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Portugal é fashion. Criadores e marcas faturam mais de 500 milhões

( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )
( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

O ano passado ficou na história na moda nacional: Portugal Fashion e Moda Lisboa puseram fim à rivalidade. A parceria já começou a render.

Aos 29 anos, Alexandria Ocasio-Cortez tornou-se, no ano passado, a mais jovem congressista de sempre dos Estados Unidos. De tanto bater às portas durante a campanha, gastou os sapatos até os rebentar. Desde novembro que os sapatos de Alexandria estão em exposição num museu. Nas solas é visível o nome da marca: & Other Stories, uma loja sueca. Logo acima do logótipo, é outro o detalhe que chama a atenção. Os sapatos que entraram para a história da América foram made in Portugal.

Produção de roupa e calçado é o que não falta no país. No ano passado, segundo as estimativas da Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal (ATP), a indústria produziu 7,5 mil milhões de euros e exportou 5,3 mil milhões, o valor mais alto de sempre e o equivalente a 10% do total de vendas do país ao estrangeiro. Espanha, França e Reino Unido têm closets cheios com roupa nacional.

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As fábricas portuguesas produzem para as melhores marcas do mundo, como Louis Vuitton, Christian Dior ou Burberry. Mas o made in Portugal continua escondido em etiquetas desenhadas em outros países.

“Temos produção boa, certificada e sustentável. Mas temos um défice grande de marcas. Se à produção acrescentarmos uma marca própria ela vai valer três ou quatro vezes mais”. A receita é de Eduarda Abbondanza, presidente da Associação Moda Lisboa, que passou as últimas décadas a atirar criadores portugueses para as luzes da ribalta. Nem sempre tem sido fácil.

“A moda em Portugal tem tido apoios consideráveis dos fundos comunitários e tem sido a alavanca do setor têxtil, enquanto fenómeno de comunicação. Mas eu acredito que a moda, só por si, pode ter o seu papel na economia nacional”, sublinha Abbondanza em declarações ao Dinheiro Vivo.

Por estar fora do “jogo” dos fundos europeus, a especialista admite que o efeito da Moda Lisboa no lançamento de marcas e criadores tem sido “curto”, por não haver meios para internacionalizar.

Mas o jogo pode estar prestes a virar. No final do ano passado, Moda Lisboa e Portugal Fashion, que todos os anos recebe milhões de Bruxelas, enterraram o machado de uma guerra que durava há mais de duas décadas, e assinaram um acordo de parceria. “Não fazia sentido cada um estar a trabalhar para seu lado, as organizações não podem canibalizar-se umas às outras. Juntos temos capacidade para desenvolver projetos disruptivos”.

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Foto: Gonçalo Borges Dias

Os primeiro frutos foram colhidos em Paris e Milão. Graças ao trabalho conjunto, a Moda Lisboa levou três criadores nacionais – Gonçalo Peixoto, Ricardo Andrez e Ernest W. Baker – às montras mais importantes da moda mundial. “Está a acontecer aos poucos. Não se faz um grande alarido sobre isso porque ainda se estão a preparar. Vamos ver até onde nos levam os protocolos, no sentido de criarmos um trajeto mais longo para os designers”.

Para já o trajeto faz-se no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, onde até domingo 31 criadores vão mostrar que não é só Portugal que está na moda. A moda também está em Portugal.

Outono-inverno em Paris

Na próxima semana a passerelle estende-se na Alfândega do Porto. Pelo Portugal Fashion vão desfilar as criações de Luís Buchinho e Diogo Miranda, acabados de chegar de Paris, mas também de Alexandra Moura ou Katty Xiomara, que no final de fevereiro representaram o outono-inverno português em Milão. Com o alto patrocínio do Portugal Fashion.

Em 2018, o investimento no projeto rondou os cinco milhões de euros, sendo que quatro milhões foram provenientes dos fundos europeus, revela a organização ao Dinheiro Vivo.

O retorno tem compensado, garante Mónica Neto, project leader do Portugal Fashion. No ano passado, tal como em 2017, a faturação dos criadores que participam na iniciativa “terá rondado novamente os 500 milhões de euros, ou mesmo um pouco mais. A moda nacional está a atravessar um bom momento, quer do ponto de vista estético quer comercial”, sublinha.

