Portugueses estão a guardar mais euros em casa com medo da pandemia

Há muitas notas de euros que não estão a regressar ao Banco de Portugal. Retorno de notas afundou no primeiro confinamento de 2020 e agora em fevereiro colapsou 50%. Muito dinheiro guardado em casa por motivos de precaução, porque há mais barreiras à circulação e por receio de mais contactos físicos.

Os residentes em Portugal estão a guardar mais euros em casa por causa das limitações e dos receios provocados pela pandemia. Estão a ser constituídas "reservas" por motivos de precaução, confirmou fonte oficial do Banco de Portugal (BdP), ao Dinheiro Vivo (DV).

Além disso, o colapso do turismo também fez cair a quantidade de euros (em valor e em número de notas) que entrava no país por via dos visitantes estrangeiros. O valor em transações em efetivo também estará a cair por causa das compras crescentes através de plataformas digitais e em lojas online.

Em todo o caso, o Banco de Portugal e o Banco Central Europeu (BCE) referem que o fenómeno em curso reflete mais o desejo de ter dinheiro em "reserva" por causa da incerteza gerada pela crise pandémica.

Existem dois grandes fluxos de notas que servem para apurar a quantidade de euros que estão efetivamente em circulação na economia (emissão líquida de notas). Esta emissão resulta da diferença entre as notas que são levantadas e as notas que regressam ao banco central depois de finalizadas as transações - os chamados depósitos.

De acordo com dados históricos do BdP analisados pelo DV, o valor depositado (o retorno de notas ao banco central) caiu de forma brutal na sequência do primeiro confinamento por causa da pandemia (decretado há cerca de um ano) e voltou a afundar com este segundo confinamento (decretado em janeiro último).

Estamos a falar de quebras de valor históricas na ordem dos 60% (em abril e maio de 2020) e agora de 40% e 50%, em janeiro e fevereiro de 2021, respetivamente. As séries oficiais remontam a 2002, o ano em que as notas e as moedas de euros entraram em circulação.

Na próxima quarta-feira (dia 14), o Banco de Portugal irá publicar o Relatório de Emissão Monetária relativo a 2020 onde entrará em maior detalhe sobre o que aconteceu com o uso das notas de euro em Portugal no primeiro ano da pandemia.

Como referido, o facto de o turismo ter ficado praticamente interrompido nestes meses também explica esse não-retorno de dinheiro ao banco central. Mas não explica de forma significativa, segundo um novo estudo do BCE.

Há um outro fenómeno acontecer. O valor em levantamentos de dinheiro (notas que saem das máquinas Multibanco e ATM, por exemplo), embora esteja a cair, não afunda tanto quando o valor que regressa ao Banco de Portugal. Isso sinaliza que existem imensas notas e valores significativos que permanecem mais tempo algures na economia, mas não se traduzem em transações, por exemplo.

Onde estão as notas e o que significa isso?

De acordo com a nova investigação do BCE feita para a zona euro no seu conjunto, "as notas estão circular de forma menos ativa do que no ano anterior [2019], refletindo um impulso para manter reservas de numerário por motivos de poupança preventiva [precaução], além de corroborar que a procura por motivos de transação está mais fraca".

Ou seja, as pessoas estão mesmo a guardar muito mais dinheiro em casa por motivos de "precaução", o que está a ser entendido como um reflexo direto dos constrangimentos causados pela pandemia (receio de contacto social e físico) e das medidas de confinamento (limites à circulação, recolher obrigatório, etc.).

Segundo o estudo publicado pelo BCE, "as razões para este comportamento podem incluir o aumento da incerteza e a redução da mobilidade (levando as famílias a reter valores mais elevados, reduzindo assim a necessidade de ir às máquinas dispensadoras de notas)".

"Os fluxos reduzidos de notas que entraram e saída dos bancos centrais do Eurossistema indicam que a circulação ativa diminuiu, sugerindo uma maior procura por precaução, possivelmente devido ao aumento da incerteza e à redução da mobilidade", acrescenta o estudo do BCE, que aponta assim para um fenómeno chamado de "paradoxo das notas".

Há procura por dinheiro (notas), mas este está a ser menos usado em transações e demora muito mais tempo a regressar ao banco central (a tal quebra abrupta dos depósitos).

Este fenómeno de guardar dinheiro por motivos preventivos tem acontecido no passado, na grande crise financeira, por exemplo, mas a pandemia covid parece ter levado o comportamento a níveis mais extremos. O BCE diz que está curioso sobre como é que esse dinheiro vai ser usado quando a pandemia acabar.

Em Portugal, está a acontecer o mesmo

"Em linha com o comportamento verificado ao nível da área do euro, o Banco de Portugal tem efetivamente registado um maior consumo de notas durante a pandemia, pelo que se pode concluir que o fenómeno do paradoxo das notas, descrito no artigo do BCE, também se observa em Portugal", confirmou fonte oficial da instituição governada por Mário Centeno.

"A emissão líquida de notas, que é a diferença entre as notas levantadas e as notas depositadas no Banco de Portugal desde a introdução do euro [valores acumulados desde janeiro de 2002], teve no último ano uma evolução positiva, ou seja, em 2020 tornou-se menos negativa face ao ano anterior", explica a mesma fonte do BdP.

"Assim, no final de 2020, o valor das notas colocadas em circulação pelo Banco de Portugal ascendia a -19,3 mil milhões de euros, 3% ou 610 milhões de euros acima do alcançado a 31 de dezembro de 2019 (-20 mil milhões de euros)" e há muito mais notas no mercado. "Em quantidade, a emissão líquida em Portugal atingiu 317 milhões de notas no final de 2020, o que representa um aumento de 30% face ao último dia do ano anterior."

"Em 2020, inverteu-se a tendência de decréscimo da emissão líquida que se verificava em Portugal há vários anos", refere o BdP.

Diz ainda que "um dos fatores que, tradicionalmente, influenciam a emissão líquida de notas em Portugal é a entrada significativa no país de notas colocadas em circulação por outros bancos centrais da área do euro, principalmente notas de valor mais elevado, nomeadamente por via dos turistas."

Devido à "acentuada crise no setor do turismo", houve e há menos numerário a entrar em Portugal transportado pelos estrangeiros ou levantado das suas contas.

No entanto, o BdP confirma que há "um menor retorno de notas ao Banco de Portugal" por estarem a ser "retidas como reserva de valor pelos diversos agentes económicos (público, empresas e também instituições de crédito)".

O banco central nacional também diz que "é importante referir que os levantamentos de notas no Banco de Portugal têm diminuído desde o início da pandemia e este indicador, conjugado com os levantamentos em ATM, que registaram em 2020 uma queda da mesma dimensão percentual, parece indiciar uma menor utilização do numerário enquanto meio de pagamento". Pode ser o reflexo do maior uso das plataformas online e transações baseadas em moedas virtuais, por exemplo.

"No entanto, os depósitos no Banco de Portugal têm revelado uma quebra ainda mais abrupta, o que justifica o crescimento da emissão líquida em Portugal."

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