centenário da I Guerra Mundial

Primeira Guerra: Portugal há 100 anos

8 de junho de 1914 nas romarias do Norte
8 de junho de 1914 nas romarias do Norte

Melhores salários. Redução das horas de trabalho semanal. Descanso ao domingo. Ferroviários lisboetas, camponeses alentejanos, operários têxteis minhotos.

Do outro lado, ciosos dos seus uniformes a estrear, estrelados, a recém-criada Guarda Nacional Republicana, que alguns entendiam ser antes o braço armado dos latifundiários. As greves sucedem-se. Graves? Sim, paira em Portugal um clima de repressão, escala a cada comboio descarrilado, a cada linha de telégrafo sabotada. Centenas de sindicalistas radicais são presos e enviados ora para fortes militares ora para barcos fundeados no Tejo.

Contudo, nada comparável à explosiva chicana política: republicanos e monárquicos teimam num jogo perigoso, quase autofágico: há quem tema inclusive uma anexação espanhola, chamam-lhe “restauracionismo”, um regresso ao pré-1640, esta República implantada três anos e picos antes está longe de convencer todos. As perseguições ao clero desajudam. As finanças da nação ainda menos: quase ninguém lá fora acredita na solvência deste rectângulo tão periférico quão moribundo, com 75 por cento de analfabetos, com bancos a falir. Ainda em Dezembro, vejam-se os casos do Banco Lusitano e do Banco Mercantil de Lisboa.

Pior: a crise até pode ser internacional, mas em Lisboa não há Executivo que se aguente. O quinto governo republicano lá consegue a proeza de 13 meses, de 9 de Janeiro a 9 de Fevereiro, dia em que Afonso Costa deixa de ser “Presidente do Ministério”.

Sucede-lhe Bernardino Machado, outro maçom do Partido Democrático, mas isso são detalhes que só atrasam a viagem ao Portugal mais profundo: apenas um quinto dos portugueses habita nas cidades, somos rurais e agrários, duas vezes menos urbanos do que é a média na outra Europa, a dita civilizada. A verdadeira industrialização está por fazer.

Com escasso conhecimento dos nativos, mas desde 1908 que também Lenine vai escrevendo sobre a condição de protectorado britânico de facto em que Portugal se transformara.

Os cus de Judas

Viver no fim da linha, onde Judas perdeu as botas, tem as suas vantagens, claro. Uma delas é o alheamento do insano frenesim que medra lá pelo Norte continental. Parece que há um certo imperador, na Alemanha chamam-lhe Kaiser, que quer disputar a hegemonia ao nosso mal-amado seguro de vida britânico. Ou inglês, como quiserem. Celebremos o Tratado de Windsor de 1386, sempiterna garantia de que Espanha não nos põe a pata em cima (e logo agora que nuestros hermanos acabaram de perder Cuba e as Filipinas para os EUA), mas como digerir o ultrajante ultimato britânico de 1890 que nos chutou para canto no concerto das nações?

Mais: parece que os ingleses agora também nos cobiçam as colónias, em especial Angola. Tão ou mais do que o tal Kaiser megalómano, com quem consta Londres ter negociações secretas, quiçá mesmo um tratado assinado para a partição das nossas possessões africanas. Enfim, haja ao menos um tópico que continua a unir a República: o que fazer para não perder este património lusoquinhentista que, malgrado todo o alarde épico, permanece escassamente colonizado?

A distância, sempre a distância. Do Ultramar, sim, mas sobretudo dessa Europa. Modernistas como Mário de Sá Carneiro, Amadeo de Sousa Cardoso, Fernando Pessoa ou Santa-Rita ainda estão por emergir. Falta pouco para serem conhecidos como Geração d”Orpheu, mas este final de Inverno de 1914 é mais do mesmo. Uma modorrra. A do costume. A prioridade é a reconciliação nacional, não nos vamos matar todos uns aos outros. Valha o humor possível, na melhor tradição de Rafael Bordalo Pinheiro, que Deus tem. Basta de greves fatídicas e atentados à bomba.

