Portugal à conquista da Alemanha como parceiro tecnológico

Com a pandemia, há mais pedidos de informação para investimento estrangeiro. A expectativa é que a parceria com a Hannover Messe em 2022 ajude a potenciar decisões favoráveis.

Para muitos alemães, Portugal é um país de sol e belas praias, destino turístico por excelência, mas nem todos identificam a economia nacional como potência tecnológica e industrial. E é isso que se pretende que mude, com o convite da Hannover Messe para que Portugal seja o país parceiro daquela que é a maior e mais importante montra da tecnologia industrial no mundo. Uma feira que recebe, todos os anos, mais de 200 mil visitantes, de quase uma centena de países, mas onde os profissionais alemães continuam a representar a esmagadora maioria. Ajudar as empresas a exportar mais é o objetivo, mas não só. Pretende-se também captar mais e melhor investimento alemão para Portugal. Porque, como diz o mote selecionado, "Portugal faz sentido".

Com a pandemia, muitas são as empresas que procuram encurtar as cadeias de valor, encontrando alternativas na Europa a fornecedores asiáticos. E os pedidos de informação começaram a chegar a Portugal, "em vários segmentos industriais", logo no início da pandemia, quer ao nível da procura de fornecedores, quer de potenciais investidores que admitem instalarem-se no país. João Neves, secretário de Estado da Economia, admite que "é muito difícil, ainda, confirmar que estes indicadores iniciais vão dar origem a coisas substantivas", mas sublinha que a expectativa é que a exposição mediática gerada por esta parceria com a Hannover Messe possa "ajudar a que algumas destas decisões venham a ser tomadas em favor de Portugal". Que se junta a um leque muito restrito de países-parceiros da feira de Hannover, nos quais se destacam grandes economias como os EUA, Rússia, México ou Brasil, ou grandes fabricantes tecnológicos, como a Suécia, a Suíça ou a Holanda.

"A Hannover Messe é a mais importante feira de bens de equipamento e serviços associados do mundo, e a única que é inaugurada pela chanceler alemã, o que mostra muito de quão emblemático é este certame", diz João Neves. Para o secretário de Estado, o convite endereçado a Portugal - um sonho antigo, mas que tinha poucas esperanças, admite, que se concretizasse - é a "demonstração do reconhecimento da capacidade da engenharia e da qualidade de produção nacional". O governante admite que a expectativa é a de conseguir uma "participação muito diversificada", que inclua os centros tecnológicos, as universidades e os laboratórios colaborativos. Ao nível dos apoios, a intenção é "conjugar vários tipos de apoios", designadamente aproveitando, ainda, os instrumentos do Portugal 2020, para que o custo de participação seja "o mais diluído possível".

"Para a indústria portuguesa, pode ser mais importante do que uma Expo'98. É uma oportunidade única, é o acesso à verdadeira liga dos campeões das exposições industriais, naquele que é o mercado mais importante e sofisticado da Europa e, em alguns segmentos, o mais importante do mundo, como é o caso das tecnologias de produção de máquinas", diz o vice-presidente da Associação da Metalurgia e Metalomecânica. A AIMMAP tem a seu cargo a responsabilidade de organizar a presença empresarial na feira, em parceria com a AICEP e a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã, entre outros parceiros. E se não faltam exemplos de grandes empresas alemãs, como a Bosch, a Siemens e outras, que reconhecem o bem saber fazer português, "há um conjunto enorme de médias empresas alemãs - grandes, à escala nacional, com faturações da ordem dos 100 milhões -, que não têm ainda uma perceção tão apurada daquilo que somos capazes de fazer, e este palco permite-nos entrar no mindset do empresário alemão e vai, seguramente, ajudar a alavancar as nossas exportações para este mercado", diz Rafael Campos Pereira.

