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Quem é o homem que tramou Temer?

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Joesley Batista, 44 anos, casado com apresentadora de televisão, passou de médio empresário a magnata das carnes

“Estou perplexo com a dimensão da corrupção no Brasil, com a qual tenho contacto apenas através da televisão”, dizia em entrevista em fevereiro ao jornal Folha de S. Paulo Joesley Batista, o homem que gravou conversa com Michel Temer e pode levar à queda do presidente do Brasil. Na mesma entrevista, o empresário do ramo da produção de carnes considerava “maldosas” as notícias dando conta de que iria assinar um acordo com a justiça para se tornar delator e que “nunca, jamais” havia subornado Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara dos Deputados hoje detido na Lava-Jato.

Nas últimas horas o Brasil acordou – perplexo – com a informação de que, afinal, Batista havia assinado acordo de delação premiada com a justiça, assumira perante Temer que pagava generosas mesadas a Cunha, ao que parece com o consentimento do chefe de Estado, e era um dos pilares do esquema de corrupção entre grandes empresas e o estado investigado na Lava-Jato.

Joesley, o mesmo que disse um chorrilho de mentiras ao maior jornal brasileiro e entrou menos de um mês depois na residência oficial do Presidente com um gravador no bolso, sempre foi o mais ousado dos irmãos Batista. Ele, de 44 anos, com José Junior e Wesley, fundou a JBS, em alusão ao nome do pai dos três, José Batista Sobrinho, uma companhia que começou por ter impacto meramente regional no interior do estado do Goiás mas que a partir de 2006 foi crescendo até se tornar a segunda maior do mundo no seu ramo.

A JBS beneficiou dos anos dourados do consulado de Lula à frente do país, quando o BNDES, banco estatal de desenvolvimento, investiu milhões e milhões de reais num grupo de empresas. Principalmente naquelas a que Lula chamou de “campeãs nacionais”, ou seja, capazes de se tornarem referências mundiais em áreas onde o Brasil é competitivo.

Eike Batista, o magnata que chegou a sétimo mais rico do mundo segundo a Forbes, foi um dos beneficiados com a generosidade do BNDES, na área do petróleo – hoje cumpre pena de prisão domiciliar por corrupção e está falido. A Odebrecht, outra escolhida, tornou-se a construtora do regime, multiplicando a sua fortuna – nos dias que correm a companhia é sinónimo de corrupção no país, com sete dezenas de executivos, incluindo o seu presidente Marcelo Odebrecht, na prisão. A Oi, cuja telenovela sobre a sua decadência atravessou as duas margens do Atlântico, era a “campeã nacional” da área das telecomunicações. E a JBS a do setor dos embutidos, com marcas de expressão internacional como a Friboi, a Seara ou a Swit, entre outras.

Joesley Batista, casado desde 2012 com Ticiana Villas-Boas, uma apresentadora de televisão nove anos mais nova, para animar a festa do seu casamento para 600 convidados conseguiu juntar a cantora baiana Ivete Sangalo e a dupla sertaneja Bruno & Marrone, recordistas de vendas nos seus segmentos musicais. Ticiana gastou 100 mil euros só para acessórios do seu vestido de noiva, desenhado de propósito por Karl Lagerfeld. Os Batista estavam milionários – e queriam que toda a gente soubesse.

A acumulação de bens e património de Joesley e dos irmãos só sofreu um revés: foi em março deste ano quando os setores de produção da JBS foram envolvidos no escândalo de corrupção a fiscais do ministério da Agricultura, na Operação Carne Fraca. Países de todo o mundo interromperam a importação de carne brasileira e a economia local, já se si deteriorada, sofreu forte abalo. O Presidente da República Michel Temer interveio de propósito, em auxílio do setor das carnes, comendo bifes com embaixadores e enviando memorandos para homólogos seus de todo o mundo.

O tal encontro que pode fazer cair Temer ocorreu dez dias depois da deflagração da Operação Carne Fraca, por volta das 23 horas no Palácio do Jaburu, a residência oficial do atual presidente brasileiro. Antes da reunião que gravou com um microfone escondido de bolso, Joesley havia combinado com a polícia pagar o equivalente a 70 milhões de euros e ainda denunciar quem fosse necessário, presidente da República incluído, em troca de lhe ser permitido fugir para os Estados Unidos, onde a JBS vinha investindo a maioria do seu capital nos últimos meses.

Ticiana Villas-Boas, a apresentadora do reality show do canal SBT “Duelo de Noivas” sabia do esquema do marido e gravou por antecipação os quatro últimos programas da série. Está com Joesley, entretanto alvo de ameaças de morte, no apartamento da família na Quinta Avenida, em Manhattan, a ver de longe os efeitos brutais da sua delação. “Peço desculpa, não honramos de facto os nossos valores em diversos momentos com o poder público brasileiro”, disse em nota o dono da JBS, pronto para recomeçar a vida de milionário em Nova Iorque.

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