Salários

Portugal foi o país da OCDE em que o ‘canudo’ mais valor perdeu

FOTO: Rui Oliveira / Global Imagens
FOTO: Rui Oliveira / Global Imagens

Entre 2006 e 2016, o prémio salarial por se ter um curso superior foi o que mais caiu entre os países da organização.

Ter um curso superior ainda permite ambicionar um salário mais elevado, mas a importância de uma licenciatura pesa cada vez menos para se chegar a patamares de remuneração mais elevados. E Portugal foi o país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE) em que o “canudo” mais valor perdeu entre 2006 e 2016.

Em dez anos, o prémio salarial de quem concluiu uma licenciatura face a um jovem com o ensino secundário caiu 22,8 pontos percentuais. Ou seja, a vantagem de ter um curso superior encolheu em apenas uma década, quando a tendência era de um fosso salarial cada vez maior entre os que frequentaram a universidade e os que não foram além do 12º ano. É a maior perda entre os 32 países membros da OCDE.

Esta perda de valor do ‘canudo’ não é exclusiva de Portugal. O prémio salarial resultante de ter ou não um curso superior diminuiu em 21 dos 32 estados-membros considerados no estudo, mas em apenas 12 a queda foi maior do que cinco pontos percentuais. “Seis países registaram quedas de pelo menos 10 pontos percentuais”, refere o relatório “Outlook Employment 2019” divulgado ontem, onde se inclui Portugal que acabou por ser o que mais perdeu. Nesta lista, o país está à frente da Grécia, Polónia, Chile, Eslovénia e Hungria.

De acordo com a organização sedeada em Paris, em apenas três países se verificou uma subida no prémio salarial de trabalhadores com o ensino superior face a quem concluiu apenas o ensino secundário: Bélgica, Reino Unido e Estónia.

Compressão salarial explica

A OCDE avança uma possível explicação para a perda de valor de uma licenciatura e quase tudo se resume a aumentos salariais anémicos nas profissões altamente qualificadas face às restantes categorias. “O crescimento do salário médio entre 2006 e 2016 foi particularmente fraco em ocupações altamente qualificadas, que tendem a empregar uma parcela elevada de trabalhadores com educação superior”, refere o documento.

Os técnicos da organização fazem, por isso, vários ajustamentos para perceberem a influência que tem, por exemplo, a ocupação, o género, a idade ou o crescimento salarial de uma determinada profissão.

No caso português, só com um ajustamento ao crescimento salarial é que a perda de valor da licenciatura no prémio remuneratório cai menos. Quando se ajusta a variação do prémio à ocupação, idade ou género, Portugal surge na segunda pior posição, logo atrás da Hungria.

Jovens portugueses com dificuldade em terem salários altos

Um jovem português licenciado viu, nos últimos anos, a sua possibilidade de alcançar salários elevados cair a pique face aos restantes países da OCDE. Entre 2006 e 2016, a probabilidade de os recém-licenciados encontrarem, em Portugal, um trabalho bem remunerado encolheu 25 pontos percentuais, um valor significativamente mais elevado do que a média da organização que se fixou nos 6,4 p.p..

Portugal foi o país da OCDE em que a probabilidade de os jovens qualificados encontrarem trabalhos com salários elevados mais caiu, seguindo-se a Hungria (-23,6 p.p.), a Estónia (-22,5 p.p.) e a Eslovénia (-20,2 p.p.).

Mas se a probabilidade de conseguir salários mais altos foi a que mais diminuiu entre os países da organização, os jovens licenciados portugueses também são aqueles que têm maior probabilidade de cair num escalão salarial mais baixo, tendo-se registado uma subida de 16,4 pontos percentuais entre 2006 e 2016. Um valor muito acima da média da OCDE que se fixou nos 3,5 p.p.

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