Consumo

Portugueses estão a pedir mais um milhão por dia em crédito pessoal e cartões

Inauguração do Salão Automóvel 2017, uma mostra de veículos expostos em mais de 16 mil metros quadrados, na Feira Internacional de Lisboa, em Lisboa, 21 de novembro de 2017. MÁRIO CRUZ/LUSA
Inauguração do Salão Automóvel 2017, uma mostra de veículos expostos em mais de 16 mil metros quadrados, na Feira Internacional de Lisboa, em Lisboa, 21 de novembro de 2017. MÁRIO CRUZ/LUSA

No total, o crédito ao consumo disparou, no ano passado, para um novo máximo de sempre: 7,6 mil milhões de euros.

É um novo recorde. Os portugueses estão a recorrer em força ao crédito pessoal, cartões de crédito e contas a descoberto para consumo, mas também para fazerem frente às despesas do dia-a-dia. No ano passado, as famílias endividaram-se num total de 4,6 mil milhões de euros em novos contratos desse tipo de créditos (cerca de 20,8 milhões por dia), que têm associados taxas de juro mais elevadas. É um aumento de 357 milhões face a 2018, números redondos mais um milhão de euros por dia, e o valor mais alto desde pelo menos 2013, altura em que o Banco de Portugal começou a disponibilizar estes dados.

“A competição pelo crédito às famílias está a intensificar-se. Num contexto de transformação do setor financeiro e com taxas de juro muito baixas, os bancos procuram por fontes de rentabilidade e o crédito é uma alternativa evidente”, refere Filipe Garcia, economista da IMF-Informação de Mercados Financeiros. No total, o crédito ao consumo disparou, no ano passado, para um novo máximo de sempre: 7,6 mil milhões de euros. Só o crédito automóvel recuou 130 milhões em termos anuais, refletindo a quebra nas vendas de carros, mas deixando o valo global de crédito automóvel nos 2,99 mil milhões, em 2019. Os dados agora divulgados pelo BdP sobre crédito ao consumo são mais completos do que os anunciados na semana passada, que apontavam para um valor global de 5.245 milhões de euros . Além disso, detalham os montantes que foram destinados para cada tipo de segmento.

Estes dados são um sinal para o Banco de Portugal reforçar as medidas para conter o aumento do recurso ao crédito pelas famílias, considera a Deco. “Não estou surpreendida com este aumento. Andámos a alertar, em 2019, para o aumento do endividamento das famílias no crédito pessoal e cartões de crédito”, adianta Natália Nunes, coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da Defesa do Consumidor.

“Algo tem de ser feito”. Segundo Natália Nunes, há portugueses a recorrer ao crédito pessoal e aos cartões de crédito para cobrir outros empréstimos que já não conseguem pagar. Natália Nunes já tinha alertado, em janeiro que, se o Banco de Portugal não adotasse medidas urgentes para travar a subida do crédito ao consumo, o número de famílias sobre-endividadas em Portugal iria aumentar. Em 2019, a Deco recebeu 2787 pedidos de ajuda de famílias que não conseguiam pagar as suas contas ao fim do mês. São mais 50 famílias do que em 2018. Isto numa altura de desemprego baixo e de crescimento económico. “Se houver qualquer alteração (da economia), imagine o impacto que pode ter em muitas famílias”, alertou.

Limites excluem créditos até 6000 euros

O Banco de Portugal anunciou, no final de janeiro, novas medidas para travar o recurso ao crédito pessoal, incluindo a redução do prazo máximo para novos contratos de 10 para sete anos, a partir de 1 de abril. Mas as medidas implementadas pelo supervisor não abrangem os cartões de crédito, nem os empréstimos até ao montante de cerca de 6000 euros.

Para o economista Filipe Garcia, “se os bancos ou as instituições de crédito especializado estiverem disponíveis para emprestar, os portugueses endividam-se. E é isso que parece ter voltado a acontecer em 2019. Na verdade, os bancos tradicionais são hoje os responsáveis por cerca de 75% do novo crédito pessoal concedido, ganhando quota às tradicionais instituições de crédito especializado. É um segmento de mercado que está também a crescer de forma muito significativa”.

Para Natália Nunes, o Banco de Portugal deve impor uma maior responsabilização na concessão de crédito. Relatou o caso de uma consumidora “que ganha o salário mínimo e a quem foi concedido um plafond de 1000 no cartão de crédito”. Depois, “o plafond foi aumentado a pedido dela e, mais tarde, por iniciativa da entidade emissora do cartão”.

A responsável da Deco recomenda que cada família não tenha mais de 35% do seu orçamento mensal afeto ao pagamento de créditos. Sugere ainda que as famílias ponderem muito se, de facto, precisam de recorrer ao crédito. Caso já tenham créditos e não consigam pagar, a melhor solução é pedir ajuda para seja feita uma renegociação com a entidade credora. Mas, nestes casos, o consumidor fica sinalizado na central de responsabilidades de crédito do Banco de Portugal, passando a ser visto como um potencial cliente de risco.

O problema, segundo Natália Nunes, é que, estando os bancos a incentivar o recurso ao crédito, no final os maiores lesados serão os consumidores que ficarem sobre-endividados. “Sentimos que os consumidores são os mais lesados nesta relação. Perdem as casas, ficam com os salários penhorados e dívidas para pagar”.

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