Portugal será de novo um país agrícola? Europa vê grande potencial

Agência europeia fez projeção do mercado de trabalho dos 28 países da UE até 2025. Portugal tem mais oportunidades no sector primário

Há 60 anos, 48% do emprego estava no sector da agricultura, silvicultura e pescas. Mais de 1,5 milhões de pessoas retiravam o sustento dessas atividades primárias, de baixo valor acrescentado, mal pagas, do trabalho de sol a sol. Nos campos e na orla piscatória do país a pobreza era a constante, os focos de miséria e até de fome também. A iliteracia era esmagadora, a exploração dos trabalhadores também.

O documentarista alemão Alfred Einhardt filmou Portugal nessa altura. Está lá tudo e mais ainda, do extenuante e longo ciclo de produção no Douro vinhateiro à perigosa pesca do atum no Algarve. Apesar de ter incomodado alguns no regime de António de Oliveira Salazar com o seu realismo, o documentário de Einhardt passou. Não foi censurado.

Portugal, hoje

Hoje, a agricultura e as pescas passam mais despercebidas. Fortemente desmanteladas desde que Portugal aderiu à UE (então CEE, em 1986), algumas atividades ficaram, em todo o caso, mais produtivas.

O quadro atual é este: o sector absorve apenas 7,5% da população empregada (343 mil pessoas no terceiro trimestre de 2015, diz o INE); valem 2% do PIB anual (3,3 mil milhões de euros) quando em 1955 valia 27% da riqueza doméstica. Apesar do peso muito modesto no PIB (devido às importações elevadas), o sector agroalimentar tem relevância nas exportações de bens: pesa 12% do total e cresce 6% ao ano.

Algo pode estar a mudar outra vez, indicam vários estudos e os relatos vivos de alguns (jovens) que estão a trocar as cidades e os empregos nos serviços pelo campo e por projetos agrícolas inovadores, exportadores. Havendo oportunidades e apoios, pode até ser uma alternativa à emigração.

Um dos trabalhos mais contundentes sobre o que pode estar para vir, realizado em 2015 pelo Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Vocacional (Cedefop), uma agência pública que trabalha para a Comissão Europeia e outras instituições, mostra que 26% das oportunidades de emprego estão na agricultura.

O estudo “Panorama das Qualificações” projeta os mercados de trabalho dos vários países da União até 2025, usando previsões demográficas de longo prazo e previsões macro de mais curto prazo. No caso de Portugal, um dos inputs cruciais do modelo terá em conta as verbas dos fundos estruturais (na agricultura e nas pescas em Portugal, o grande alicerce será o Programa de Desenvolvimento Rural 2020) que dá prioridade (e incentivos em dinheiro) aos investimentos inovadores e geradores de emprego mais qualificado, aos jovens agricultores.

Plantas medicinais

Bruno Vargas, 37 anos, que estudou para jornalista, viu no campo a solução quando as perspetivas na comunicação social pareciam cada vez menos promissoras. “A oportunidade surgiu com o Proder . Esperou mais de “um ano, quase dois” que a burocracia inerente à aprovação de fundos libertasse o apoio fundador. Conseguiu.

Há um ano que produz na região de Rio Maior “ervas aromáticas e medicinais produzidas de forma biológica”. “Está a correr bem”, “exportamos tudo o que produzimos”, sobretudo para o centro e o norte da Europa.

O trabalho é qualificado, gere e desenha o seu próprio projeto, trabalha muito sozinho. Depois há cinco a seis pessoas que, anualmente, vêm ao terreno praticar as suas especialidades. “São qualificadas, na medida em que sabem mexer nas plantas.” “Plantar, cortar, mondar, são poucos os que sabem.” Saber da poda tem valor.

Quase 600 mil "oportunidades"

Portugal é, na análise do Cedefop, emblemático. No país que outrora foi profundamente agrícola, o maior número de oportunidades de emprego está, justamente e outra vez, na agricultura - cerca de 26% do total será para trabalhadores qualificados em agricultura, floresta e pesca, muito acima da projeção para a UE”, referem os peritos.

Pelas contas da agência europeia, isto vale quase 600 mil postos de trabalho que podem ficar vagos até 2025. Logo a seguir: trabalhos de limpeza e de vendas nas ruas (400 mil).

Problema: esse número, bruto, não reflete a possível criação de empregos (conceito líquido). “As oportunidades totais são a soma dos novos empregos criados com as oportunidades que surgem por causa da substituição de pessoas que, ou arranjam outros empregos ou abandonam o mercado de trabalho, que se aposentam, por exemplo.”