Desde 2005 que a AIMMAP organiza a presença coletiva do setor nesta feira. Na altura, a fileira do metal exportava 8,9 mil milhões de euros, dos quais 1,3 mil milhões para a Alemanha. Em 2019, o setor exportou 19,6 mil milhões. A Alemanha comprou 3,3 mil milhões. Em quinze anos, não só a fileira duplicou as exportações, como reforçou o seu peso junto do muito exigente mercado alemão, que pesa agora 16,7%, quase 3 pontos percentuais a mais.

Em 2022, o objetivo, traçado pela AICEP, é quadruplicar a presença portuguesa na Hannover Messe, com 200 empresas representadas, mas alargando o espaço de atuação das mesmas. Ou seja, além da metalurgia e metalomecânica, haverá um grande foco no cluster da energia, nas empresas de automação e de tecnologias de informação e nas empresas elétricas e eletrónicas. "É uma oportunidade única que não pode ser desperdiçada", frisa Rafael Campos Pereira. João Neves concorda, e lembra que, à boleia da feira, haverá toda uma promoção da marca Portugal pelo mundo, ao longo de um ano. O ministro da Economia, Siza Vieira, vai marcar presença já na abertura da edição de 2021 - em 2022 será António Costa que estará ao lado da chanceler alemã -, dando o "pontapé de saída" numa série de iniciativas "para dar a conhecer as propostas portuguesas para a feira do ano seguinte". E a própria Hannover Messe irá promover Portugal como país-parceiro de 2022 nos eventos que promove pelo mundo.

Em Portugal, esse trabalho já começou, com uma série de webinares promovidos conjuntamente pela AICEP, a AIMMAP, a Hannover Messe e a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA). Os próximos estão agendados para 3 de novembro, 10 de dezembro e 12 de janeiro. E embora as inscrições para 2022 não estejam, ainda, abertas, a AIMMAP "já recebeu inúmeras manifestações de interesse em participar na feira". Por outro lado, a CCILA já fez circular a informação desta parceria na rede de câmaras de comércio e indústria alemãs no exterior, de que faz parte, e que conta com 140 localizações em todo o mundo. "Faz todo o sentido pôr Portugal no radar dos decisores alemães", defende o presidente da CCILA, Miguel Franco.

Além disso, a câmara desenvolveu já o programa FIT Hannover Messe 2022, que pretende ajudar os expositores a tirarem "maior proveito" da sua presença na feira, fornecendo-lhes informação de mercado, de enquadramento concorrencial e match making com potenciais parceiros locais. "Vamos pôr Portugal na vanguarda da tecnologia. Estão dados os passos necessários e reunidos parceiros de excelência. Temos todas as condições para que esta operação seja um sucesso e as empresas consigam gerar mais negócio", sublinha Miguel Franco.

Já o diretor-geral da Cotec considera que são várias as oportunidades que esta parceria encerra. Não só ao nível do negócio, com uma "maior penetração das empresas portuguesas nas cadeias de valor europeias", mas também da inovação e da atração de investimento direto estrangeiro. "Portugal é uma plataforma de acesso ao mercado africano, que tem um enorme potencial de crescimento na próxima década. O país pode ter um papel importante como ponte nas relações entre a Europa e África, e a Alemanha reconhece-o", diz Jorge Portugal.

Para o responsável, são várias as métricas que se poderão usar para avaliar os efeitos desta parceria, e que se farão sentir muito para além da feira de 2022. "As empresas portuguesas serão olhadas como faróis de inovação e tecnologia, e poderão subir na cadeia de valor, o que permitirá melhorar a sua rentabilidade por via da inovação", diz, sublinhando: "Mais do que aumentar as exportações, queremos exportar melhor, com mais rentabilidade, com tecnologia desenvolvida a partir de Portugal. É esse o valor acrescentado que queremos capturar". E a pandemia até acabou por ajudar

JPF. "2022 tem de ser o ano da retoma, com vitalidade e força"

Já são quase 20 anos de experiência na Hannover Messe e Pedro Santos, do grupo PJF, garante mesmo que esta é a "feira de eleição" da empresa. E que o convite a Portugal para ser país parceiro em 2022 "é uma oportunidade que não se pode deixar passar ao lado". O próximo ano corre o risco de ser ainda "um ano meio morno", mas 2022 "tem que ser o ano da retoma, forçosamente" e a presença na maior feira mundial de indústria e tecnologia vai "ajudar as empresas portuguesas a ganharem vitalidade e força".

