Habitação

Procura-se quarto para estudante a bom preço e em zona central

(Ilustração Mónica Monteiro)
(Ilustração Mónica Monteiro)

Casas sem sala, quartos sem janela, arrendamentos clandestinos e nada de contrato. Num mercado onde a oferta é curta quem tem cama é rei.

Chegaram de almofada e lençol debaixo do braço e fizeram a cama no chão. A 19 de setembro, os alunos da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro invadiram a Praça do Município de Vila Real para dizer que “a Academia não tem tetos”. Na calçada, 600 lençóis brancos chamavam a atenção para igual número de camas que não surgiram. “72% dos alunos da UTAD são deslocados e 45% são bolseiros sociais, pelo que precisam de apoio para alojamento. Aquilo a que assistimos é a uma abertura de camas nas grandes cidades e esquecem o Interior”, lamenta José Pinheiro, presidente da Associação Académica. “Há quatro ou cinco anos, tínhamos preços de alojamento dentro dos 100/125 euros, mas têm galopado e os alunos que entraram na 2.ª fase de acesso já pagam 180/200 euros. Os valores baixos eram um fator de atratividade que se está a perder.”

“Há 23 mil estudantes deslocados e a resposta pública é de apenas 9%”, destaca João Pedro Videira, presidente da Federação Académica do Porto. “São números absolutamente ridículos”, que se agudizam porque “o mercado privado para arrendamento de longa duração está a cair por causa do turismo”. A Universidade do Porto tem a mesma leitura: “O problema que se coloca atualmente nos grandes centros urbanos é que a oferta privada destinada a estudantes – que, nos últimos anos, deu resposta a esta procura – diminuiu consideravelmente com a pressão turística sobre o mercado de arrendamento residencial.”

As pouco mais de mil camas que a Universidade do Porto disponibiliza dão essencialmente resposta às necessidades dos estudantes bolseiros. Quando não há vagas, estes alunos recebem apoio ao arrendamento no mercado privado. Dentro de ano e meio, a Universidade do Porto deverá aumentar a sua oferta em 112 camas, com a requalificação da residência D. Pedro V. Mas este incremento está longe de resolver o problema. Em marcha, está a adaptação de edifícios como a Messe dos Sargentos ou a sede da Lutuosa de Portugal que poderão, ainda neste ano letivo, reforçar a oferta.

Em Cascais, onde a Nova SBE deu nova vida ao mercado estudantil, e a que agora se vão juntar Direito e Medicina, estão em curso 1608 alojamentos. “Trata-se de 430 municipais e 1178 privados”, especifica ao Dinheiro Vivo o presidente da Câmara, Carlos Carreiras, que prevê um investimento autárquico de 18,3 milhões. Carreiras estima que até 2020 possa ter todos os acordos fechados para que o município venha a acolher 20 mil alunos universitários. Se tudo correr como previsto, diz, “será preciso assegurar habitação para pelo menos 20% destes estudantes”. Neste momento há cerca de duas centenas de camas para uma procura ainda baixa.

No país, contam-se 192 residências públicas; 15 965 camas. Os alunos são bem mais: 372 753 inscritos no ensino superior que se dividem entre 308 489 no público e 64 264 no privado (dados 2017/2018). Destes, 42% são “deslocados”.

Não se sabe ao certo quantas camas existem fora da rede pública. Mas a Uniplaces, criada em 2012 para agregar oferta privada, traça o mapa dos preços: no ano passado, arrendar um quarto custava em média 200 euros por mês. Até agosto deste ano, nas grandes áreas urbanas o valor médio pago pelos estudantes para arrendar um quarto era já de 299,16 euros no Porto e 399,56 euros em Lisboa.

Clarisse Costa, estudante na Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto. (José Carmo / Global Imagens)

Clarisse Costa, estudante na Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto.
(José Carmo / Global Imagens)

Sem papéis nem benefícios
400 euros com despesas de luz, água e gás incluídas é precisamente o que Carolina Semedo paga por um quarto em Lisboa – “é dos valores mais baixos que se encontram pela cidade”. Está há cinco anos no mesmo espaço, uma antiga sala transformada pelo senhorio para rentabilizar o T2 em Benfica, que arrenda sem papéis. Com ela têm morado mais duas jovens, também elas presas à vida de estudante pela falta de opções. “Para termos três quartos, não temos sala, mas cada quarto tem a sua casa banho. Eu faço a minha vida no quarto, tenho é a sorte de ser grande”, conta ao Dinheiro Vivo. Deslocada do Algarve, Carolina encontrou aquela casa perto da faculdade no ano de ingresso no ensino superior. “Agora, gostava muito de sair mas apesar da procura constante não existem alternativas a preços para jovens em início de carreira. E não consigo suportar uma casa sozinha. Já começa a ser mais vantajoso comprar, mas vou fazê-los aos 24 anos?”

