Portugueses já quase só compram comida e gadgets

Jumbo é o mais barato
Jumbo é o mais barato

As vendas no segmento alimentar aumentaram 2,2% no segundo
trimestre, face ao período homólogo, e recuaram 4,2% no não
alimentar, segundo o barómetro da Associação Portuguesa de
Empresas de Distribuição (APED) hoje divulgado.

Entre abril e junho deste ano, as vendas no segmento alimentar
totalizaram 2.844 milhões de euros e as da não alimentar — que
inclui eletrónica, vestuário, entre outros itens — ascenderam a
1.822 milhões de euros.

Segmento alimentar mantém crescimento

A “inflexão da tendência negativa” na
área alimentar, que subiu mais de 2%, deveu-se ao “reforço
promocional das insígnias de distribuição moderna, aumento da
inflação, reclassificação de algumas categorias de produto em
sede de IVA e alteração dos hábitos de consumo alimentar”, diz a APED.

O segmento dos frescos (+1.1 pp), mercearia (+1,2 pp), congelados (0,1%) e charcutaria (+0,5%) foram as únicas categorias analisadas que registaram subidas no trimestre em termos de vendas. Em sentido inverso surgem as descidas ocorridas nas vendas do leite e produtos derivados (-1,3pp), produtos de limpeza e higiene do lar (-1,1pp) e bebidas (-0,5 pp).

No total, as vendas no segmento alimentar e não alimentar
apresentaram uma quebra de 0,4% no segundo trimestre, face ao período
homólogo de 2011, para 4.666 milhões de euros. Esta quebra deve-se
sobretudo à descida das vendas na área não alimentar.

Entretenimento e papelaria influenciam negativamente o sector não alimentar

No segundo trimestre a
área de entretenimento e papelaria foi a que sofreu a maior quebra
no segmento não alimentar, recuando 13,6%, para 70
milhões de euros, seguida do vestuário, onde a faturação diminuiu
6,5% para 394 milhões de euros.

A área de bens de equipamento, que inclui a eletrónica,
telecomunicações e eletrodomésticos, caiu 2,8%, para 430 milhões
de euros, e as vendas de medicamentos não sujeitos a receita médica
(MNSRM) recuaram 2,4%, para 89 milhões de euros. Ana Isabel Trigo Morais, diretora-geral da APED, mostra-se mais optimista quanto ao futuro deste último segmento, lembrando que a APED apresentou ao governo uma proposta para aumentar o número de medicamentos não sujeitos a receita que podem ser vendidos nas parafarmácias e acredita que a proposta poderá ter luz verde, já que essa, lembra, “é uma das recomendações contidas no memorando de entendimento com a troika”.

No caso dos bens de equipamento destaque pela positiva para o crescimento em vendas da eletrónica de consumo, que aumentou 25,6%, para 136 milhões de euros as suas vendas. Mas este é um crescimento “conjuntural”, alerta Ana Isabel Trigo Morais, apontando o campeonato europeu de futebol, que movimentou vendas de televisores e plasmas nesse período (alavancadas em promoções das insígnias), como um dos fatores que impulsionou o crescimento neste sector. Esta, bem como a de telecomunicações (+5,9%, para os 43 milhões de euros) foram os únicos segmentos dos bens de equipamento a crescer, no caso das telecomunicações impulsionadas pelas vendas dos smartphones, relata a responsável da APED. Na informática, embora a descida de 13,5% do segmento em termos de vendas, para os 116 milhões de euros, destaque para o crescimento de 145% da venda de tablets neste período em relação ao trimestre homólogo do ano passado. Já os computadores portáteis caiu 24%.

Produtos de linhas branca (máquinas de lavar roupa, loiça, frigoríficos) nem os menores preços (-3,9% no preço médio) impediram uma descida de 17,3% dos segmento, alerta Ana Isabel Trigo Morais. A responsável mostra-se “muito preocupada” com a descida ocorrida, já que “mesmo baixando os preços já não é suficiente para alavancar as vendas”.

Na área dos combustíveis, no consumo de particulares, o sector também registou descidas. “Apesar da liderança [da área de distribuição] no mercado dos combustíveis e deste ter caído 8% globalmente as vendas das bombas de gasolina dos hipermercados caíram 3%”, realça Ana Isabel Trigo Morais, diretora-geral da APED.

Marcas de distribuição continuam a aumentar quota de mercado

O barómetro trimestral da APED também outras indicações sobre as mudanças do comportamento de consumo dos portugueses e do próprio negócio da distribuição. As marcas de distribuição continuaram a aumentar no trimestre a sua quota de mercado, fechando junho com uma quota de 36,4%, mais 2,3pp do que em relação a abril/junho do ano passado. As marcas de fabricante fixaram a sua quota fixou-se nos 63,6%, caíndo -2,3pp. Um ganho de quota de mercado das marcas da distribuição que Ana Isabel Trigo Morais considera “uma tendência inevitável” de crescimento. Os consumidores, frisa a responsável da APED, estão “hipersensibilizados à questão do preço” e as próprias cadeias de distribuição estão a diversificar o seu portefólio de oferta, apresentando desde propostas de primeiro preço (produto com o preço mais baixo) a produtos de marca própria gourmet com um preço mais elevado.

A “hipersensibilização” dos consumidores ao preço está a levar as insígnias a reagir com ofertas promocionais e, refere a responsável da APED, estamos a assistir a um “aumento inflacionado das vendas” muito por conta das promoções, já que o barómetro não contabiliza as promoções no talão praticados pelas cadeias, apenas o preço total do mesmo.

Outro fenómeno que este período está a assinalar é as próprias mudanças de consumo dos clientes. De um período em que se assistiu a uma subida no consumo no lar, em detrimento dos restaurantes – o que levou a que durante “uns oito meses” os produtos congelados ou refeições pré-preparadas tivessem assinalado aumentos de vendas – agora os portugueses voltaram aos produtos não confecionados, diz, o que talvez explique a subida da categoria frescos nas vendas.

Os consumidores também estão a mudar as vezes que compram, bem como os locais onde preferem fazer as suas compras. No trimestre os actos de compra subiram 2,7% face ao período homólogo e os supermercados foram os espaços comerciais que mais ganharam quota de mercado face a outro tipo de superfícies comerciais: +1,7%. Os hipers aumentaram 0,4%, enquanto os outros locais caíram 1,7% e os discounters (onde se situam cadeias como o Lidl) caíram 0,4%. Facto curioso numa altura em que o preço é factor decisivo. “Tudo está focado na guerra dos preços, por isso essa diferenciação com base nesse factor tende a esbater-se”, justifica a responsável da APED.

O sector, alerta a responsável, está a sofrer os efeitos da subida da inflação e do aumento dos impostos (IVA, por exemplo), e com o aumento do desemprego e quebra de consumo dos portugueses, a APED considera que isso vai impactar o sector. Ana Isabel Trigo Morais não arrisca a avançar uma previsão, mas acredita que o sector “irá ter uma perda significativa ainda este ano”. “Vamos ter de ver como corre este ano o Natal”, diz.

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