poder de compra

Preços dos serviços básicos subiram 25% desde 2011. Salários nem 2%

Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens
Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

Preços da água, luz, saneamento básico, recolha do lixo ou transportes dispararam mais de 25%. Com a entrada de 2016, haverá mais aumentos

A partir de 2011 Portugal viveu um período marcado pela entrada da troika e o avanço de uma austeridade sem paralelo. A culpa do resgate foi atribuída “aos portugueses” que teriam “vivido acima das possibilidades”. Agora, volvidos mais de quatro anos, há uma mudança evidente: hoje é mais difícil viver em Portugal sem ser acima das possibilidades. Perceber esta afirmação obriga a olhar além da inflação geral e a entrar na evolução específica dos preços de certos bens, sobretudo os incontornáveis, comparando-os depois com a evolução registada nos rendimentos. (Ver texto abaixo)

Os valores globais para a evolução anual dos preços apontam para uma relativa contenção nos preços, com a inflação a variar entre a taxa de 3,7%, de 2011 e os -0,3% de 2014 – em 2015, e até novembro, a inflação rondava os 0,6%. Mas estes valores anuais referem-se a um cálculo que engloba várias classes e subclasses de produtos e serviços, cálculo que acaba por ocultar o jogo de “compensação” entre os bens que registam fortes subidas – os essenciais – e os que sofreram fortes descidas.

PostScript variação

Serviços básicos
Entre aumentos de impostos, taxas e atualizações tarifárias, a austeridade incidiu com maior força nos bens essenciais e ligados à habitação, precisamente aqueles de que é mais difícil – ou impossível – fugir.
Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), desde 1 de janeiro de 2011 e o final de novembro de 2015, os residentes em Portugal viram a fatura associada ao saneamento básico disparar 53% e a relativa aos serviços de “recolha de lixo” a subir perto de 30%. Já a conta da luz, entre atualizações anuais e a passagem do IVA da eletricidade para os 23%, acumulou uma inflação de 35% de 2011 a 2015.

Além do aumento do preço da luz, sublinhe-se a velocidade com que aconteceu: de janeiro de 2011 a janeiro de 2012, a eletricidade subiu mais de 20%, acumulando nos anos seguintes atualizações anuais de 3% ou superiores. Neste capítulo, há ainda a destacar a evolução do preço do gás (13%) e da água (7,7%) verificada entre 2011 e 2015.

Já do outro lado da balança, e enquanto tinham de enfrentar estes aumentos, os trabalhadores viram os salários líquidos em Portugal subir 1,59%, ou mais 13 euros entre o início de 2011 (altura em que o salário médio era de 816 euros) e setembro de 2015 (salário de 829 euros). É nesta diferença entre evolução de preços e salários que se encontra a razão para a subida da pobreza em Portugal.

Transportes
À imagem do que aconteceu na energia, os transportes públicos foram outro dos setores atacados pela austeridade desde o primeiro dia. Sérgio Monteiro, hoje responsável pela venda do Novo Banco, deu a cara por estes aumentos: em agosto de 2011 as tarifas subiram em média 15%, depois de em janeiro do mesmo ano já terem aumentado 4,5%. Em 2012 voltaram a subir 5%.

Segundo o INE, desde o início de 2011 e novembro de 2015, andar de comboio ficou 27% mais caro, e de autocarro 17% mais dispendioso. O cenário também tem sido agressivo para quem usa títulos combinados, cujos preços subiram 26% em cinco anos. Ou seja, os preços dos meios de transporte mais utilizados e, para muitos indispensáveis, dispararam. Em sentido oposto, o transporte aéreo: sendo um sector de forte concorrência e dado o reforço das low-cost em Portugal, os preços acabaram por recuar 19,7% desde 2011.

Educação, comida e futuro
Portugal é um dos raros países europeus que cobram pela frequência universitária, detalhe que, nestes anos de crise, tem impulsionado as desistências.

Porto, Coimbra, Minho e Algarve contabilizavam duas mil desistências por motivos financeiros a meio do ano letivo de 2013–14.

Mesmo assim, as propinas também aumentaram nos últimos anos: segundo o INE, frequentar o ensino superior ficou 6,93% mais caro desde o início de 2011, evolução que supera a registada na inflação contabilizada no nível de ensino pré-primário e primário (5%) e secundário (2,6%). A saúde viu os preços crescerem 1,72% nos últimos anos, com destaque para o salto expressivo de 16% no custo dos serviços hospitalares.

