Aeronaútica

Procuram-se especialistas para indústria em alto voo

(TIAGO PETINGA/LUSA)
(TIAGO PETINGA/LUSA)

Cluster aeronáutico cresce ao ritmo de 10% ao ano. Há pequenas e médias empresas e gigantes do espaço. Só falta mão-de-obra.

Mais de metade dos satélites geoestacionários colocados em órbita nos últimos anos têm dedo português. E o Instituto da Soldadura e Qualidade (ISQ) tem grande responsabilidade nisso, sobretudo graças ao contrato com o Porto Espacial de Kourou, na Guiana Francesa – o maior porto espacial do mundo -, que o presidente do ISQ, Pedro Matias, diz ser o salto mais emblemático do grupo no mundo da aeronáutica e indústria aeroespacial.

Ilustração: Vítor Higgs/Animação: Nuno Santos

Única empresa nacional em permanência naquela ponte para o espaço, é ali que o ISQ assegura “o controlo de qualidade da assemblagem de componentes como satélites e foguetões nos sistemas de lançamento”. A verdade é que o alcance das empresas portuguesas que operam na área da engenharia, manutenção, produção e até formação em aeronáutica já é de nível planetário. Nesta área, 90% do trabalho feito em Portugal é para exportação e para clientes cada vez maiores e mais diversificados.
Na AVP de Sacavém, por exemplo, 95% do volume de negócios é conseguido com manutenção para o estrangeiro, para clientes de territórios tão exóticos quanto a Força Aérea da Coreia do Sul ou o Paquistão. “A internet é uma ferramenta fabulosa”, assume Bruno Morais, um dos donos da empresa, que conta com uma equipa de 12 pessoas, responsáveis por cerca de 200 reparações anuais.

Não é só o espaço que está em causa quando se fala em indústria AED – além da área espacial, há que contar com a aeronáutica e a defesa, chegando a um valor total que ronda os 1,4% do PIB. O setor quer ver este número duplicar nos próximos três anos. E para isso conta com 68 companhias a produzir em áreas tão distintas como a empresa responsável pela antena de comunicação que vai permitir ao satélite de exploração de Júpiter comunicar com a Terra e a que produz componentes para as gigantes Boeing ou Airbus. Estando em causa um volume de negócios de 1,72 mil milhões de euros (em 2017), há ainda nove instituições e oito universidades envolvidas neste setor.

“Está a fazer-se novo levantamento relativo a 2019 e a expectativa é que venhamos a observar uma subida significativa, fruto do crescimento e dinamismo que se têm verificado nestes últimos anos nos três setores”, destaca João Neves, secretário de Estado da Economia, em declarações ao Dinheiro Vivo. A verdade é que “Portugal já não é um desconhecido neste setor”, realça o chief commercial officer do grupo Sevenair, Alexandre Alves, destacando o “ciclo de crescimento atual do setor, o mais duradouro e transversal de sempre”.

“Existem excelentes indicadores de investimento do setor”, concorda José Neves, presidente do cluster AED, que sublinha o contributo das maiores empresas, como a TAP Manutenção e Engenharia, a Embraer e a OGMA, mas lembra que há muitas mais. “Felizmente é cada vez mais difícil fazer justiça a todos os atores nacionais com atividade nestes setores. Estão a crescer em número, sucesso e expressão internacional.”

A experiência de Hugo Hilário, presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor, vai nesse mesmo sentido: “Estamos a crescer 10% ao ano. Somos conhecidos por ter ótimas universidades, entidades de qualificação, desde técnicos de manutenção a engenheiros mecânicos e eletrotécnicos, que podem trabalhar em qualquer empresa e, obviamente, se os monstros do setor estiverem perto temos mais visibilidade.”

Naquela cidade alentejana, onde nos próximos dias arranca mais uma edição da Air Summit – para pensar potencialidades e desafios do setor -, está a nascer um novo chamariz para piscar o olho às gigantes. A câmara vai investir 4 milhões na ampliação do centro de negócios com a construção de três hangares, um deles com capacidade para manutenção de aviões de grande porte. Objetivo: seduzir empresas como Boeing ou Airbus.

