Coronavírus

Proteger a economia

Pedro Reis,  Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep.
(Reinado Rodrigues/Global imagens)
Pedro Reis, Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep. (Reinado Rodrigues/Global imagens)

Pedro Reis escreve sobre o que espera desta crise e do futuro que dela resultará.

Por estes dias, muitos me (e se) têm questionado sobre o que podemos esperar dos próximos tempos a nível económico e sobre o que pode/deve ser feito para mitigar os efeitos desta nova e exigente realidade que se abateu com violência sobre a economia mundial; penso que a resposta mais direta e mais honesta é a de que que ninguém, neste momento, verdadeiramente saberá ou conseguirá antecipar com precisão mínima sobre o que o futuro nos trará: como, aliás, seria de esperar de uma situação disruptiva como esta com tantos contornos verdadeiramente inéditos e de uma envergadura tão inusitada.

No entanto, isso não quer dizer (antes pelo contrário) que não se deva fazer tudo (e de forma rápida e corajosa) para se tentar atenuar a nível global os efeitos do que pode vir a ser uma recessão dura cuja semente se deve combater desde já para tentar que não perdure por 1 ou 2 anos como provavelmente seria o caso se não se atuar de forma determinada, concertada e vigorosa.

Perante a incerteza de quando teremos uma solução clínica definitiva para a epidemia, assiste se a uma paragem económica muito vasta que não se detém em fronteiras geográficas ou setoriais.

Assistimos nestas poucas semanas a uma travagem brusca em múltiplos setores estratégicos particularmente expostos a uma crise sanitária como esta (hospitality, consumo e indústria de bens não essenciais incluindo o automóvel, entre muitos outros) e ganhámos consciência de que os poucos setores que ainda vão sendo poupados (por serem de consumo obrigatório, como o alimentar, a energia, a logística e as comunicações, entre outros) poderão vir também eles a sentir um abrandamento se se instalar um aumento generalizado do empobrecimento a nível global – que urge evitar.

Estamos a assistir a uma paragem económica muito vasta que não se detém em fronteiras geográficas ou setoriais

Perante o colapso inicial da procura e face a alguma disrupção da oferta (mesmo que a mesma venha a ser compensada por algum investimento internacional adicional que surja da expectável duplicação de centros de fabrico para não voltarem a ser apanhados com uma excessiva concentração num só país ou numa só região), é fundamental não deixar arrastar-se o atraso de uma resposta, concertada e de envergadura, a nível mundial (e particularmente europeu, dado o impacto da epidemia sanitária e económica no nosso continente).

Há de facto aqui um paralelismo entre a epidemia sanitária e económica: ambas reclamam medidas musculadas, urgentes e de âmbito global para serem combatidas e debeladas.

É já óbvio por estes dias que, se os mecanismos europeus teimarem em demorar a estar operacionais de forma robusta, muita destruição económica e muita mortandade empresarial adicionais tornar-se-ão irreversíveis: há assim que evitar esse impasse, fruto da indecisão crónica europeia, a todo o custo. Ainda há tempo para mitigar os efeitos da tempestade, mas cada dia haverá menor margem de manobra.

Há um paralelismo entre a epidemia sanitária e económica: ambas reclamam medidas musculadas, urgentes e de âmbito global para serem combatidas e debeladas.

Do que se trata, a acreditar nos especialistas, é de se tentar evitar que muitos países europeus se voltem a aproximar de taxas desemprego algures entre 10% e 15%, insufladas por recessões algures entre 5% e 10% e, por sua vez, geradoras de défices orçamentais algures entre 5% e 10%.

Se não atalharmos e arrepiarmos imediatamente caminho, arriscamo-nos a que depois das vagas sequenciais das crises praticamente simultâneas ao nível sanitário e económico se junte ainda uma terceira onda de crises políticas instigadas por populismos oportunistas que retirariam gás às tentativas suadas de alguma recuperação económica que se estaria, por essa altura e dentro de uns meses, a ensaiar.

Provavelmente teremos maior investimento na saúde, um novo paradigma no teletrabalho, ainda mais espaço para a tecnologia, a automação e a robotização na indústria, mais força de private equities.

Se fosse esse o caso, e à falta de liderança mundial, não teríamos uma crise em “V” (de Vertigem do susto coletivo) nem em “U” (de Única pela sua natureza global), mas sim uma prolongada destruição de valor em “L” (de Lentidão na reação inicial).

Dito isto, estou em crer que haverá e aparecerão sempre modelos de negócio que vingarão no futuro ganhando ainda mais tração e dinâmica adicional: provavelmente teremos muito mais comércio online, maior investimento em toda a fileira da saúde, um novo paradigma no teletrabalho, ainda mais espaço para a tecnologia, a automação e a robotização na indústria, melhores e mais inovadores ecossistemas de empreendedores, mais força de private equities com range de investimento de longo prazo, etc.

Acredito também que esta pandemia levará a um despertar mundial para temáticas em que temos vindo a perder demasiado tempo (que não temos), como é o caso, naturalmente e à cabeça, da emergência climática. Um novo paradigma impõe-se; uma nova abordagem exige-se.

Depois desta pandemia, nada voltará a ser igual, mas quero acreditar que um dia tudo voltará a ser melhor.

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