Previsões da Primavera

Portugal diverge mais dois anos numa zona euro ameaçada

Mário Centeno e Pierre Moscovici. Fotografia: EPA/TIAGO PETINGA
Mário Centeno e Pierre Moscovici. Fotografia: EPA/TIAGO PETINGA

Crescimento da zona euro mantém-se "apesar de um contexto global mais difícil", diz Moscovici. Também disse estar muito preocupado com os mais pobres

A economia portuguesa vai continuar a divergir da já de si fraca e ameaçada zona euro.

De acordo com as previsões da primavera da Comissão Europeia, divulgadas nesta terça-feira, Portugal deve crescer abaixo do ritmo do conjunto da moeda única: avança, em termos reais (descontando a inflação), apenas 1,5% este ano e 1,7% no próximo: a zona euro registará 1,6% e 1,8%, respetivamente.

Ambos os territórios viram as suas perspetivas de crescimento revistas em baixa ligeira (cerca de uma décima) face às previsões de inverno (início de fevereiro).

Desde 2000 que Portugal diverge da zona euro (cresce menos ou tem recessões mais violentas). As únicas exceções recentes foram nesse ano e em 2014, quando igualou o ritmo de crescimento da região da moeda única, com 3,8% e 0,9%, respetivamente.

Pierre Moscovici, o comissário europeu dos Assuntos Económicos, referiu que “o crescimento na Europa mantém-se, apesar de um contexto global mais difícil“.

Para o dirigente, até “há sinais de que, gradualmente, os esforços envidados a nível político estejam a criar mais postos de trabalho e a fomentar o investimento”. “Mas muito resta ainda fazer para corrigir as desigualdades.”

Nesse aspeto, “a retoma na área do euro continua a ser desigual, tanto entre os Estados-Membros como entre os elementos mais fracos e os mais fortes da sociedade”. “Trata-se de uma situação inaceitável que exige uma ação determinada por parte dos governos, tanto a nível individual como coletivo.”

Curiosamente, no capítulo dedicado a Portugal, nunca sinaliza essa preocupação em relação aos elementos mais fracos da sociedade, dizendo que as políticas do governo para apoiar os mais pobres não garantem mais prosperidade a prazo.

Segundo o novo estudo, a Irlanda é a economia mais vibrante, podendo crescer 4,9% em 2016: a Grécia, para não variar, é o país mais fustigado pela crise que já vai longa, registando uma recessão de 0,3% este ano, depois de uma contração de 0,2% no ano passado.

Os dois grandes — Alemanha e França — devem crescer apenas 1,6% e 1,3%, respetivamente.

As sombras do petróleo, do euro e da economia global

A Comissão Europeia confere que “a política monetária muito flexível criou as condições para uma retoma do investimento ao tornar o acesso ao financiamento mais fácil e mais barato” e que “a política orçamental na área do euro deverá apoiar o crescimento este ano”.

“No entanto, apesar de os preços do petróleo terem descido novamente no início de 2016, prolongando o estímulo ao rendimento real disponível, a intensidade deste apoio deverá atenuar-se gradualmente à medida que os preços desta matéria-prima forem recuperando”.

Adicionalmente, “embora as exportações da área do euro estejam ainda a beneficiar em certa medida da depreciação do euro, a recente subida da taxa de câmbio desta moeda poderá tornar a área do euro mais vulnerável aos efeitos do abrandamento do crescimento mundial”.

O executivo europeu observa que “as exportações líquidas [exportações subtraíndo o valor das importações] da área do euro deverão continuar a travar o crescimento em 2016, antes de se tornarem neutras em 2017”.

Assim, “o crescimento dependerá da procura interna: prevê-se que no próximo ano a taxa de crescimento do investimento aumente para 3,8 %, tanto na área do euro como na União Europeia, e que o consumo privado abrande, devido à retoma da inflação, que reduzirá o crescimento do rendimento real”.

“Estas previsões estão rodeadas de grandes incertezas”

O novo estudo refere ainda que “o crescimento fora da UE no ano passado atingiu provavelmente o seu ritmo mais lento desde 2009 (3,2 % em 2015), na sequência do abrandamento registado nos mercados emergentes” e que “as perspetivas de crescimento do PIB mundial enfraqueceram ainda mais, dado que as grandes economias avançadas também abrandaram, e as expectativas de uma ligeira retoma estão rodeadas de um elevado grau de incerteza”.

Assim, a economia mundial deverá crescer 3,1 % em 2016 e 3,4 % em 2017, sendo que “os riscos em torno das perspetivas económicas europeias são consideráveis”. Ou seja, “estas previsões estão rodeadas de grandes incertezas”.

Para a CE, “entre os riscos externos figura a possibilidade de o crescimento mais lento dos mercados emergentes, em particular da China, ter repercussões mais fortes ou revelar-se pior do que o previsto”.

Reino Unido em contramão?

Além disso, “a incerteza ligada às tensões geopolíticas continua a ser elevada e poderá afetar as economias europeias de uma forma mais negativa do que a atualmente prevista”.

“Uma mudança brusca nos preços do petróleo ou turbulências nos mercados financeiros poderão também travar o crescimento europeu” e “os riscos ligados à evolução da situação interna da UE continuam a ser consideráveis, como, por exemplo, os ligados ao ritmo de execução das reformas estruturais e à incerteza em relação ao resultado do referendo no Reino Unido sobre a sua permanência na UE.”

Em contrapartida, “os efeitos positivos das reformas estruturais poderão ser superiores ao previsto e a repercussão das políticas monetárias muito flexíveis poderá revelar-se mais forte do que o esperado”.

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