Produção nacional de leite “à beira da extinção”

2 mil produtores manifestaram-se na AR
2 mil produtores manifestaram-se na AR

Levantou-se às seis da manhã, tratou das vacas e meteu-se a caminho de Lisboa. Percorreu 340 quilómetros desde Famalicão para defender o seu ganha pão: a produção de leite.

José Luís Araújo, 35 anos, era um dos cerca de 2 mil produtores de leite que ontem se manifestaram frente à Assembleia da República, pedindo a intervenção do governo num sector que dizem “está à beira da extinção”. Na família Araújo a produção de leite já vem do tempo dos bisavós. Há 15, José Luís Araújo começou a trabalhar a exploração dos sogros num “misto de aventura e risco”. Hoje, admite, o risco suplanta em larga medida a aventura. “As receitas são absorvidas pelos custos de produção”, diz. “Tenho uma empresa familiar e eu e a minha mulher vivemos com dois ordenados abaixo do salário mínimo”, afirma.

A marcha dos produtores rumo ao Parlamento começou com bombos e acordeões, mas não o ambiente não era de festa. Por entre palavras de ordem – “Cristas escuta o leite está em luta” e “Onde está o Paulinho das feiras?” – e cartazes – “Grandes superfícies cangalheiros da agricultura” – centenas de produtores refugiavam-se à sombra dos edifícios frente ao Parlamento. O sol impedioso levava o termómetro aos 35 graus centígrados. Outros procuravam pelos cafés das redondezas garrafas de água para matar a sede. E faziam contas à vida, difícil.

António Campos herdou do pai a vacaria. Hoje o produtor de Gondifelas (Famalicão) vê cair entre 30 a 40% a sua faturação, já a margem de lucro “reduziu a 100%”. “Aguento-me porque não pago renda”, admite. As terras são do pai.

“Agora [a margem de lucro] já não é zero “é abaixo de zero”, diz, por seu lado, Arménio Henriques. “O maior problema é o baixo preço do leite e o aumento das rações e dos adubos”, relata o produtor de Arouca. O preço da soja e milho (matéria-prima das rações para animais) duplicou, mas o valor pago ao produtor não acompanhou esse aumento dos custos. Pelo contrário: desde o início do ano caiu 3,5 cêntimos, para 28 cêntimos por litro. A continuar assim “a operação não é viável”, diz António Campos.

Edite Oliveira, 50 anos, decidiu com o marido há dois meses fechar a vacaria produtora para a Cooperativa do Bebedouro, em Amieiro (distrito de Coimbra). Tirou o curso de empresária agrícola, assumiu o negócio que foi dos pais e agora vê desaparecer a sua fonte de rendimento. O marido já emigrou para o Luxemburgo. “Nós gostamos do que fazemos e cortam-nos as pernas”, lamenta.

José Luís Araújo gostava que o Governo “pusesse um travão na importação sem controlo das grandes superfícies” e que “lutasse pela manutenção das quotas de leite”, pois Portugal tem “custos de produção muito elevados”. A se manter a situação “temos de ir trabalhar para a maior empresa do país: o fundo do desemprego”, diz o irmão João Manuel Araújo.

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