competitividade

IMD. “Portugal está a fazer um grande trabalho a atrair talentos”

Arturo Bris, diretor na IMD. Fotografia: D.R.
Arturo Bris, diretor na IMD. Fotografia: D.R.

Arturo Bris, diretor na escola superior de gestão IMD, diz que país é competitivo em “infraestruturas, educação e regulação”, mas fraco na dívida, na cultura empresarial e de inovação.

Portugal está a fazer progressos notáveis na atração de cérebros e talentos estrangeiros, e até de alguns portugueses que fugiram do país nos últimos anos. Mas está mal classificado quando se avalia a cultura empresarial e de inovação e os níveis de dívida pública. A aposta na educação e nas “infraestruturas físicas” merece elogios, com relevo para a capacidade de atingir as metas propostas ao nível da ciência.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Arturo Bris, o diretor do centro de estudos para a competitividade da escola de gestão suíça IMD, faz o resumo do novo estudo que compara e mede a força competitiva de 63 economias de todo o mundo. Apesar dos “progressos”, Portugal manteve-se em 2017, no 39º lugar da lista internacional.

Em resposta à pergunta sobre quem está melhor e quem está pior em termos de competitividade, o responsável diz que “de uma forma geral, descobrimos duas coisas”.

“Primeiro, registamos uma convergência da competitividade em termos mundiais. Os países estão a ficar mais próximos uns dos outros. Os países estão a fazer as mesmas coisas que são necessárias para se tornarem mais competitivos. Reformas, basicamente.”

No entanto, continua o perito, nada está totalmente garantido: “Gostaria de sublinhar isso, há imensa incerteza política pelo mundo fora e isso reflete-se em alguns dos nossos rankings. Há países que estão a perder posições, como é o caso do Brasil, Turquia, mas também os Estados Unidos devido a incertezas políticas crescentes. Estão a tornar-se menos competitivos, portanto”.

Neste ranking nota-se uma subida substancial na lista deste ano por parte da China, que subiu sete posições, para o 18º lugar.

O que aconteceu? “O caso da China tem dois aspetos de melhorias. Um é o quadro institucional do país – quadro regulatório, decisões do governo, transparência, corrupção, etc. O novo governo tem feito grandes esforços para melhorar nestas áreas e isso já se reflete na perceção e nas opiniões dos gestores executivos que neste inquérito. O outro aspeto é a melhoria significativa do mercado de trabalho na China. A produtividade também aumentou e na nossa opinião a economia chinesa é a mais forte do mundo. Tem os desempenhos bons em várias dimensões: exportações, orçamento público”, explica o professor de gestão.

Quanto à zona euro e à Europa, Arturo Bris acredita que “sendo uma região com muitas diferenças nacionais”, o bloco “vai ser o núcleo do crescimento competitivo nos próximos anos”. No top 10 ou 15 deste ano percebe-se que a maioria dos países “é da Europa”. Alguns nomes de referência: “Alemanha. Holanda, Finlândia”. Para o professor, “os indicadores mais estruturais mostram isso”.

Como está o sul da Europa

E os países do sul? Bris atira rapidamente que “Portugal, Espanha e Itália não vão estagnar”. “Penso que vão melhorar nos próximos anos, ainda que gradualmente, porque os mercados emergentes não são milagres, como chegámos a pensar. Países como Brasil ou África do Sul simplesmente não materializaram medidas e políticas que lhes proporcionariam um avanço substancial”, contrapõe.

Mas, em 2017, Portugal ficou estagnado no ranking. O que terá acontecido? “Quando olhamos para os indicadores de longo prazo, os de infraestruturas, educação e regulação, nestes três Portugal está a ir bastante melhor. Está na posição 33 de um ranking de 63 países quando o critério é legislação para empresas e negócios. Está a atrair bastante investimento estrangeiro, está a reduzir o número de empresas públicas, está a cortar apoios e subsídios. Tudo isto vai na direção certa”.

