Coronavírus

Produção de roupa já está a fechar empresas

César Araújo, presidente da ANIVEC-Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção, prepara recandidatura ao cargo. Fotografia: Igor Martins/Global Imagens
César Araújo, presidente da ANIVEC-Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção, prepara recandidatura ao cargo. Fotografia: Igor Martins/Global Imagens

“Os empresários não se querem endividar para pagar salários”, explica o presidente da ANIVEC, que fala num “colapso” da economia de mercado. O ano “está perdido”, garante a associação do sector.

A indústria do vestuário olha para 2020 como “um ano perdido”. Por toda a Europa, as lojas estão fechadas, os consumidores estão em casa e a compra de roupa é a última das suas preocupações. “Estamos muito mal. O cancelamento de encomendas é uma coisa nunca vista e há casos de clientes a pedir descontos de 50% em alguns produtos que estejam já em produção. Há mercadorias prontas que podem nem chegar ao destino”, diz o presidente da ANIVEC. César Araújo garante mesmo que “há já empresas a fechar portas. Definitivamente”.

“As pessoas estão preocupadas é com os bens de primeira necessidade. Até as vendas online estão a cair, porque ninguém compra nada que não seja vital. Este é um ano perdido. No vestuário, seguramente, as quebras chegarão aos 80 ou 90%. E mesmo depois da pandemia, o arranque vai ser muito lento, porque o mundo vai estar todo endividado”, defende o empresário.

César Araújo fala mesmo num “colapso da economia de mercado” e garante que as empresas estão a fechar portas “porque os empresários não se querem endividar para pagar salários”. Quantos e quais não especifica. “Não sei quantos, mas conheço muita gente. Pessoas conscientes, com sentido de responsabilidade, que preferem pôr um ponto final aqui do que estar a protelar uma situação que vai ser mais gravosa para eles e para os trabalhadores”, afiança.

Lay-off simplificado ainda não chega
Em causa está também o lay-off simplificado que o governo implementou e ao qual já fez quase meia dúzia e emendas para o tornar mais eficaz mas que, no entender da ANIVEC, “vai no caminho certo, mas ainda não é suficiente”. É que “sem faturar, as empresas não têm capacidade para assumir a quota-parte que lhes é pedida nos salários” dos funcionários, explica César Araújo.

“Sem dinheiro para pagar a sua parte, as empresas vão fechar e atirar os trabalhadores para o fundo de desemprego, e isso vai custar ainda mais dinheiro. Isto é um terror, não depende de cada um de nós individualmente. O Estado tem de arranjar mecanismos para injetar quatro ou cinco vezes mais por mês para não deixar cair todo o ecossistema”, sublinha o presidente da ANIVEC. “Eu sei que o dinheiro não é infinito e que tudo isto exige um grande esforço financeiro, mas é preciso que haja solidariedade por parte da Europa ou é o próprio projeto europeu que fica em risco.”

Cortes nos seguros de crédito
Mas não é só o lay-off que preocupa o sector. Os cortes nos seguros de crédito também. “Se uma empresa teve bons resultados em 2019 e os manteve em janeiro e fevereiro, qual é o racional de lhe cortarem o crédito, através de um algoritmo automático? O Estado tem de intervir nisto”, defende César Araújo, que lamenta que a Cosec se esteja a “alhear da sua função de apoio à economia”.

Embora a Comissão Europeia já tenha anunciado a revisão das regras dos seguros de crédito, a ANIVEC espera para perceber exatamente como é que a situação será operacionalizada. “A questão vai colocar-se é no pós-covid-19, no arranque das atividades. Como é que as empresas vão comprar se não tiverem crédito e nós como é que lhes vamos vender? Na crise de 2008, o Estado usou o instrumento Cosec para apoiar a economia nacional, agora tem de o fazer novamente”, argumenta o empresário.

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