Assim, muitas vezes (é o caso da agricultura em Portugal), “a procura de substitutos fornece mais oportunidades de emprego do que a expansão da procura, o que significa que ainda haverá oportunidades de emprego mesmo se o nível de emprego estiver a cair”.

Frutos vermelhos

Duarte Silva, 32 anos, é formado em Antropologia, Cinema, pós-graduado em Gestão de Empresas. Está, em parceria com o irmão de 27 anos, a apostar nos frutos vermelhos, no distrito de Viseu. Candidatos ao novo quadro de apoios (PDR, Portugal 2020), esperam há mais de um ano pela aprovação do projeto e pelo desbloqueio do apoio fundador. “É importante porque pode comparticipar até 80% do investimento”, diz.

Até agora, pagou do próprio bolso licenças e outros gastos com o processo. Quer dar aulas, a agricultura será “complementar”. “Candidatei-me mal abriu, mas não me disseram mais nada.” Bruno Vargas queixou-se da mesma demora.

O futuro das oportunidades de emprego é bem diferente no resto da UE. O grosso vai para os chamados profissionais, “ocupações de alto nível na ciência, engenharias de cuidados de saúde, de negócio e ensino”. Este ramo representa 24% das oportunidades totais a serem geradas, “muito mais alto do que os 14% projetados para Portugal”.

Cláudia Valente, investigadora da Universidade Católica Portuguesa, um dos pontos de contacto do Cedefop cá, sublinha no estudo que “as hipóteses de base das projeções e os resultados obtidos são plausíveis”.

“Parece que Portugal está a acelerar a sua transição para uma economia mais intensiva em conhecimento”, além de que as projeções indicam que cerca de dois terços de todas as oportunidades de emprego entre agora e 2025 irão requerer qualificações de nível alto e médio”.

O maior desafio prende-se, no entanto, com a integração das gerações mais velhas (menos qualificadas) neste processo de aparente modernização.

Segundo a socióloga e economista, “ao passo que os níveis de educação da juventude parecem estar a aumentar rapidamente e espera-se que continuem a melhorar, são necessários mais esforços para aumentar a educação dos adultos e a aprendizagem ao longo da vida para ajudar a reduzir o número de pessoas com baixas qualificações”.

Ainda assim, repara que os jovens não estão a salvo. Pelo contrário. Com a taxa de desemprego muito elevada, acima dos 30% (e de novo a subir, segundo os últimos dados), “são necessários novos e melhores empregos para todos os jovens”. “Muitos estão a abandonar o país à procura de melhores perspetivas de emprego.”

Não foi o caso de Duarte Silva. Esteve anos na Argentina e em Inglaterra a trabalhar e a estudar, mas decidiu voltar. E ficou. Tem é de esperar.

O novo fundo agrícola europeu (2014 a 2020) tem 4,1 mil milhões de euros em apoios para Portugal.

Dois casos

Do jornalismo para as plantas medicinais

Bruno Vargas, 37 anos. O neto do agricultor

“Há muita gente a produzir plantas aromáticas e medicinais em Portugal, mas nós fazemo-lo de forma biológica. Isso diferencia-nos e torna as nossas plantas melhores.” O ex-estudante de Jornalismo produz a partir de Rio Maior, numa quinta de 3,5 hectares. “Dá trabalho, claro, temos de estar sempre em cima, mas é bom. Exportamos 100%, o clima é uma vantagem.” A empresa Herbas Organic Herbs nasceu por vários motivos. O jornalismo não se mostrou o caminho sonhado e havia os incentivos da UE. E o terceiro? Bruno conta uma história. “Foi por influência do meu pai. Ele é daquela geração de filhos de agricultores que, por várias razões, nunca seguiram essa vida. O meu avô tinha vinha e fazia vinho. Eu vim completar essa ponte.”

Do cinema para os frutos vermelhos

Duarte Silva, 32 anos. Segunda vida

“Este projeto existia na minha cabeça há algum tempo. Estava fora do país e vi nisto uma oportunidade para voltar”, diz Duarte Silva. Formado em Cinema, tirou um curso de Gestão a pensar nesse futuro próximo. Quis voltar porquê? “Sou de Viseu. Quando olhamos para o país, sobretudo para o interior, impressiona o grau de desertificação, de abandono das terras. Penso que esta é uma forma de lutar contra isso.” Quer dar aulas e elege a agricultura como “complemento”. Problema: ainda não é agricultor, embora conheça bem o negócio dos frutos vermelhos de fio a pavio: a colheita delicada e o crucial escoamento (rápido) da produção. Está na zona cinzenta há um ano à espera de que os fundos sejam libertados.

 

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