Cinco portugueses que trabalham na nova economia das criptomoedas 

Portugal está a afirmar-se no mundo do blockchain e das moedas digitais e está a atrair cada vez mais empresas e profissionais, nacionais e estrangeiros, para este setor.

Cinco portugueses contam como vivem o seu dia-a-dia de trabalho no mundo digital da internet do futuro, baseada em tecnologia blockchain (registo digital distribuído) ligada às criptomoedas. Têm cerca de 30 anos, férias ilimitadas e trabalham sobretudo por via remota. Alguns alternam o local de residência entre duas cidades de países diferentes. São profissionais que encontraram na indústria ligada às criptomoedas e baseada nesta tecnologia o seu trabalho ideal, num país, Portugal, que a acolhe de braços abertos. Quase todos admitem que não trocariam o trabalho neste mundo por uma posição numa instituição ligada à economia tradicional. Trabalham na ConsenSys, uma empresa ligada à plataforma Ethereum, cuja moeda digital, o ether, é a segunda criptomoeda mais valiosa do mundo, a seguir à bitcoin.

"Portugal tem tido uma postura inteligente e acolhedora, e está a dar frutos"

Pedro Figueiredo, tem 32 anos, nasceu e reside no Porto e formou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade Nova de Lisboa. Descobriu as criptomoedas - e também a plataforma Ethereum - em 2017. "Foi também nesse ano que ouvi falar da ConsenSys, e que decidi que um dia iria trabalhar aqui. Passados dois anos, no início de 2019, passei a integrar a equipa de professional services como desenvolvedor de software", explica ao DN/DinheiroVivo. Em termos de criação de uma comunidade de profissionais ligados a criptomoedas, "Portugal tem tido uma postura inteligente e acolhedora, e está a dar frutos", considera este profissional, sublinhando que "temos [Portugal] atraído talento estrangeiro e muitas empresas grandes começam a fixar-se em Portugal e a reconhecer as nossas mais-valias". Pedro Figueiredo exemplifica: "basta ver o que aconteceu em outubro, em que coincidiram vários eventos de blockchain em Lisboa. A minha timeline do Twitter estava cheia de impressões da comunidade cripto, encantada com a qualidade das discussões, e com o país bonito e moderno", recorda.
Pedro Figueiredo viaja "uma vez a cada dois ou três meses para reunir com colegas ou com clientes". Considera que os salários nesta indústria "acompanham a grande procura por talento, havendo também atrativos adicionais, como bónus e opções de compra de ações da empresa - ainda antes de estar cotada em bolsa". "Se toda a indústria de tecnologias de informação é um setor em expansão, no mundo da blockchain esse crescimento é ainda mais acelerado e disruptor", sublinha.
Trocaria de emprego para uma empresa fora do setor? "Não troco esta indústria por nenhuma outra", responde. "Pelo contrário, temos assistido a um êxodo de talento de grandes empresas tecnológicas como a Microsoft e a Google para se juntar a nós nesta grande transformação que é a web3", nota. "Vamos continuar a crescer muito para avançar na descentralização da finança e criar um mundo maximamente descentralizado", diz.
Aos amigos e familiares costuma dizer que trabalha "na intersecção da tecnologia, finança e cultura".

"É difícil explicar o que fazemos. A primeira coisa é evitar falar dos preços das moedas"