Com a EMEL a travar o estacionamento gratuito em Lisboa, e sem recibos ou contrato que atestem o local onde mora, Carolina teve de “pedir a um vizinho para usar o seu dístico de morador para poder estacionar”. A informalidade do arrendamento ganha na luta entre a pouca oferta e a muita procura. “Vou fazer o quê? Sei que facilmente encontram alguém para o meu lugar e fico eu com um problema.”

“Este ano foi uma luta para encontrar casa”, desabafa Clarisse Costa, trabalhadora-estudante e finalista da Escola Superior de Educação do Porto. Os senhorios “pedem 200 e 250 euros por quartos pequenos, sem janela, sem quaisquer condições”. Teve de arregaçar as mangas para descobrir um T2 próximo da faculdade e, assegurada a casa, a jovem de Aveiro teve de encontrar quem repartisse com ela o espaço, que os senhorios também transformaram em T3 eliminando a sala. A renda está agora nos 200 euros mensais, a que acrescem despesas com água e luz, que dividem entre todas. Clarisse tem direito a apoio do Estado para custear as despesas de alojamento, mas precisa do recibo da renda. E a este preço ninguém passa papel. “Era uma boa ajuda” que se perde na informalidade.

A 3.ª fase de candidaturas ao Ensino Superior está a decorrer mas, até agora, não se registaram situações dramáticas, como já sucedeu noutros anos, com alunos a dormir em carros ou nas estações de comboio. Já sabem ao que vão. E no Porto isso significa, pelo menos, 300 euros por mês por um quarto. Nos arredores, a tendência mantém-se: Em Rio Tinto, junto a um dos principais polos universitários da Invicta, a renda média atingiu neste ano 339 euros, o valor mais alto entre as zonas mais procuradas pelos estudantes, mostra a Uniplaces. Em São Mamede de Infesta, também na periferia, já se pedem 284 euros.

“Um jovem que chega a uma cidade que não conhece quer é iniciar o seu percurso calmamente e não tem muito espaço para reclamar contratos e recibos”, explica Daniel Azenha, presidente da Associação Académica de Coimbra. Na Cidade Universitária, a informalidade também é uma realidade que o aumento do número de estudantes alimenta. “Há nitidamente um aumento do número de estudantes universitários que não está a ser acompanhado pelo alojamento. Não é só o turismo, mas o turismo também tem o seu papel, claro”, acrescenta Daniel, que aponta preços de 180 a 200 euros/quarto.

Desconfiança afasta
“Tive muita dificuldade em encontrar casa”, conta Francisca Bento, 18 anos, recém-chegada a Lisboa. “Éramos duas pessoas, optámos por fazer a pesquisa através de uma agência tradicional e apesar de a agência dizer que o proprietário estava ao corrente de que se tratava de arrendamento para estudantes acabávamos por perceber que não estava, e não queria.” Estiveram prestes a assinar contrato e, “à última hora, o proprietário disse que não queria estudantes porque recebem amigos e fazem barulho”.

A estrear-se na universidade, a jovem de Torres Vedras não colocou entraves nem ao local nem ao tipo de imóvel e chegou mesmo a ponderar arrendar um quarto para si e para a amiga. Nem assim ficou mais fácil. “Pensei seriamente em desistir do arrendamento e ir e vir todos os dias, porque não encontrávamos nada, e o que havia era a preços muito elevados. Seriam quatro horas em transportes todos os dias, mas se não houvesse alternativa teria de ser.” Acabou por encontrar casa através de conhecidos: 350 euros por mês.

“Podemos estar a falar de valores que comecem a apear os alunos do ensino superior. E isso é preocupante. Se não forem tomadas medidas a curto prazo e se o investimento não vier de forma direta, podemos estar a entrar aqui numa grande problemática. E não podemos usar a pressão demográfica e uma eventual redução dos alunos no ensino superior como desculpa para não fazer investimento”, diz José Pinheiro, da AAUTAD, admitindo já ter recebido “contactos da parte de potenciais investidores privados, que acabam por desistir porque os preços dos terrenos estão muito altos”.

