Previsões pessimistas sobre impacto do Brexit nos mercados financeiros não se concretizam

Efeitos sobre os mercados financeiros não se concretizaram, de acordo com analistas

As previsões mais pessimistas sobre as consequências do brexit nos mercados financeiros não se têm confirmado, estando inclusive a libra em alta, mas também há efeitos que estarão camuflados pela crise pandémica, segundo analistas contactados pela Lusa.

Antes de a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) se efetivar, muito se falou das suas consequências, incluindo para os mercados financeiros europeus. Contudo, os augúrios sobre o impacto nos mercados financeiros e no valor dos ativos britânicos não se concretizaram para já e a libra tem mesmo estado em alta, com o relançar da economia do Reino Unido a atrair os investidores.

"Aquelas previsões mais pessimistas, de descalabro, até agora não se têm confirmado", disse o analista sénior da ActivTrades Ricardo Evangelista.

Segundo explicou, a moeda britânica, que tinha sido muito pressionada aquando do referendo que ditou a saída do Reino Unido da UE e durante as negociações do acordo de saída pela incerteza política, tem estado a valorizar-se e é mesmo a moeda do G7 com melhor desempenho este ano.

"A gestão do processo de vacinação no Reino Unido colocou o país na pole position [na linha da frente] para a recuperação da economia e os investidores reagiram suportando os ativos económicos, sobretudo a libra", explicou.

Também o analista da XTB Henrique Tomé recordou que a libra caiu de forma estrondosa aquando do referendo e houve muita volatilidade no seu valor ao longo das negociações entre Reino Unido e a UE, pelo que após a efetivação do brexit "esperava-se que a libra pudesse reagir de forma semelhante, o que acabou por não acontecer", o que atribui à resiliência da economia do Reino Unido.

"O Reino Unido sempre teve uma economia muito forte e de certa maneira mais independente do que restantes Estados-membros, os períodos de elevada volatilidade refletiram o medo e incerteza dos investidores em torno do desfecho", afirmou, mas "a transição tem sido suave".

O chief investment strategist do banco BIG, João Lampreia, acrescentou que já em dezembro o brexit era apontado como dos últimos fatores de risco, face a um processo tão arrastado no tempo e secundarizado por questões mais prementes como a crise pandémica.

"Com todo este imbróglio durante muito tempo os investidores foram acomodando os riscos mais graves e teve um impacto benigno", afirmou.

Isso é visível, demonstrou, na força da libra e na subida controlada das taxas de juro da dívida do Reino Unido a 10 anos (aliás, um movimento de subida que acompanha o da Alemanha na mesma proporção), o que significa que os investidores não penalizam de forma gravosa o risco de crédito de um Reino Unido isolado.

Quanto ao facto de o índice britânico FTSE estar a subir menos do que o índice europeu Stoxx 600, os analistas contactados atribuem à força da libra pois tem como efeito de penalizar o mercado de ações.

Os analistas concordam ainda que efeitos negativos estarão também a ser "camuflados pela crise pandémica".

Por exemplo, disse Ricardo Evangelista, é difícil dizer que parte do desemprego se deve à crise pandémica e que parte se deve ao brexit.

Este analista considera "significativo" o movimento de empresas que mudam atividade ou parte das atividades para fora do Reino Unido, para poderem operar após o brexit, referindo que a própria ActivTrades abriu uma empresa subsidiária no Luxemburgo para continuar.

Esse movimento vai, no conjunto, refletir-se na importância de Londres enquanto centro financeiro e também em outros setores no Reino Unido, afirmou.

João Lampreia crê que Londres perder importância como hub financeiro não é tão visível no imediato, mas que acontecerá ao longo dos próximos anos e estima que seja Amesterdão a concentrar mais atividades financeiras.

"A fotografia do ponto de vista das condições dos mercados financeiros como um todo tem um impacto muito reduzido, as consequências para o Reino Unido são mais negativas, vê-se no financial hub", sintetizou João Lampreia, acrescentando o impacto no comércio (exportações e importações).

Um relatório do think tank New Financial, noticiado em abril pela Bloomberg, indica que mais de 440 empresas de serviços financeiros transferiram parte ou a totalidade das suas atividades para fora do Reino Unido (Frankfurt, Paris, Amsterdão, Dublin, mas também Ásia) devido ao brexit, incluindo 7400 postos de trabalho e cerca de 1,2 biliões de ativos. O relatório considera ainda que isto é apenas o começo.

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