Portugueses são os que mais querem poupar para enfrentar futuras crises

Apesar de a situação económica estar a melhorar, portugueses são os que mais fazem compras refletidas.

Menos pessimistas mas mais poupados. É o retrato geral dos portugueses que faz o mais recente estudo na União Europeia (UE) do Observador Cetelem sobre a confiança dos consumidores. O relatório, ao qual o Dinheiro Vivo teve acesso, mostra que, em Portugal, as pessoas começam a mostrar-se mais positivas, contrariando a tendência negativista dos anos anteriores, mas sem espaço para euforias: a folga que a retoma está a trazer é para poupar e não gastar dinheiro. Nos próximos anos, 57% dos portugueses inquiridos asseguraram que estão a pensar fazer crescer as suas poupanças – o valor mais alto da UE - e só 33% pretendem aumentar as despesas.

O estudo mostra que, pouco a pouco, a Europa vai recuperando da recente crise. Apesar de ainda abaixo do valor simbólico dos 2%, o crescimento europeu tem-se mantido regular. Para 2017, as previsões da Comissão Europeia apontam para um pequeno declínio da média da UE, que ficará nos 1,6%. Por outro lado, o desemprego europeu tem vindo a diminuir: dos 11% no pico da crise passou 8,3%.

Reflexo disto, a moral dos europeus está no nível mais elevado em dez anos. “É um sentimento perigoso se a isso se juntar a euforia desmesurada. No caso português, verifica-se que não é o caso. As pessoas estão mais confiantes mas continuam a manter uma postura de alguma reserva”, explica José Pedro Pinto, diretor de marketing e vendas do Cetelem, que acrescenta que, apesar do positivismo, nenhum dos restantes países europeus se está a deixar levar pelo entusiasmo. “Não nos parece também que nos restantes países analisados pelo estudo do Observador Cetelem se registem casos de euforia. Primeiro, porque apesar de estarmos perante os melhores valores da última década, continuam longe dos períodos de maior dinamismo, no final da década de 1990 e início deste século. Depois, porque é evidente uma certa diferença de predisposição entre os países ocidentais e os de leste, com estes últimos a assumirem maior pessimismo e dúvidas face à sua envolvente.”

Os portugueses avaliam 4,6 em dez a situação do país. A nota não é ainda positiva mas está de acordo com a média europeia (4,9) e melhor que no ano passado, quando a nota foi de 3,5. Foi a maior subida da UE. Acima de cinco estão a Alemanha, Bélgica, Reino Unido, República Checa, Dinamarca, Áustria e Bulgária. Os mais novos (18-34) são os que têm uma melhor perceção da situação nos seus países.

Por outro lado, em Portugal mantém-se a perceção de que o poder de compra diminuiu em relação ao ano anterior. Já os europeus, em média, consideram que o poder de compra permanece estável, apesar de 71% considerarem que os preços aumentaram em 2016. Os portugueses são os campeões das compras refletidas: 97% dos inquiridos comparam preços antes de comprar, contra uma média europeia já alta, de 90%. Os dados do observador mostram ainda que o consumo está a retomar a valores de 2008.

Em relação ao estado de espírito, os portugueses consideram-se ansiosos (53%), desconfiados (48%) e cansados (36%). A ansiedade é o sentimento dominante na maioria dos países europeus, mas a desconfiança está presente em quase todos eles. “O que este estudo demonstra também é que não é possível dissociar as situações por que passam os diferentes países e os contextos internacionais em que se inserem . Veja-se como a alteração de ciclo económico europeu, o crescente debate sobre segurança e a crise de refugiados se faz sentir no Mediterrâneo e um pouco por toda a Europa. Estas são matérias disruptivas, que poderão influenciar a economia de países que nem sequer são diretamente afetados”, indica José Pedro Pinto.

De facto, o estudo mostra que a situação internacional, como o Brexit ou a subida de Trump ao poder, tem provocado mudanças nos comportamentos. A falta de confiança no futuro

e a evolução da situação no país são os principais obstáculos ao consumo dos europeus. Em Portugal, 59% dos inquiridos dizem que os baixos rendimentos é o principal motivo para não consumirem mais e 45% declara que preferem poupar para se protegerem de um evento inesperado.

A confiança nos políticos é baixa, mas os portugueses estão acima da média europeia: 30% confiam nas autarquias locais (27% na UE) e 33% no Governo do país (24% na UE). Para a situação geral melhorar nos próximos anos, portugueses consideram que a economia teria de ser mais próspera (73%), os salários mais altos (57%) e teria de haver maior igualdade social (51%).

“Em Portugal, e pelas suas caraterísticas endógenas, a economia alavancou a confiança dos consumidores. As políticas europeias dos últimos anos têm vindo a contribuir para a estabilização da economia nacional, o crescimento do investimento externo em setores como o imobiliário e o aumento da importância do turismo são aspetos que deram aos consumidores maior confiança. Se a isto juntarmos a diminuição estrutural da taxa de desemprego, é natural que assistamos a um crescente consumo. E é aqui que entramos num ciclo virtuoso, em que o alavancar do consumo poderá também estimular o crescimento económico, a par de outros fenómenos, como sejam, a balança de exportações”, explica José Pedro Pinto.

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