Consumo

Portugueses regressaram no fim de 2015 aos hábitos consumistas do pré-crise

Gastos no final de 2015 dispararam e cartões de crédito aumentaram. Especialista fala em "cansaço de restrições" e a Deco de falta de aprendizagem

Tecnologia, vestuário e calçado. É por aqui que os portugueses andam a gastar dinheiro. Os números não enganam e mostram que no ano passado, particularmente em dezembro, houve um regresso aos velhos comportamentos de consumo do tempo pré-crise.

“Assistimos a um dezembro de um consumo desenfreado” – explica Mafalda Ferreira, docente do IPAM – The Marketing School – “os portugueses revelaram, em vários estudos, estarem cansados das restrições e decidiram aproveitar esta folga, mesmo sem terem dinheiro no bolso, para gastar. Claro que vão pagar mais tarde.”

Fotografia: REUTERS/Mark Blinch

Fotografia: REUTERS/Mark Blinch

Assistimos a um dezembro de um consumo desenfreado” – explica Mafalda Ferreira

Esta realidade até parece contrária ao índice de confiança dos consumidores – desceu no último trimestre do ano, face aos dois anteriores em que tinham melhorado.

O que aconteceu? “Depois de alguma turbulência política, os portugueses voltaram a olhar para o país de uma forma positiva. A isto acresce que o número de cartões de crédito concedidos, bem como o plafond, aumentou. Ou seja, houve maior acesso ao dinheiro e as pessoas compraram muita tecnologia, vestuário e calçado”, explica a professora.

Depois de alguma turbulência política, os portugueses voltaram a olhar para o país de uma forma positiva”, explica a professora.

Esse não foi o único fator. A alteração das datas de saldos também terá sido essencial: “As marcas avançam com promoções, preços atrativos, e os consumidores aderem.” A conclusão, como diz Mafalda Ferreira é simples, “o comportamento mais responsável, mais poupado, que se viu em Portugal durante três anos, não serviu de aprendizagem, foi um comportamento conjuntural”.

Os números são a prova desse regresso ao consumo. Os últimos dados da SIBS – responsável pela gestão de empresas especializadas em áreas de serviço que atuam essencialmente no sector dos pagamentos eletrónicos – revelam que entre 23 de novembro de 2015 e 3 de janeiro de 2016 foram efetuadas 110,2 milhões de compras pagas com cartões.

O comportamento mais responsável, mais poupado, que se viu em Portugal durante três anos, não serviu de aprendizagem, foi um comportamento conjuntural”

Isto significa um acréscimo de 10,9% em relação ao ano anterior, com um valor total de 4,3 mil milhões de euros, mais 6,6% que no período homólogo. Atualmente existem em circulação cerca de 20 milhões de cartões bancários, um valor ligeiramente superior a 2014, que em termos percentuais não tem qualquer peso, segundo a SIBS.

Lisboa 21/09/2013 - Foi fotografada esta manha a Loja Vintage, Viúva Alegre na rua R. da Assunção. (Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens)

Foto: Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Apelo à poupança

Face a estes números, a Deco, através do seu Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado (GAS), lançou um alerta para que os portugueses continuassem a privilegiar a poupança. “Tanto as famílias como as instituições de crédito estão a ter comportamentos que revelam que estão a ser menos responsáveis na forma como lidam com o dinheiro”, diz Natália Nunes, responsável pelo GAS.

Tanto as famílias como as instituições de crédito estão a ter comportamentos que revelam que estão a ser menos responsáveis na forma como lidam com o dinheiro”, diz Natália Nunes, responsável pelo GAS.

E continua: “A situação financeira das famílias não teve melhorias significativas, continuamos a viver tempos difíceis, prova disso é que o GAS continuou a receber o mesmo número de famílias sobre-endividadas em 2015 que em 2014, mas com um acentuar da degradação económica, ou seja, com muito maiores dificuldades de reestruturar as suas dívidas.”

Para piorar a situação, relembra que muitos daqueles que conseguiram voltar a empregar-se fizeram-no por valores inferiores aos que recebiam.“É surpreendente que as famílias estejam a regressar aos hábitos de consumo de pré-crise, com os resultados que se verificaram.”

O clima de euforia que se viveu no verão de 2015, com a saída da troika e depois a campanha eleitoral deu esperança às famílias e o acesso a crédito também foi facilitado”, diz Natália Nunes

E lembra ainda que as instituições financeiras aumentaram a concessão do crédito à habitação, automóvel e ao consumo. Nos últimos dados do Banco de Portugal, relativos a novembro de 2015, a concessão de crédito ao consumo voltou a subir para 493 milhões de euros e a componente de crédito através de cartões de crédito subiu 49,9% face a igual período de 2014. O montante de crédito para a compra de automóvel totalizou os 166 milhões de euros.

“O clima de euforia que se viveu no verão de 2015, com a saída da troika e depois a campanha eleitoral deu esperança às famílias e o acesso a crédito também foi facilitado”, diz Natália Nunes. Mafalda Ferreira remata: “Foi uma explosão consumista.”

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