Previsões da Primavera

Portugal só recupera um quinto do investimento destruído na crise

Mário Centeno. Fotografia: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
Mário Centeno. Fotografia: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Comissão Europeia corta ritmo do investimento para metade. Exportações avançam 4,1%, quase em linha com os 4,3% do governo.

Mesmo com fundos europeus e uma política do Banco Central Europeu (BCE) muito pouco restritiva nas taxas de juro, a Comissão Europeia (CE) prevê que o investimento português cresça apenas 1,6% em termos reais (descontando a inflação) em 2016. O governo conta com 4,9% no Programa de Estabilidade, ou seja, o triplo.

As novas previsões da primavera, ontem divulgadas, mostram ainda que a expansão do investimento, que é fulcral para a criação de emprego e o aumento do potencial da economia no médio e longo prazo, passa a ser metade do que esperava Bruxelas no inverno.

E, pior, Portugal só vai conseguir recuperar pouco mais de um quinto do investimento que desapareceu durante os anos da grande crise. O investimento cresce 1,6% neste ano e depois recupera 4,9% em 2017.

Recuperar 3 mil milhões dos 15 mil milhões desaparecidos

O problema é que, de acordo com a base de dados da Comissão Europeia, entre 2008 e 2014, desapareceu da economia cerca de 15,1 mil milhões de euros em investimento público e privado.

Agora, dizem as novas previsões, entre 2015 e 2017 o país só vai conseguir repor cerca de três mil milhões de euros em máquinas, equipamentos, tecnologias e outros meios de produção.

Isto dá uma taxa de reposição do investimento de cerca de 22%. No setor privado, mostra Bruxelas, o ritmo de reposição também é dos mais tímidos da Europa: cerca de 26%.

Percebe-se que o investimento público, constrangido pelas amarras do Pacto de Estabilidade e pelas políticas do ajustamento da troika, regressa em menor velocidade face à drenagem do passado.

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Mas há pior na Europa

Em Chipre a taxa de reposição é parecida com a portuguesa. Pior só na Eslovénia, que recupera 17% nos três anos em análise face ao que perdeu entre 2008 e 2014; e, claro, na Grécia, que continua em recessão e sem saber ao certo dos contornos do seu novo ajustamento, com uma recuperação de apenas 6% do investimento desaparecido.

Mas, por exemplo, na Irlanda, que também esteve sob ajustamento, o investimento acumulado entre 2015 e 2017 é mais do triplo (236%) face ao que se evaporou entre 2008 e 2014.

A explicação da Comissão

Os economistas da CE repararam neste problema português e até têm uma explicação. O mercado de crédito continua cristalizado, sobretudo no mercado das empresas de menor dimensão. Além disso, neste ano, os fundos europeus ainda não vão entrar de tal forma que isso se sinta no arranque de novos investimentos. Em 2017, a situação alivia.

“A maioria dos indicadores de investimento contraiu-se ainda mais no início de 2016, excluindo as vendas de veículos pesados e a confiança do setor da construção”, que tem vindo a desanuviar de mínimos históricos.

Confiança periclitante

O INE diz que “o indicador de confiança da indústria transformadora diminuiu em março e abril, após ter estabilizado em fevereiro, verificando-se uma evolução negativa das opiniões sobre a procura global e das perspetivas de produção no último mês”.

E que “o indicador de confiança da construção e obras públicas estabilizou em abril, após ter aumentado nos últimos dois meses, observando-se uma ligeira recuperação das opiniões sobre a carteira de encomendas”, mas há também um “ligeiro agravamento das perspetivas de emprego”.

Assim, repara a Comissão, “o investimento deverá desacelerar para 2% neste ano”. Este “abrandamento significativo, particularmente no investimento das empresas, é explicado principalmente pelo efeito de arrastamento negativo dos resultados inesperadamente fracos nas máquinas e nos equipamentos durante o segundo semestre de 2015, o ambiente externo fraco e a volatilidade atual nos mercados financeiros”.

Já em 2017, Bruxelas espera que “o crescimento do investimento ganhe um novo ímpeto, apoiado pelos fundos estruturais da União Europeia e pela melhoria das condições de financiamento”. O estudo da primavera denota, por exemplo, lentidão no acesso ao crédito, sobretudo nas empresas de menor dimensão, e isso ressente-se no investimento.

Mais agreste nas PME

No setor das PME (pequenas e médias empresas), “os dados mais recentes indicam que os maiores aumentos do volume de crédito não ocorreram onde as taxas de juro caíram mais; por exemplo, os volumes de empréstimos pequenos têm aumentado apenas modestamente em Itália e em Portugal, onde o declínio nas taxas de juro tem sido grande”, constata a mesma Comissão Europeia.

Tudo somado, o desemprego, “continua alto”, ainda que alivie para 11,6% da população ativa em 2016 e 10,7% no ano seguinte. Mas a criação de emprego reflete bem a falta de investimento. Avança 0,9% neste ano e 0,7% no próximo.

Uma economia mais fraca

Em traços gerais, a CE está à espera de uma economia mais fraca neste ano. E, assim, mais exposta a “riscos e incertezas”, sejam internos sejam externos.

“No geral, o PIB de Portugal deverá crescer 1,5% em 2016 e 1,7% em 2017”, refere o relatório da primavera. Os números comparam com os 1,8% em ambos os anos que o governo inscreveu no Programa de Estabilidade, faz agora duas semanas. Em fevereiro, a Comissão dizia 1,6%.

“Os riscos para as perspetivas macroeconómicas estão enviesados no sentido descendente e relacionados com a incerteza política, a evolução dos mercados financeiros e uma pressão de desalavancagem persistente no setor privado”, repara ainda.

Mais devagar nas exportações

O suposto motor da economia, as exportações, também cresce, mas menos do que se esperava. A Comissão diz agora 4,1% por causa da menor procura externa. O governo espera 4,3%. Também reviu em baixa.

Mário Centeno, o ministro das Finanças, respondeu que “o governo acredita que conseguirá cumprir as metas traçadas no Programa de Estabilidade”.

O ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, admitiu que no final de 2015 “estava a arrefecer o ritmo de crescimento”, mas que “estamos a trabalhar com as empresas na aceleração dos fundos comunitários”.

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