leilões do solar

Preços demasiado baixos deixam elétricas portuguesas fora dos leilões do solar

Ministro do Ambiente,  João Pedro Matos Fernandes.
(Fotografia: Diana Quintela/ Global Imagens)
Ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes. (Fotografia: Diana Quintela/ Global Imagens)

Leilões de energia solar a metade do preço do mercado. ACEMEL diz que ainda é cedo para saber se os leilões vão baixar a fatura dos portugueses.

Os leilões de energia solar lançados pelo governo terminaram esta semana com preços médios nunca antes vistos em Portugal de 20,33 euros por MWh na produção de eletricidade (com remuneração garantida), revelou ao Dinheiro Vivo o ministro do Ambiente e Transição Energética, Matos Fernandes. Já no regime de mercado, a contribuição média que será paga ao sistema pelos produtores fechou nos 21,35€/MWh. Com a energia elétrica a custar por estes dias 52€/MWh no mercado grossista ibérico, os leilões afundaram para menos de metade os preços da eletricidade.

“Batemos um recorde mundial. Há um projeto que se propõe produzir e vender eletricidade a 14,63 euros por MWh, com remuneração garantida”, disse o governante. Das 13 empresas com lotes arrematados, a espanhola Iberdrola foi a grande vencedora – sete num total de 22 (sendo que dois dos 24 lotes ficaram vazios); a francesa Akuo acabou por ficar com a maior potência atribuída (370 MW num total de 1150 MW).

O ministro não tem dúvidas que os leilões foram um sucesso, mas grandes empresas nacionais como a EDP e a Galp, entre outras, entraram e saíram do leilão de mãos vazias, muito por causa dos preços demasiado baixos. De acordo com a avaliação feita pela EDP Renováveis, “segundo os critérios utilizados mundialmente pela empresa nos mercados em que está presente, os preços finais não permitem uma adequada rentabilização do capital necessário ao investimento”.

Por seu lado, Ricardo Nunes, presidente da ACEMEL – Associação de Comercializadoras de Energia no Mercado Liberalizado sublinhou que ainda é muito cedo para perceber se os leilões vão ter uma redução significativa no preço de energia final paga pelos consumidores. “Existem detalhes que só serão conhecidos em agosto, quando a DGEG divulgar os resultados finais. É preciso perceber os preços finais e a modalidade que ganhou em cada um dos 22 lotes. Além disso, os que vão a mercado terão ainda um acréscimo de preço na componente de energia e, por outro lado, o volume total deste primeiro leilão ainda não é suficientemente grande para ter um impacto enorme no preço ibérico da energia”, defende.

Para o início de 2020 Matos Fernandes já anunciou novos leilões de energia solar e a EDP promete voltar a participar. “As grandes empresas que operam em Portugal vieram todas a leilão mas nenhuma ganhou nenhum lote. Isto deveu-se ao mecanismo de licitação: quem oferece o preço mais barato é quem ganha. No início do próximo ano haverá outro leilão para pelo menos mais 700 MW e estas empresas estarão presentes de novo. Se oferecerem as melhores condições serão as ganhadoras”, rematou o ministro. A EDP Renováveis “aprecia o sistema de leilão de energia solar levado a cabo pelo Estado português. Continuamos disponíveis para investir em Portugal”.

Contactada pelo Dinheiro Vivo, a Galp não quis pronunciar-se sobre o resultados dos leilões e a Iberdrola está ainda à espera que o governo português faça um anúncio oficial para fazer chegar uma reação da sede da empresa, em Madrid

Quando às duas modalidades diferentes em que se podia participar neste leilão, a grande preferida pelos participantes foi a que garante uma remuneração garantida. De um total de 1150 MW, 862 MW foram adjudicados em regime de remuneração garantida e 288 em regime geral de mercado, especificou Matos Fernandes.

Apesar dos preços recorde no regime garantido, o ministro diz no entanto que a sua maior surpresa foi na modalidade de regime geral. “É como vender a eletricidade a preço de mercado mas por cada MW vendido há uma contribuição paga ao sistema. E aqui temos contribuições para o sistema numa média entre 21,35 euros/MWh, com um mínimo de 5,1 euros e um máximo de 26,75 euros. São números muito além das expectativas iniciais que tínhamos”.

De acordo com Matos Fernandes, foram adjudicados 22 dos 24 lotes a leilão. “E conseguimos preços excelentes. A procura nos leilões foi nove vezes superior à oferta e os lotes foram adjudicados a 13 empresas diferentes. Esta diferença reverte inteiramente para o sistema e para os consumidores. Há uma vantagem quádrupla: ganha o país, porque vai produzir eletricidade utilizando recursos endógenos e dispensando a importação de gás e carvão; ganham os consumidores que vão ter eletricidade mais barata; o país descarboniza-se de forma mais intensa, porque toda esta produção de eletricidade não provoca emissões com efeito de estufa; e confirma-se que produzir eletricidade a partir de fontes renováveis é muito mais barato do que com fontes fósseis”.

As boas notícias dos leilões de energia solar em Portugal já chegaram a Espanha, com o El Economista a dar conta que Espanha prevê multiplicar por sete a sua potência fotovoltaica, e passar dos atuais 4700 MW para 36900 MW, sendo que muitas das futuras centrais serão criadas com leilões “cujos resultados não deverão estar muito longe dos alcançados em Portugal”,

“É o mercado a funcionar da forma mais transparente possível. O fundamental é que tivemos um muito bom leilão: transparente, com duas modalidades diferentes, e batemos recorde do mundo no regime garantido. É um leilão pensado para o interesse público e muito pensado numa estrutura estável e de grande compromisso do país com a descarbonização e querer chegar a 2030 com 80% da eletricidade a vir de fontes renováveis”, conclui Matos Fernandes.

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