As gigantes, claro, já fazem o seu papel. “Temos assistido à abertura de grandes e pequenas empresas aqui muito à boleia de Embraer, Airbus, Mecachrome e Lauak”, diz Alexandre Alves. Só a Airbus confirmou ao Dinheiro Vivo que tem 31 fornecedores nacionais de componentes – nove na aviação comercial, 20 na defesa e no espaço e três de helicópteros. “A atração de grandes fábricas está a arrastar competências”, destaca ainda Ricardo Patrício cofundador da Active Space, cujo maior cliente é a Airbus.

“A aeronáutica e o aeroespacial podem vir a ser o que os moldes, os sapatos, os carros e os componentes foram nos anos 1990. Já temos competências, agora há que subir o valor de serviços e exportações”, realça Pedro Matias, lembrando que “a criação da Agência Espacial Portuguesa é uma excelente notícia para o país”.

Mais talento
Em plena expansão, a maior dificuldade é mesmo ter mão-de-obra que acompanhe o crescimento. “Os recursos humanos são um problema europeu. Faltam pilotos, engenheiros e, na Europa, sobretudo técnicos. Essa escassez é tão grande que nós, que temos mais de 300 alunos em formação, no fim do ano que termina já não conseguimos contratá-los”, diz o administrador da Sevenair. Razão? As empresas portuguesas não conseguem acompanhar as ofertas salariais e concorrer com gigantes que recrutam em Portugal, como a Airbus ou a Agência Espacial Europeia (ESA).

Foi, precisamente, na ESA que Ricardo Patrício e Bruno Carvalho se cruzaram pela primeira vez. Da amizade nasceu a semente que viria, em 2004, a dar vida à Active Space, tecnológica aeroespacial que opera para o mundo a partir de Coimbra. “A escassez de mão-de-obra é um problema real que enfrentamos desde o início. Não há muita gente formada, muito menos com experiência”, diz Patrício, que aponta a “contratação de engenheiros de outras áreas, dando depois formação” específica como solução.

O AED emprega 18 500 pessoas em Portugal e o setor estima que haja 14 743 diplomados em engenharia. A indústria aponta a necessidade de formar outros dois mil técnicos qualificados e 200 engenheiros nos próximos três anos para dar resposta às necessidades – o tema vai ao palco da Air Summit a partir de quinta-feira em Ponte de Sor. Só esta cidade já emprega mais de 300 na indústria. “Em 2010-2011 tínhamos mais de 25% de desemprego”, recorda o autarca Hugo Hilário, que estima o nascimento de “outros tantos postos indiretos” fruto da “enorme quantidade de serviços que abriram ou reabriram, de hotéis a lavandarias”, para responder ao tecido empresarial que se rejuvenesceu e se profissionalizou com as 12 empresas a operar nas imediações do aeródromo.

Made in Portugal
Num universo em que as grandes empresas jogam as cartas, o setor reclama ainda a criação de um plano estratégico que envolva negócios e governo e permita ganhar escala face a concorrentes que por vezes estão tão perto quanto Espanha. “É preciso um desígnio nacional”, alerta Ricardo Patrício, lembrando o caminho feito por Espanha, com duas décadas de avanço. “O cluster AED tem feito um caminho importante mas não chega. Há boa vontade, mas é importante definir uma estratégia”, reforça Alexandre Alves, lembrando que “é importante aproximar o regulador dos operadores” e reduzir a carga burocrática que ainda penaliza.

O executivo confirma que há uma estratégia de desenvolvimento dos clusters. “O trabalho em torno dos pactos setoriais para a competitividade e internacionalização tem tido como base a construção de uma estratégia única para os diferentes setores, com realização de reuniões entre representantes das entidades gestoras dos clusters”, diz João Neves. O secretário de Estado realça que, além da definição de linhas orientadoras para os setores de valor acrescentado, está a ser feita uma aposta na diversificação dos instrumentos de apoio por parte do Estado e na aproximação às entidades públicas. Há ainda uma aposta em “programas de formação específica e direcionada às necessidades identificadas pelos setores em diferentes áreas (parceria com o IEFP)”.

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