Mas também destaca “a dimensão das infraestruturas físicas e tecnológicas”. “Aqui, Portugal ainda é fraco em termos relativos, mas melhorou imenso em muitos aspetos. Finalmente, há a questão da educação. Ainda há muito para fazer, mas Portugal está no 19º lugar mundial, ainda está a progredir nas avaliações de PISA. Também sabemos que o investimento em educação foi reduzido por causa da crise, mas agora voltou a avançar. Nestas três dimensões diria até que Portugal está bem posicionado em termos mundiais.”

Na educação o que está a correr bem é a despesa pública total” no sector, ranking no “Portugal é o 10º mundial, estando muito acima da média mundial em percentagem do Produto Interno Bruto. No rácio número de estudantes por professor, Portugal está na 9ª posição. Em termos de objetivos cumpridos, está a ir muito bem na educação, na área de ciências, por exemplo”.

A impedir a subida no ranking final estão “quedas na componente da economia doméstica, de certo modo também o comércio internacional, mas o aspeto mais influente é o emprego, que está a recuperar devagar”.

O analista destaca ainda “a dimensão da dívida pública que está refletida na dimensão da eficiência do governo. Aqui, nas finanças públicas, Portugal está no 57º lugar mundial. Na dívida pública total em proporção do PIB Portugal é nº 60, o mesmo que dizer que tem o 4º nível de dívida mais alto do grupo analisado.

No ponto Orçamento do Estado (cuja medida é o rácio do défice), está melhor, é o nº 32. Portugal melhorou nalguns pontos deste ranking”. Mas, de facto, é nas finanças públicas que “encontramos algumas da maiores fragilidades da economia”.

O Estado tem problemas. E o sector privado está melhor? “De facto, não se vê grandes mudanças, embora notemos progressos no sentimento do mercado”, começa por dizer Bris.

“Portugal está a fazer um grande trabalho a atrair e a reter talentos estrangeiros e até portugueses que estavam lá fora graças a políticas que vão nesse sentido. Há sinais de que muitos qualificados portugueses estão a regressar. Neste ranking específico e no critério brain drain [fuga de cérebros], o vosso país melhora sete e seis posições, respetivamente. Para nós, são sinais extremamente bons”.

Ainda no sector privado, critica “os índices de empreendedorismo e cultura de inovação, em que notamos ainda falta muita coisa”. “Aqui, o país está no fundo da tabela, entre os dez mais fracos a nível mundial. Na adaptabilidade digital também está mal classificado, em 51º lugar”. Claro que o excesso de burocracia da parte do governo contribui muito para explicar este atraso. Mas, já agora, não é um exclusivo de Portugal. A maioria dos países europeus tem este problema”. “É o normal”, lamenta.

Portugal tem recuperado bastantes posições do ranking internacional. Era 46º em 2013, hoje é 39º. Mas em 2015 estava melhor, em 36º, algo que “teve a ver com a forte recuperação face aos anos da crise. Vimos o mesmo acontecer em Itália ou em Espanha”.

Para fazer o ranking, o IMD ouviu “perto de 100 executivos de topo do sector privado” em Portugal e 6250 no total. Este estudo é feito há 29 anos consecutivos.

Quem é Arturo Bris?

É um interessado em temas como bancarrotas, inside trading e banca de investimento. Arturo Bris, espanhol de origem, é professor de Finanças há 25 anos na escola de gestão suíça IMD, em Lausanne. Licenciado em Direito e Economia pela Universidade de Madrid e doutorado pelo INSEAD, é desde o início de 2014 diretor do Centro para a Competitividade Mundial, no IMD, sendo pois responsável pela elaboração dos famosos ranking de competitividade, que hoje se estendem a 63 países. Na investigação académica, tem como principais interesses bancarrotas, vendas a descoberto, fusões de empresas e regulação financeira internacional. Foi professor de banca de investimento em Yale entre 1998 e 2005.

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