Tem 34 anos e vive em Braga, mas é natural da Venezuela. Ricardo Silva, formado em Engenharia Informática pela Universidade do Minho, entrou profissionalmente no mundo das criptomoedas em 2017, usando várias ferramentas - desconhecidas para a maioria das pessoas - como MetaMask, Infura, Truffle, entre outras. "Reparei mais tarde que todas elas estavam associadas à ConsenSys e decidi juntar-me a ela. Desde então, tenho trabalhado na criação de Dapps (apps que correm com a tecnologia Web3 e blockchain) e mais recentemente trabalho ao nível do protocolo dos clientes Ethereum e Crosschain".
O seu dia-a-dia típico "começa relativamente cedo, logo após deixar as filhas na escola, para sincronizar com algumas equipas na Austrália". "Durante o dia, tenho alguma flexibilidade para poder tirar uma pausa para praticar exercício físico. Ao fim do dia, também tenho de sincronizar com outros colegas, mas em horários das zonas este e oeste dos Estados Unidos", conta.
Não se queixa da remuneração e sublinha que "dada a falta de talento com conhecimento nesta tecnologia, especificamente para smart contracts e conhecimentos no protocol layer, e a associação ao setor financeiro, a média de salários é maior comparativamente a outras empresas de setores diferentes". No entanto, também revela que na comparação com certas empresas de Silicon Valley e Wall Street, a diferença de salários é menor.
Numa área que enfrenta o problema de escassez de recursos humanos, e tal como os colegas, tem férias ilimitadas, "sendo que às vezes as pessoas podem ter tendência a tirar menos". "Eu, para evitar situações de burnout (esgotamento), tento sempre manter-me numa média de 25 dias por ano", afirma. "No entanto, este ano foi maior por causa da introdução dos dias zero productivity (zero produtividade), em que podemos não trabalhar, mas se optarmos por trabalhar, não devemos enviar e-mails ou mensagens para outros colegas. Hoje, dia anterior à véspera de Natal, é um desses dias", explica.
E é fácil explicar a amigos e familiares o que faz no trabalho? "É sempre difícil explicar! A primeira coisa é evitar falar dos preços das moedas, pois leva a conversa para um lado que não tem fim", reconhece.

"Divido o meu tempo entre México, Nova Iorque e Lagos, em Portugal "

Tanya Simmonds-Rosa tem 34 anos. É portuguesa, mas nasceu e estudou em Inglaterra (Política e Filosofia na Universidade de Sussex) e divide o local de residência entre Lagos, no Algarve, e Nova Iorque. O seu primeiro trabalho na indústria baseada em blockchain foi na empresa ConsenSys, onde se encontra atualmente. "Tive a oportunidade de ouvir o CEO da companhia, Joe Lubin, falar sobre a tecnologia e fiquei tão inspirada que me candidatei, de imediato, a um cargo na empresa", recorda. "Eu nunca tinha trabalhado na área das tecnologias, mas tinha competências transversais. Comecei há três anos e meio e agora lidero os nossos programas de recursos humanos e desempenho uma função na comunicação interna", explica.
Tanya acorda cedo para fazer exercício e meditar antes de começar a trabalhar. "Sou mais produtiva no período da manhã, período em que geralmente trabalho em programas e comunicações de maior dimensão", afirma. As tardes são passadas no zoom, com a sua equipa, a desenvolver trabalho em vários projetos. "Como o meu trabalho é desenvolvido remotamente, viajo com frequência e atualmente divido meu tempo entre México, Nova Iorque e Lagos, Portugal, país de onde parte da minha família é proveniente", nota. A empresa permite flexibilidade no horário, como ter uma folga a meio da semana ou tirar uma manhã. "Desde que se cumpra com o trabalho proposto e prazos estabelecidos, podemos fazer o nosso próprio horário de trabalho", conta. A política de férias é muito flexível, com dias ilimitados.
Sobre os salários, aponta que "estão ao nível de outras empresas globais, mas quando se contratam pessoas com competências raras de encontrar, há um bónus que é adicionado aos salários, especialmente no dos engenheiros da web3". Diz que se sente "inspirada para uma missão maior e pela visão da tecnologia. Se eu deixar o setor, será porque quero começar o meu próprio negócio ou mesmo meu próprio DAO (decentralized autonomous organization)", frisa. E Explica que os amigos e familiares "estão mais curiosos agora" em relação ao trabalho que faz. "Porém, quando começo a falar sobre a tecnologia do blockchain em si - acho que é aí que os perco".


"Muitas das empresas são 100% remote e globais e baseiam salários nos dos EUA "

