Portugueses gastaram menos 900 milhões no Multibanco

Passos recebe mais uma herança de Gaspar
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Foi a seguir ao Natal do ano passado que os consumidores portugueses começaram a reagir dramaticamente à crise e a comprar menos a débito através da rede Multibanco. No primeiro semestre deste ano, o valor em compras estava a cair 4% em termos homólogos acumulados, o pior registo desde que o euro entrou em circulação. Contas feitas, são menos 539 milhões de euros que entraram no circuito da economia, de acordo com dados do Banco de Portugal.

Situação similar acontece com os levantamentos nas caixas. O valor em notas está a cair há mais tempo – desde que Portugal oficializou o pedido de resgate em abril -, mas também este teve a descida semestral mais elevada desde que Portugal tem a moeda única a circular. Em apenas 12 meses, os portugueses levantaram menos 369 milhões de euros, uma redução de 2,9% face ao primeiro semestre do ano passado.

Tudo somado foram menos 900 milhões de euros canalizados para consumo em apenas um ano. Os valores relativos a 2011 como um todo mostram que o total acumulado de “compras nacionais realizadas através da rede Multibanco” foi de 28,4 mil milhões de euros; os “levantamentos nacionais” neste sistema ascenderam a 25,9 mil milhões de euros. Ambos os valores anuais estão em queda.

Segundo a base de dados do banco central, o valor em compras está a cair há precisamente sete meses consecutivos; os levantamentos há 16. Nunca na história do euro, antes desta crise, os dois indicadores tinham recuado.

A explicação para o fenómeno de enormes proporções, que afeta diretamente a economia (produto interno bruto) via consumo, é simples. O Governo, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional explicam que a quebra do consumo é diretamente explicada pelas restrições sobre o rendimento disponível (os ordenados e pensões menos os impostos mais os apoios sociais) e pela degradação do emprego e o aumento do desemprego.

O Governo refere que a contração esperada do consumo privado (cerca de -6,3% este ano) é “fruto da forte deterioração do rendimento disponível das famílias e da evolução do mercado de trabalho”.

Em todo o caso, o censo do Banco de Portugal mostra que a própria rede Multibanco está a ‘adaptar-se’ aos tempos de crise, acompanhando a retração no tecido empresarial. Pela primeira vez, em 2011, o número de caixas automáticas e de terminais de pagamento em estabelecimentos diminuiu (ver caixa em cima). O número de cartões está a cair há três anos consecutivos. Depois de um pico superior a 11 milhões, está agora ligeiramente acima dos 10 milhões.

Causas económicas em detalhe

A explicação do Banco de Portugal entra em mais detalhes: “Esta evolução reflete, em larga medida, o impacto de medidas de consolidação orçamental, nomeadamente ao nível das remunerações no setor público, das prestações sociais e da carga fiscal, bem como a redução das remunerações no setor privado, num contexto de queda acentuada do emprego e de aumento significativo do desemprego”.

A instituição avisa ainda que “as decisões de consumo das famílias deverão ser também condicionadas pelas restrições orçamentais” num contexto de crescente pessimismo face “à evolução do rendimento permanente” e à disponibilidade do crédito bancário, que abundou no passado, mas que a partir desta crise será radicalmente mais caro.

Para o banco central o consumo das famílias deve cair 5,6% este ano e 1,3% no próximo; o Governo diz -6,3% e -0,7%, respetivamente. Mas há cenários piores. É o caso mais recente das contas feitas pela OCDE, que apontam para uma redução de 6,8% em 2012 seguida de menos 3,2% no próximo ano.

O ricochete no orçamento

Quando as famílias compram menos, o primeiro efeito colateral fora da economia doméstica é no orçamento. As últimas informações das Finanças relativamente às receitas de impostos dão bem conta disso. O IVA está a sofrer bem mais do que se esperava.

Os peritos das Finanças frisam mesmo que os consumidores estarão a reagir à crise doméstica, ao desemprego e ao rol de más notícias externas, “adiando a compra de bens de consumo duradouros”, (como mobília, colchões, televisões, frigoríficos). São justamente o tipo de produtos que mais ferem a receita já que são taxados a 23%, o escalão mais alto do IVA.

O Governo, através do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, comentou recentemente que “temos de passar por este processo, não estamos a acelerá-lo de uma forma artificial, não estamos a exigir demais”. É preciso “romper com o passado”, completou.

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