirmam, dois turnos por dia sistematicamente – só falam sob anonimato “para não irem parar ao desemprego”.

“Os estivadores começavam na profissão porque tinham alguém da família no meio. Hoje, esses que nos trouxeram, e que também foram precários há décadas, deitam a mão ao peito quando vêem os direitos que conquistaram serem retirados aos filhos e aos netos”, explica um dos estivadores de Leixões, cujo contrato é renovado anualmente.

Garante que gostava de ter folgas como os trabalhadores “normais” e gostava de não ter de trabalhar dois turnos por dia (das 8 às 24 horas) para ganhar pouco mais de mil euros por mês. “Só ganhamos horas extra a partir do 21.º turno trabalhado”, refere, dizendo-se “explorado” a todos os níveis.

“Veja-se o exemplo do trabalho de estiva: há a ganga [equipa] de estiva [no navio] e a ganga de peação [prende a carga no navio], teoricamente são duas equipas e ao armador é faturado o trabalho de duas equipas. Mas nós fazemos o trabalho de ambas e ganhamos só uma. Quem mete o resto ao bolso?”, questiona outro estivador a termo, desses que têm tendência a vir a ser a norma, uma vez que “não há vagas para efetivos no porto”.

Com um salário base de 725euro, resta aos temporários trabalhar e “não levantar ondas”.

“Apoiamos a greve dos colegas do Sul, se pudessemos também a faziamos. Quem assinou o acordo foi um sindicato onde ninguém se revê e ao qual não temos acesso também: já nos avisaram para nem pensar em nos sindicalizarmos, pois não renovam o contrato”, refere.

Com o porto de Leixões a “trabalhar a 300%”, agravam-se as condições de trabalho que os estivadores afirmam ser desumanas: “Os efetivos não ficam mais de duas horas numa máquina elevatória, pois dá cabo das costas. Nós fazemos turnos de 16 horas lá em cima e até a refeição temos de levar”, aponta o jovem estivador.

“Somos carne para canhão”, conclui o jovem estivador.

Contactada pelo JN/Dinheiro Vivo, a Administração dos Portos do Douro e de Leixões negou ter conhecimento das situações relatadas.

A Associação GPL (Empresa de Trabalho Portuário Douro Leixões) respondeu, por seu turno, que a polivalência de funções é essencial à produtividade do porto de Leixões, desmentindo que haja turnos de 16 horas.

“Em Leixões, extinguiu-se há muito a perversa monovalência profissional, instituindo-se em definitivo a polivalência funcional que fez caducar o retrógrado princípio da especialização artificial que ancorava cada trabalhador no privilégio da sua disponibilidade para executar uma função única, independentemente das necessidades de serviço, o que gerava improdutividades insuportáveis para a economia portuária”, afirma a administração da GPL.

A empresa atribui as greves do Sul a lutas sindicais e diz que Leixões sempre teve um “historial de pacificidade laboral e propensão sindical para privilegiar o diálogo cooperante para a solução dos problemas”.

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