Destaque final para a “alimentação” que, tanto devido à concorrência entre a grande distribuição como graças a uma maior procura - menos idas a restaurantes -, apresenta uma inflação acumulada de 1,62% desde 2011, com bens como o pão (0,8%), a carne (-3,6%) mas também o peixe, o leite ou o queijo (-2,3%) a tornarem-se mais acessíveis para as famílias.

Apesar de todos estes aumentos, certo é que nem a “saída limpa” nem a eleição de um governo de esquerda levaram ao seu desagravamento. Antes pelo contrário:

a luz, que subiu 35% desde 2011, vai subir mais 2,5% já em janeiro de 2016.

Já em termos políticos, o governo socialista deu antes prioridade à redução do IVA na restauração, mantendo a cobrança de 23% de IVA na eletricidade, um bem essencial que, a pouco e pouco, se foi tornando um luxo.

Salários a cair com preços a disparar. Ou como a pobreza cresce

Os aumentos significativos registados nos preços de bens e serviços básicos ou obrigatórios (texto principal) vieram numa fase em que também o emprego, os salários e os apoios sociais foram penalizados. É nesta conjugação de fatores que se encontra a razão para o aumento da população em risco de pobreza nos anos recentes – pobreza que até será mais alta do que a mostrada pelos números.

No que toca aos salários, e segundo o INE, em março de 2011 o rendimento médio mensal líquido de um trabalhador em Portugal era de 816 euros. Desde então, mostram os dados mais recentes do instituto,

o rendimento médio mensal cresceu 1,59%, mais 13 euros, para 829 euros líquidos no terceiro trimestre deste ano – subida que em algumas famílias nem terá compensado o aumento da conta da luz.

Mas nem todos tiveram a “sorte” de ver os salários subir 1,6% desde 2011.

20% ganha o SMN
Muitos dos trabalhadores que a austeridade empurrou para o desemprego – que chegou aos 18% – conseguiram na segunda metade do reinado da troika regressar ao mercado do trabalho – isto descontando já as centenas de milhares que emigraram. Mas este regresso ao ativo teve um preço, normalmente expresso na diferença no salário que se ganhava e o que se foi auferir. O aumento do total de trabalhadores a receber o salário mínimo nacional (SMN) terá sido muito alimentado por este tipo de situações.

Em outubro de 2010, data dos dados mais próximos do início de 2011, 10,5% dos trabalhadores por conta de outrem na economia portuguesa recebia o SMN, então já nos 485 euros.

Desde então este total não parou de aumentar: em outubro de 2012 já eram 12,9% e em abril de 2014 atingiu os 13,2%. Com a revisão do valor do salário mínimo, em outubro de 2014, para 505 euros brutos, o total de trabalhadores a receber o mínimo saltou para um quinto (19,6%) dos profissionais por conta de outrem.

Também os cortes promovidos nos apoios sociais nos últimos anos fizeram que os próprios desempregados ficassem mais desprotegidos face ao aumento do custo de vida. Dados da Segurança Social mostram que no início de 2011 quem perdia o emprego tinha direito a um subsídio médio de 492 euros mensais, valor então acima do salário mínimo. Agora o subsídio médio é de 450 euros.

Pobreza oculta
Todo este jogo entre inflação, desemprego, salários congelados ou em queda, subida do total de trabalhadores a receber SMN e subsídios cortados, levou a que os 22,4% de residentes em risco de pobreza ou exclusão social contabilizados em 2011 subissem até aos 26,7% em 2015, segundo o INE.

É no entanto duvidoso que estes números mostrem a real dimensão da miséria em Portugal: o risco de pobreza responde a uma métrica europeia que situa naquela situação todos aqueles com rendimentos equivalentes a “60% da mediana do rendimento” do país.

Ora como os salários em Portugal mal mexeram desde 2011, o limiar oficial a partir do qual se está em risco de pobreza também mal mexeu: subiu 1,3% de 2011 a 2015.

Mas a luz ficou 35% mais cara, o gás 13%, os serviços hospitalares 16% e os transportes mais de 20%. Tudo bens que influenciam o custo de vida mas que acabam por não ser tidos em conta na avaliação do risco de pobreza.

 

 

 

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