Toda a complexidade internacional, e nem entremos no complexo jogo de alianças que se vão formando na Velha Europa, resume-se a uma caricatura cá dentro: o Fritz teutónico, igualmente apodado de Boche, “um homem muito feio de barbas eriçadas e de grandes óculos para fingir de sábio”; o rechonchudo John Bull, nosso velho aliado insular, que lá nos vai agrilhoando mas quiçá benignamente; o Zé Povinho, ou João Ninguém, cuja ignorância e analfabetismo são directamente proporcionais à bondade do seu coração.

O fado brasileiro

Aturdidos com a algaraviada interna, paranóicos com a perda das colónias africanas, sempre a um passo da bancarrota, conscientes do derrotismo queiroziano em curso, um novo desporto emerge neste Extremo Ocidente. Ou moda, chamemos-lhe antes assim: nesta luta constante pela sobrevivência, nada mais maravilhoso do que fazer as malas e embarcar rumo à cidade maravilhosa. Ou para o interior de São Paulo, onde as roças de café florescem. Ou para Manaus, na sua febre da borracha que até lhe permitiu construir uma ópera numa clareira da Amazónia.

A tendência começara décadas antes, certo. Não obstante, é neste início do século XX que as massas elegem o Brasil como o seu definitivo El Dorado, o destino quase exclusivo da emigração portuguesa. Trata-se de um fenómeno surpreende pela escala, qual fado lusitano. É o destino de quase noventa por cento da saudade portuguesa. Argentina, Estados Unidos e Havai surgem na lista, mas muitíssimos furos atrás. Só numa década, entre 1905 e 1915, e num país com uns seis milhões de habitantes, a cifra eleva-se a quase meio milhão de almas transatlanticizadas.

Descrentes neste Portugal iníquo e oligárquico, os mais rústicos tecem uma poderosa rede informal. Parentes puxam parentes, amigos convidam amigos, vizinhos informam vizinhos, numa hemorragia crescente que chega a provocar desdém na elite republicana e monárquica. Da mesma forma, a figura do Brasileiro, esse novo-rico, infesta a literatura pátria. Onde está o sentimento patriótico? Como pode esta gentinha acreditar nas promessas douradas de engajadores sem escrúpulos?

Algumas remessas chegavam do outro lado do oceano, aliviavam algum martírio diário, embora nada do outro mundo. Ser padeiro, carpinteiro ou pedreiro no Brasil era muitíssimo mais vantajoso. Com alguma sorte, o salário poderia triplicar. Nota-se crescente preocupação na elite, quiçá cristalize aqui o lusopreconceito em relação aos seus emigrantes: minguavam mancebos para defender Portugal, a ameaça era agora igualmente demográfica. Porque os recrutas potenciais entre os 14 e os 21 anos tinham de pagar uma pesada fiança antes de zarparem, algumas famílias antecipavam essa partida.

O homem doente da Europa

Há na Europa, e nos seus limites, uma chave difusa que estava longe das prioridades noticiosas portuguesas. A Guerra da Crimeia, nos anos 50 do ido século, fora tópico distante. Envolvera já ferrovias, telégrafos e enfermagem pioneira no esforço bélico, mas África era o nosso desígnio. Os paxás turcos estavam em perda, sim, disso sabiámos, é a vigança de Alcácer Quibir, mas os combates foram travados demasiado a Oriente. Dos Balcãs para lá.

Tudo se inicia com a derrocada dos otomanos, humilhados pela Grande Rússia, deslumbrada com a sua pujança expansionista, mas por sua vez derrotada no confronto contra as potências ocidentais. França, coligada com o nosso querido John Bull, afundaram tudo o que flutuava ao largo de Sebastopol. Nunca aquele mar fora tão negro.

Há uma certa Europa, celebrada em Viena um século antes, ainda Napoleão respirava, que se vai desmoronando a pouco e pouco. É um gostinho a sangue, a pólvora seca, a trincheira lamacenta, a ferro no céu da boca, relativizado porém com o regicídio de 1908. Com esses carbonários sanguinolentos. Com tanto anarquista português que anda por aí à solta.

Exemplo? O ataque à bomba no último Dia de Camões, 10 de Junho de 1913, enquanto subia do Terreiro do Paço ao Chiado. O engenho deflagra em plena Rua do Carmo e atinge os inocentes membros da Banda União Artística de Castelo de Vide, causa da morte do músico Vladimiro da Conceição Pinto, na amputação da perna do seu irmão e ferimentos em muitos outros. O autor do atentado morre, para além de um vendedor de hortaliças.