Segundo a responsável, marcar presença nas passerelles internacionais “traduz-se, no imediato, em contactos com compradores, em visibilidade mediática e em convites para certames de moda”. E, mais cedo ou mais, reflete-se nas vendas. Principalmente nos mercados internacionais. “Hoje uma boa parte da atividade comercial dos mais conceituados criadores e marcas é desenvolvida no exterior”, conta Mónica Neto.

Mas o trabalho da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), entidade que organiza o Portugal Fashion, com os designers vai além do momento em que as criações são mostradas ao público.

A ANJE é responsável pelo projeto Next Step, que assegura a criadores e marcas “todo um trabalho de preparação da sua participação nesses certames de vestuário”, detalha Mónica Neto.

É aqui que a ANJE ensina os criadores a pensar a moda como um negócio. “Criadores e marcas recebem apoio especializado para desenvolverem eficazmente os seus processos de gestão, branding, comunicação, marketing, distribuição, vendas e internacionalização”.

Um esforço de “empresarialização”, aponta a líder do Portugal Fashion, que resulta no aumento das vendas. A estratégia tem resultado, garante, e é para manter. “Até porque a exiguidade do mercado doméstico obriga os criadores e marcas portugueses a venderem para o exterior grande parte das suas coleções, de modo a garantirem a sustentabilidade dos seus projetos de moda e a fazerem crescer as suas produções”.

( Igor Martins / Global Imagens )

( Igor Martins / Global Imagens )

Ter o Portugal Fashion em Paris, Londres ou Milão vai continuar a ser uma prioridade para a organização do projeto, revela. Além dos desfiles e showrooms, o projeto continuará a desdobrar-se em “apresentações à imprensa, contactos com agentes de compras, encontros com possíveis financiadores e na angariação de apoios junto de entidades públicas promotoras do investimento português no exterior”, conclui Mónica Neto.

Mas se a participação nas semanas da moda internacionais tem sido, para Mónica Neto, a peça-chave na mudança de visual da moda portuguesa, a responsável também elogia a consolidação das estratégias comerciais dos criadores e a vitalidade da indústria têxtil.

“Tem capacidade para desenvolver, fabricar e distribuir produtos de grande qualidade, com boa relação custo/preço, diferenciados e incorporando valor ao design. Além disso garante flexibilidade, rapidez e eficiência no fornecimento dos produtos”.

Mas tal como Eduarda Abbondanza, a líder do Portugal Fashion defende que ainda falta à moda nacional aprender a conjugar melhor a indústria com a criação original.

“É preciso continuar a mudar mentalidades. Os empresários e gestores da fileira moda devem ter absoluta consciência de que, para superarem a concorrência global, é indispensável produzirem vestuário de design cuidado, moderno e consentâneo com as tendências internacionais. Por outro lado, os criadores devem compatibilizar a moda de autor com linhas comerciais próprias, alicerçadas em marcas fortes e em boas estratégias de marketing. Ora, para que tudo isto aconteça, indústria e criadores têm inevitavelmente de reforçar o trabalho em conjunto”.

Uma geração mais in

Como qualquer expert em moda, Eduarda Abbondanza rejeita imitações. Mas admite ir buscar inspiração a bons exemplos. A vizinha Espanha, aponta, é um modelo a seguir no que toca à aposta que faz no setor. As marcas de moda em Espanha valem quase 3% do PIB.

“É preciso criar planos, estratégias, é aí que estamos mais atrasados. Quando a produção dos espanhóis vacila, é-lhes indiferente porque eles têm as marcas. Portugal não tem escala de mercado. Uma marca brasileira ou espanhola, mesmo que não exporte, pode ser gigante porque o seu mercado interno é gigante. Para nós a exportação é necessária para o crescimento das marcas”.

A líder da Moda Lisboa deposita todas as esperanças na nova “e muito mais aguerrida” geração de criadores. “São mais conscientes, têm um espírito que não havia no passado”. Mas precisam, tal como no passado, de dinheiro para criar.

“É preciso investimento. É um caminho com algum risco mas o sucesso será mais duradouro para a economia nacional. A moda é uma disciplina especial. Precisa de estratégia porque o que não falta no mundo é roupa. É preciso investir durante três ou quatro estações para começar a render”.

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