Fundada em 1995, a PJF é um grupo familiar (P de Pedro e J de João, os dois filhos do fundador, e F de Ferramentas) com duas áreas de negócio que se complementam: a Megadies, especializada em engenharia e mecânica de precisão para a indústria automóvel, e a Newstamp, que faz a estampagem dos componentes metálicos e em compósitos de fibras de carbono desenvolvidos pela Megadies. Em conjunto, dão trabalho a 50 pessoas e faturam mais de quatro milhões. A exportação, em especial para França, Alemanha e Inglaterra, vale 70%.

A pandemia veio colocar a empresa sob grande pressão, sendo esperada uma quebra de 35%. "Com o apertar do cinto, as pessoas não pensam em comprar carro e as marcas estão todas a pôr um travão no desenvolvimento de novos modelos", diz o gestor. O que significa que a Newstamp tem já procura e em setembro obteve já "resultados equivalentes ao pré-pandemia". Na Megadies está tudo ainda a meio gás.

"Não há projetos novos, não há muito a acontecer", explica. E, por isso, parte destes trabalhadores estão ainda em lay-off. Na Newstamp foram contratadas 4 pessoas este mês. Parece um contrassenso, mas não é. "São empresas complementares, mas incompatíveis em termos de gestão de recursos humanos. Estamos a falar de técnicos altamente especializados de um lado e de operadores indiferenciados para linhas de produção do outro", refere Pedro Santos.

JFCC. "Há um maior foco nas empresas, vai ser excelente"

Com 30 anos de experiência na metalurgia, a José Francisco Costa Cruz & Filhos especializou-se, na última década, na maquinação de peças de precisão com elevado valor acrescentado para indústrias tão distintas, mas igualmente exigentes, como automóvel, gás natural ou petrolífera. Dos 1,4 milhões de euros que fatura, exporta, direta e indiretamente, cerca de 90% para os mercados europeus, em especial, a Alemanha, Áustria, França e Espanha.

A Hannover Messe é a única feira que faz, já lá vão três anos, e tem-se revelado uma "mais-valia" para captar novos clientes e até novos fornecedores. A parceria para 2022 é muito bem-vinda. "Há um foco muito maior nas empresas do país parceiro, além de que a promoção sobre a marca Portugal começa já em 2021. Vai ser excelente", diz José Manuel Cruz, filho do fundador da empresa de Vila Nova de Famalicão.

Com 16 funcionários, a JFCC admitiu já neste ano duas pessoas para dar resposta às muitas solicitações que recebeu após o verão. É que se a produção automóvel abrandou, o alimentar e, sobretudo, o gás natural estão com grande procura. E há já encomendas para o próximo ano. "Noto que, neste último mês, as encomendas vieram muito em cima da hora. Parece que, com o aproximar do fim do ano, pensaram todos no mesmo. Desde setembro que temos a produção totalmente tomada e tivemos até que subcontratar fora", diz José Manuel Cruz.

Mas o ano "não está fácil", admite. O maior receio é a eventualidade de um caso positivo de covid entre os trabalhadores obrigue a fechar a unidade, pondo em causa todo o esforço para recuperar os meses perdidos no início do ano. "Se a situação da covid se mantiver como está, provavelmente não iremos à Hannover Messe em 2021, mas em 2022 contamos lá estar. É um bom investimento para a empresa. Na última edição fizemos lá um contacto para o Canadá, por exemplo", frisa.

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