O Diabo anda desvairado, mas no exterior, para lá dos Pirenéus, ou dos Dardanelos, a procissão adquire contornos ainda mais demoníacos. A revolução iniciada em 1908 pelo movimento dos Jovens Turcos grita vitória. Traiçoeira. Em Janeiro de 1913 são três os paxás que tomam conta do império otomano, há muito apodado, e com razão, de “O homem doente da Europa”.

As guerras perdidas nos Balcãs, em 1912 e 1913, aceleram não só esta renovação em Constantinopla como um sentimento de independência entre os eslavos do Sul. Cresce. Alastra. Explode. A Jugoslávia é agora ou nunca.

A Grande Sérvia

Gavrilo Princip tem 20 anos mal cumpridos. Na manhã de 28 de Junho de 1914, meros cinco dias após Bernardino Machado ser reempossado como chefe do Executivo em Lisboa, Gavrilo actua com mais cinco cúmplices. Quase todos sérvios-bósnios como ele. Má sina para o Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do imperador austro-húngaro, e sua esposa Sofia, assassinados à queima-roupa numa pequena ponte de Sarajevo.

Acto contínuo, a Bósnia assume-se como o epicentro daquele que viria a ser, mesmo que ninguém o imaginasse, o prelúdio de uma nova ordem mundial.

Um mês depois, Áustria-Hungria declaram guerra à Sérvia. A Alemanha declara guerra à Rússia. Depois à França, enquanto invade Bélgica e Luxemburgo. A Grã-Bretanha e todas as suas possessões ultramarinas declaram guerra ao Kaiser. E por aí fora. Em Lisboa, uma multidão alarmada com as notícias corre para o Banco de Portugal, e não só, pressente a merda, quer à viva força trocar as suas fiduciárias notas de escudo, que dois anos antes substituíra o real (ou os réis), por ouro bem amarelinho. Crise financeira na calha, adivinhava-se.

Ao quarto dia de Agosto deste pouco ou nada santíssimo ano de 1914, inicia-se a Grande Guerra. A primeira mundial. Estende-se da neogermanizada Nova-Guiné ao camoniano Cabo da Roca, passando pelo Cairo ou Cunene. “Cunene”? Exacto, as tropas alemãs infiltram-se no Sul de Angola e nem mesmo um lusogermanófilo, para mais embaixador em Berlim como Sidónio Pais o era, tem margem para branquear tamanho abuso. A esboçada neutralidade portuguesa revelar-se-á impossível. Somos sugados pelo conflito.

Mas a isso chegaremos num segundo e posterior acto. Estacionemos em 1914. O Verão é quente e acabamos de entrar na primeira era da desglobalização. As trocas comerciais decrescem subitamente. Os mercados financeiros encolhem-se. O proteccionismo dispara. O vírus nacionalista alastra. Dissemina-se um sentimento de injustiça social. E ninguém consegue prever o futuro próximo.

Acredite-se ou não, e nem Putin nem a Crimeia abriam então os noticiários, este foi o tema no Fórum Económico Mundial de Davos, há menos de dois meses.

A tensão entre Pequim e Tóquio no Mar Oriental da China como a Bósnia do século XXI? Serão as ambições globais desta China-ora-capitalista-ora-comunista idênticas às da Alemanha do Kaiser Guilherme II? Nouriel Roubini, também conhecido por Dr. Desgraça, o homem que antecipou a bolha do subprime que conduziu à recessão global, acha que talvez. Ousou comparar 2014 a 1914. O apocalipse ainda parece longe, mas o economista norte-americano está cada vez menos isolado.

Uma segunda desglobalização de novo à vista? Outro estoiro, como se sem anos depois?

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Lisboa Fotografia: Rodrigo Cabrita / Global Imagens

Medidas do Banco de Portugal para travar riscos no imobiliário são “adequadas”

Lisboa Fotografia: Rodrigo Cabrita / Global Imagens

Medidas do Banco de Portugal para travar riscos no imobiliário são “adequadas”

António Mexia, CEO da EDP. (Fotografia: Sara Matos / Global Imagens)

EDP assina compromisso para limitar aquecimento global a 1,5°C

Outros conteúdos GMG
Primeira Guerra: Portugal há 100 anos