Em Abrantes, e longe da confusão dos centros urbanos, Fátima Saraiva tenta como pode ajudar quem chega. Apesar de já estar afastada da Associação Académica, continua a receber pedidos de ajuda. “Abrantes é uma cidade muito pequena e se há dez anos era possível arrendar um quarto por 120 a 150 euros, agora estão a pedir 180 a 200 euros sem despesas”, conta. Residência pública existe uma “mas não tem capacidade”, por isso a melhor rede de alojamento é o passa-palavra. “A verdade é que o Alojamento Local veio dar um bocadinho cabo do arrendamento a estudantes. Há edifícios a serem recuperados mas acabam por ser para turistas.”

Carolina Almeida, CMO da Uniplaces, assume que os desafios têm que ver com um mercado de arrendamento pouco maduro. “Não pensamos que seja algo que Portugal esteja a fazer mal, estamos apenas anos atrás de várias cidades europeias no que respeita ao mercado de arrendamento a estudantes. Estamos ainda a dar os primeiros passos.

Por exemplo, o Reino Unido, um mercado de referência na Europa, está já bastante consolidado, com uma ampla oferta de alojamento dedicado a estudantes. O mercado de arrendamento a estudantes português é um recente, está em fase de crescimento. Não acreditamos que haja algo de errado, há apenas aspetos que precisam de ser melhorados e desenvolvidos. O aparecimento de residências como Collegiate, Smart Studios, Livensa, entre outros, refletem uma tendência de mudança muito positiva.”

Eduardo Filipe antigo aluno de Audiovisual e Multimédia da Escola Superior Comunicação Social. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Eduardo Filipe antigo aluno de Audiovisual e Multimédia da Escola Superior Comunicação Social.
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Oportunidades de luxo
O surgimento de residências privadas tem ganho expressão ao longo dos últimos anos, com cada vez mais marcas nacionais e internacionais a construir e explorar este nicho do arrendamento. No Porto, nasceu o Livensa Living, edificado junto à Asprela, um dos principais polos universitários da cidade, onde os preços começam nos 100 euros por semana por um estúdio duplo de 18 metros quadrados.

“As residências premium são para os estudantes internacionais, e não estou a referir-me aos de Erasmus, mas àqueles que vêm tirar a licenciatura. Esses alunos têm uma capacidade financeira superior à média das famílias portuguesas e procuram mais conforto”, realça João Pedro Videira, presidente da Federação Académica do Porto. Para além de alojamento, no Livensa Living há serviços como piscina, ginásio, sala de cinema e de jogos, biblioteca, entre outros.

Por sua vez, a portuguesa U-World aguarda o alvará de loteamento da Câmara de Braga para arrancar com a construção da primeira residência universitária U-Loft no país. A próxima paragem é Coimbra e já está a olhar para Aveiro. A U-World tem em pipeline projetos para mais de 1600 camas, num investimento de 67 milhões de euros.

Ricardo Kendall sempre viveu no mundo das empresas e, recentemente, decidiu arriscar. Com uma liquidez de 20 milhões de euros, depois da venda de um grupo de empresas, deu uma volta à vida e aos negócios, e apostou no arrendamento de casas para estudantes. “Há já muitos anos que eu investia em pequenos apartamentos para arrendar a longo prazo. Com a venda do meu grupo de empresas, em 2015, surgiu a ideia de fazer um projeto com dimensão e gerido profissionalmente”, conta o fundador da rede de oficinas Midas, e de cadeias de moda como a Accessorize ou a Mr.Blue.

Nascia assim a Smart Studios, empresa especializada no arrendamento a estudantes, professores e jovens em início de carreira, que quer “ultrapassar a barreira dos 2000 estúdios em Portugal”.
Atualmente, a marca opera em Lisboa e Coimbra. Tem “cerca de 220 estúdios arrendados, 415 em construção e 900 em licenciamento.” Localização e transportes são os grandes critérios para investir e verba parece não faltar. “Prevemos avançar com um total de 125 milhões de euros”, conta ao Dinheiro Vivo.