Formou-se em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico e aos 30 anos lidera uma área da MetaMask, uma aplicação para negociar e gerir criptomoedas. Conheceu um presidente executivo de uma empresa ligada ao mundo das moedas virtuais que foi decisivo para o seu percurso. "O meu primeiro emprego em cripto foi um acaso", diz ao DN/Dinheiro Vivo. "Nessa altura já me fascinava este novo mundo descentralizado e conheci o CEO de uma empresa chamada HODL, uma aplicação de telemóvel que fornece informação em tempo real sobre criptomoedas", recorda. "Não estava à procura de emprego, mas como a conversa correu tão bem com o CEO da HODL, que por acaso estava à procura de um CTO (chief tecnhical officer) para começar uma equipa em Lisboa, decidi embarcar no projeto".
André Pimenta sublinha que há alguns fatores que diferenciam as empresas de blockchain ao nível dos salários pagos: "há muitas empresas a financiarem-se com a criação de tokens ou criptomoedas, e muitas vezes oferecem estes tokens aos trabalhadores". E depois há outra questão: "muitas destas empresas não só trabalham em tecnologias descentralizadas, mas também a própria mentalidade e maneira de gerir o negócio é mais descentralizada, ou seja, o poder e valor criado pela empresa é, em grande parte, transferido para os trabalhadores". Para os portugueses, "especialmente, acresce o facto que muitas destas empresas são 100% remote e globais" e "muitas baseiam os seus salários nos valores dos Estados Unidos, o que faz com que o salário acabe por ser mais atrativo".
André Pimenta considera que "se pode dizer que existe uma comunidade cripto em Portugal". "No meu círculo de amigos mais próximos, pelo menos três trabalham em cripto, e praticamente todos os outros possuem cripto", destaca. "Em outubro fui a múltiplos eventos e conferências cripto em Lisboa que estavam completamente cheios de pessoas, estrangeiras e portuguesas. Conheci projetos portugueses fantásticos", nota. E defende que todas as vantagens da blockchain e das cripto se podem também extrapolar para Portugal. "Os portugueses veem oportunidades neste novo sistema de finanças descentralizadas (DeFi) e lideramos a adoção de Ethereum e tokens do ecossistema de Ethereum na Europa", frisa.

"Temos figuras proeminentes do mundo blockchain a mudar-se para cá"

Natural do Porto, Gonçalo Sá ainda não chegou aos 30 e é responsável pela cibersegurança neste grupo de relevo no ecossistema ligado a criptomoedas. Licenciado em Engenharia Aeroespacial pelo Instituto Superior Técnico, aos 29 anos divide a residência entre a Invicta e Barcelona. Começou por estar envolvido, com amigos, na comunidade das criptomoedas, através de negociação e mineração de Ethereum, a segunda moeda digital mais valiosa do mundo a seguir à bitcoin.Teve a primeira experiência profissional no mundo das criptomoedas quando se juntou à ConsenSys, em fevereiro de 2017. "Passados dois meses de ideação, acabei por ceder à minha paixão de anos, a cibersegurança, e criar uma das primeiras equipas de segurança totalmente dedicadas à web3, a Diligence", afirmou ao DN/Dinheiro Vivo.
O engenheiro aponta a "lacuna gigante na quantidade de talento existente para preencher algumas funções", que explica os salários acima da média nesta área. "Tenho sentido isso na pele ao tentar contratar profissionais de cibersegurança para a Diligence nos últimos anos".
Gonçalo Sá passou o ano de 2020 praticamente todo em casa, mas este ano, desde o verão, já voltou "ao circuito de conferências". Em 2022 arranca o ano com uma talk em Stanford e uma conferência em Denver, nos EUA. "A comunidade de cripto tem um tribalismo muito forte e sinto que se retira imenso da presença em eventos físicos", explica. Diz que em Portugal, no setor de blockchain e criptomoedas, "temos uma comunidade que está a crescer a olhos vistos, cada vez mais vibrante". "Um ou dois anos depois de começar a interessar-me seriamente por criptomoedas comecei o primeiro Ethereum Dev Meetup em Lisboa e já na altura tínhamos uma audiência relativamente grande e interessada", lembra. Na altura, "apareciam, de forma rotineira, 40-50 pessoas para falar sobre desenvolvimento em Ethereum". "Muitas delas estão, entretanto, já a trabalhar na área ou a fazer os seus próprios projetos". Segundo Gonçalo Sá, "a injeção de talento estrangeiro atraído pelas condições legais favoráveis às criptomoedas também foi uma lufada de ar fresco muito bem-vinda". "Agora, não só temos portugueses brilhantes a contribuir para o panorama mundial da blockchain, como figuras proeminentes deste mundo a mudar-se para cá e a impulsionar ainda mais os nossos criadores nacionais", conclui.

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