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Portugal e Venezuela: A história de um relacionamento económico assente no ferro

Foto capa AteBreveVenezuela

A degradação da situação económica na Venezuela fez Caracas descer a pique na tabela com quem Portugal estabelece as principais relações comerciais.

Manifestações, fome, falta de medicamentos e um país quase paralisado. São estas as imagens que os jornais e as televisões têm mostrado da Venezuela nos últimos meses. Mas a crise em Caracas tem bem mais do que apenas uns meses. Tem anos. A acompanhar a degradação económica, espelhada nas ruas e que tem tido eco nos meios de comunicação internacionais, está uma balança comercial venezuelana cada vez mais desequilibrada. As trocas comerciais entre Portugal e a Venezuela refletem essa realidade.

As exportações de Portugal para este país da América do Sul caíram acentuadamente nos últimos anos, estando assentes sobretudo em alguns bens. Mas vamos por partes. Em 2014, as empresas nacionais venderam bens à Venezuela no valor de 207 milhões de euros, de acordo com os dados do INE, citados pela AICEP. Quatro anos depois, em 2018, o valor das exportações nacionais afundou para 4,2 milhões de euros. Não é por isso de estranhar que os dados mostrem uma queda no número de empresas a exportar para este mercado: eram 238 em 2013 e, quatro anos depois, em 2017, eram apenas 115.

Entre 2014 e 2018, por outro lado, as importações não tiveram uma evolução linear: em 2014, o país importou bens no valor de 1,8 milhões de euros; no ano seguinte foram 60,7 milhões de euros. Em 2016, as compras às firmas venezuelanas desceram para os 25,3 milhões de euros e no ano passado foram de 11,6 milhões de euros, de acordo com a mesma fonte.

Um reflexo claro do enfraquecimento das trocas comerciais entre as duas economias é a posição que a Venezuela ocupa na tabela do comércio internacional de bens nacionais. Caracas ocupava em 2018 a posição 130 na lista dos clientes nacionais, muito longe do 28º lugar ocupado em 2014. Enquanto fornecedor de Portugal estava no ano passado em 94º.

O que andamos a vender e a comprar? No bolo total das exportações nacionais em 2018 para aquele destino, a fatia maior é dos metais comuns – concretamente construções e partes de ferro fundido e ferro/aço – seguido pelos plásticos e borrachas e minerais e minérios, de acordo com os dados do INE, citados na página do AICEP.

Por outro lado, importamos da Venezuela sobretudo metais comuns – concretamente produtos obtidos através de minério de ferro – madeira e cortiça e produtos agrícolas, como tâmaras, figos, ananases ou abacaxis, mangas e mangostões.

Economia dependente do petróleo

A Venezuela detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo, exportando há mais de um século. A economia tem uma forte dependência da venda ao exterior da matéria-prima. E também por isso a quebra dos preços do ouro negro nos mercados internacionais registada há mais de três anos abriu muitas brechas na economia e na sociedade (cuja recuperação da cotação do petróleo não conseguiu corrigir).

Para se ter uma ideia, de acordo com os dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) cerca de 98% das receitas de exportação da Venezuela tinha origem no petróleo, apesar do país ter outros recursos naturais como: gás natural, ouro, diamantes e minério de ferro.

E em 2018, a Venezuela exportou 1.245 milhões de barris por dia, o valor mais baixo desde 1990, de acordo com a Bloomberg, com a produção a ser penalizada pela crise economia e humanitária. As sanções aplicadas pelos EUA já no início deste ano – que tinham como objetivo pressionar o governo de Nicolas Maduro a ceder o poder – continuou a penalizar as vendas ao exterior de petróleo.

Dados da Reuters mostram que as exportações da empresa pública de petróleo – PDVSA – rondaram cerca de um milhão de barris por dia no mês de março, apesar das sanções dos EUA e das quebras de eletricidade registadas no país na altura. Esta estabilização das exportações ocorre depois de em fevereiro, as vendas ao exterior terem tombado 40% face a janeiro.

Apesar disto, a situação económica do país continua a ser muito difícil para a maioria dos cidadãos. A inflação está em níveis extremamente elevados, a economia está em recessão e há falta de alimentos e medicamentos para a maioria das pessoas.

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