Os quartos geridos por este grupo têm um preço fixo que inclui as utilidades (água, energia, Internet e limpeza das áreas comuns) e variam de acordo com o espaço. Um quarto modelo standard, nas Laranjeiras, custa 420 euros; na Ajuda o mesmo modelo vai para os 500 euros; enquanto nas Janelas Verdes o preço está nos 600 euros por mês. Em Coimbra, o valor mais baixo começa nos 260 euros mensais. “Temos uma taxa de ocupação próxima dos 90%, no futuro irá baixar porque há 15 mil camas em pipeline em Portugal”, explica Ricardo Kendall, assumindo que atualmente a Smart Studio tem alunos maioritariamente portugueses, depois brasileiros, espanhóis. “Cerca de 50% dos nossos inquilinos não são estudantes, são jovens profissionais”, acrescenta.

Adiar a vida toda
É a vida a atrasar, diz Catarina Semedo, lembrando uma “colega de 28 anos que nem sequer estudou em Lisboa, foi só para trabalhar, e teve de arrendar um quarto por não conseguir suportar uma casa”.
“Já não há uma idade considerada aceitável para se morar com amigos”, diz, por sua vez Eduardo Filipe, de 24 anos. Saiu de Castelo Branco para vir estudar para Lisboa, em 2015, e apesar de “trazer alguma pesquisa feita” acabou por dividir casa com o proprietário de um imóvel em Benfica, graças a um anúncio num centro comercial. “Acabei por não ficar muito tempo. Aliás, não fiquei muito tempo em lado nenhum. Em três anos de faculdade tive três casas”.

Com cada mudança, chegava também uma fatura mais pesada. “No primeiro ano o valor era aceitável, pagava 220 euros com tudo; um ano depois já só consegui a 250 euros e na terceira casa que encontrei, através do portal Idealista ou do OLX, o negócio era diferente: a proposta era arrendar uma casa de três quartos por 650 euros, mas eu é que tinha de encontrar os outros dois inquilinos”.

Aceitou sem saber quem o iria ajudar a suportar a renda. Não diz que lhe calhou a sorte grande, mas encontrou “dois irmãos” com quem ainda partilha casa. A mesma que conseguiu no último ano de faculdade, apesar de o curso entretanto já ter terminado. “Torna-se muito mais fácil partilhar casa quando já o fizemos antes. É claro que ninguém quer ficar assim para sempre, mas os dogmas estão a mudar e é saudável. Sinto-me confortável assim”, explica.

Dados da Uniplaces mostram que 61% dos estudantes que arrendam casa preferem a modalidade do quarto, com apenas 39% a escolherem o arrendamento da casa completa. Com a oferta de arrendamento em Portugal também a escassear, o nicho dos estudantes acaba por ficar para trás e muitos proprietários fecham a porta a esta modalidade.

Aconchego académico
Em 2014, nasceu o programa Aconchego para combater dois problemas: o isolamento dos idosos e a falta de quartos para os jovens. Tem sido um êxito. A iniciativa da Câmara do Porto e da FAP dá atualmente casa a 50 estudantes e tem em lista de espera mais de 120.

As dificuldades dos universitários em encontrar alojamento uniram também FAP e Santa Casa da Misericórdia do Porto, que lançaram o Bairro Académico. A Santa Casa disponibilizou um terreno no campus da Universidade Lusíada para a criação de mil camas até 2021 e a FAP gere o processo. No Bairro Académico, os quartos custarão “no máximo 250 euros”, assegura João Pedro Videira.

Já em fevereiro, o governo lançou um plano para duplicar em dez anos o número de camas para estudantes universitários. Para uma primeira fase, ficou prevista a construção, reabilitação e requalificação de mais de 250 imóveis no país, abrangendo mais de 7500 camas nas áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa (6927 para Lisboa e 1650 para o Porto). Uma oferta e um horizonte temporal que ficam bem longe de resolver o problema.

Factos
– Clarisse Costa é finalista da Escola Superior de Educação do Porto. Aluna deslocada de Aveiro, arrenda um quarto na Invicta, próximo da sua faculdade.

– A renda média de um quarto em Lisboa ronda os 400 euros, mais 7,6% do que custava em 2018. No Porto, o valor médio está nos 300 euros, mais 5,6% do que há um ano.

– Eduardo Filipe é antigo aluno de Audiovisual e Multimédia da Escola Superior de Comunicação Social e continua a morar num quarto em Benfica.

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