INE

Quase 23% dos empregados foram impedidos de trabalhar entre abril e junho

O primeiro ministro, António Costa.  Manuel de Almeida / LUSA
O primeiro ministro, António Costa. Manuel de Almeida / LUSA

Emprego interrompe 6 anos de subidas. Desemprego desce pois desempregados ficaram inativos, impedidos de procurar trabalho por causa do confinamento.

Mais de um milhão de trabalhadores, o equivalente a 22,8% da população empregada, estiveram “ausentes do trabalho” no segundo trimestre, a esmagadora maioria por causa das medidas de confinamento impostas pelo governo para tentar travar a pandemia, informa o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Este número de empregados forçados a parar duplicou face ao primeiro trimestre e quase quadruplicou face ao segundo trimestre de 2019, indica o INE.

“O aumento ficou a dever-se quase exclusivamente à redução ou falta de trabalho por motivos técnicos ou económicos da empresa (que inclui a suspensão temporária do contrato e o lay-off), razão apontada por 680,1 mil daquelas pessoas (cerca de dez vezes o número do trimestre anterior).”

A paralisação forçada dos empregados refletiu-se no número de horas trabalhadas na economia, que basicamente afundou.

“No 2.º trimestre de 2020, observou-se uma diminuição trimestral de 22,7% e uma redução homóloga de 26,1% do volume de horas efetivamente trabalhadas. Estas variações são as maiores desde 2011”, informa o INE nas Estatísticas do Emprego relativas ao segundo trimestre.

Além dos que mantiveram emprego e não puderam trabalhar, também houve já muita destruição de postos de trabalho no período que vai de abril a junho.

Segundo o instituto, em relação ao trimestre homólogo de 2019, a população empregada afundou 3,8% (menos 185,5 mil pessoas com trabalho), “contrariando a série de variações homólogas positivas observadas neste trimestre desde 2014”.

Cerca de 98,9 mil desses casos de perda de emprego afetaram mulheres (queda de 4,1% no emprego) e 86,6 mil eram homens (menos 3,5%).

Fonte: INE

Fonte: INE

42% dos desempregados passaram a inativos

Outro fenómeno raro é a ‘camuflagem’ do desemprego já que muitos dos desempregados ficaram impedidos de procurar trabalho durante o segundo trimestre, fruto do dever de recolhimento, dos limites à mobilidade, do encerramento obrigatório de muitas atividades e do fecho definitivo de portas de muitas empresas, que entretanto faliram.

Isso fez com que os desempregados não se pudessem classificar como tal (não conseguiram procurar ativamente trabalho porque simplesmente não havia ofertas), logo passaram a ser classificados como inativos.

Segundo o INE, “a população inativa com 15 e mais anos, estimada em 3.886.700 de pessoas, aumentou 5,7% relativamente ao trimestre anterior e 7,5% em relação ao trimestre homólogo”.

“Nunca antes, na série de dados iniciada em 2011, se havia registado variações trimestrais e homólogas tão elevadas”.

“Estes acréscimos são explicados, essencialmente, pelo aumento da população inativa que, embora disponível, não procurou trabalho, estimada em 312,1 mil pessoas. Esta população aumentou 87,6% em relação ao trimestre anterior e 85,6% relativamente ao período homólogo.”

O aumento no número de inativos “resultou, em parte, de 41,8% dos desempregados no 1.º trimestre de 2020 terem transitado para a situação de inatividade no 2.º trimestre de 2020”.

A descida aparente e temporária do desemprego

Este fenómeno de inatividade forçada ajuda a explicar a descida do desemprego no segundo trimestre. De acordo com o INE, a taxa de desemprego diminuiu para 5,6% da população ativa, “valor inferior em 1,1 pontos percentuais (p.p.) ao do trimestre anterior e em 0,7 p.p. ao do trimestre homólogo de 2019”.

Recorde-se que o INE entretanto divulgou dados para junho, o mês mais marcado (no segundo trimestre) pelas medidas de desconfinamento e de abertura da economia.

Esta abertura (com muitas empresas a queixarem de uma queda abrupta na procura e outras tantas a simplesmente falir) começa a tornar o desemprego mais saliente.

A taxa de desemprego (dados provisórios do INE divulgados no final de julho) subiu de forma pronunciada em junho, para 7% da população ativa. Havia quase 351 mil pessoas oficialmente desempregadas.

Inativos disponíveis para trabalhar disparam 87% entre trimestres

Assim, o quadro é a de uma economia com níveis de inatividade nunca vistos.

A população inativa aumentou 5,7%, havendo 3.886.700 pessoas nesta situação no segundo trimestre. A subida face ao primeiro trimestre foi de 7,5%.

O INE explica que “estes acréscimos são explicados, essencialmente, pelo aumento da população inativa que, embora disponível, não procurou trabalho, estimada em 312,1 mil pessoas”.

O número de inativos disponíveis para trabalhar disparou 87,6% em relação ao trimestre anterior e 85,6% relativamente ao período homólogo.

A subutilização do trabalho, “indicador que agrega a população desempregada, o subemprego de trabalhadores a tempo parcial, os inativos à procura de emprego mas não disponíveis e os inativos disponíveis mas que não procuram emprego”, aumentou para 14%, “mais 1,1 pontos percentuais (p.p.) relativamente ao trimestre precedente e 1,6 p.p. por comparação com um ano antes”.

Esta subutilização do trabalho afetou 748,7 mil pessoas no segundo trimestre, o que mostra bem o que pode ser entendido como o nível de desemprego em sentido lato.

O INE sinaliza ainda que há cada vez mais jovens (dos 15 aos 34 anos) que não estudam, nem trabalham. Esta população conta com 282,9 mil pessoas, mais 48% (mais 92 mil casos) do que um ano antes (primeiro trimestre de 2019).

Destes 282,9 mil jovens desempregados ou inativos, 12% tinham um curso superior, indica o novo inquérito ao emprego.

(atualizado às 13h35)

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