Expedição Fernão de Magalhães

Quem pagou a expedição planetária de Magalhães? Um mercador vindo de Portugal

Fernão de Magalhães
Fernão de Magalhães DR

 

Há uma panóplia impressionante de curiosidades e alguns mistérios sobre expedição de Fernão de Magalhães, que começou há 500 anos. Abordamos o investimento (quanto custou, quem pagou e porque o fez) para a viagem acontecer, entre descrença e a aposta peculiar de um investidor de origem flamenga vindo de Lisboa chamado Haro.

A 20 de setembro de 1519, há precisamente 500 anos, a expedição imaginada, liderada e organizada pelo experiente navegador português Fernão de Magalhães – oficialmente desavindo com o ‘seu’ rei D. Manuel I – fazia-se ao mar a partir da localidade de Sanlúcar de Barrameda, no sul da atual Espanha.

Tratou-se de uma expedição feita em nome do rei de Castela e Aragão, Carlos I, que acedeu há proposta de Magalhães, 27 anos depois dos reis Católicos de Castela e Aragão – Isabel e Fernando – terem feito o mesmo com outro navegador vindo de Portugal, Cristóvão Colombo.

Fernão de Magalhães tinha em boa medida, o que pretendia: uma pequena armada de cinco navios e 234 homens (há relatos que até aos 270) para partir para uma viagem nunca antes feita pelo ser humano. Da tripulação ‘convencida’ a participar – alguns à força, por terem dívidas ou problemas com a lei (caso de Elcano, o basco que liderou os últimos quilómetros da expedição) – cerca de 40 seriam portugueses e dois dos cinco navios tinham comando português – além de Magalhães na Trinidad, João Serrão comandava a nau Santiago.

Magalhães teria tentado que fossem mais portugueses pela sua experiência e perícia náutica, mas esses planos foram alterados pela desconfiança sobre as intenções do navegador português pelo rei de Castela e Aragão Carlos I, que tentava assim correr menos riscos.

Da lista de portugueses presentes estavam Álvaro de Mesquita, primo de Magalhães, Duarte Barbosa, primo da sua mulher e ainda um peculiar malaio. Neste caso, era o homem conhecido por Henrique de Malaca, já que era natural dessa cidade portuária do sudeste asiático liderada pelos portugueses, onde teria sido salvo por Magalhães (reza a lenda que jurou defendê-lo e acompanhá-lo depois disso).

Para trás ficou o braço direito do navegador português e líder científico do planeamento, o cosmógrafo e astrónomo Rui Faleiro. O motivo? Há duas teorias: teve uma visão de que teria uma morte violenta na véspera da viagem de 20 de setembro e ficou em terra; a outra é que teria endoidecido.

Carlos I, rei de Castela e Aragão e que em 1519 se tornou também Carlos V, Imperador Romano-Germânico. Nasceu em 1500 na atual Bélgica e morreu em 1558

Carlos I, rei de Castela e Aragão e que em 1519 se tornou também Carlos V, Imperador Romano-Germânico. Nasceu em 1500 na atual Bélgica e morreu em 1558

Quem pagou, porque pagou e quanto custou?

Voltando ao investimento para a viagem, a expedição de Magalhães era oficialmente de Castela e Aragão, como já vimos. Mas o processo que levou ao seu financiamento foi mais complexo e interessante do que esse mero facto oficial.

Em primeiro lugar, quanto custou? O valor terá sido de 8.334.335 maravedís (moeda de ouro da época) em despesas efetivas, bem mais do que custou a viagem (mais curta) de Colombo para a América, em 1492. O que esses 8,3 milhões de moedas de ouro significariam para a época é difícil de calcular, embora existam estimativas académicas que apontam para o valor de 20 dólares por cada 1 maravedí, o que colocaria a viagem nos 166 milhões de dólares atuais, numa estimativa pouco fiável.

O mais caro foram as naus, um tipo de navio desenvolvido pelos portugueses várias décadas antes e que chegou a ser uma espécie de segredo português. Na época do rei D. João II as naus eram um segredo de Estado, ao ponto de se arriscar vidas para tentar destruir uma nau capturada sob pena da tecnologia ser copiada pelos rivais. No entanto, quando D. Manuel I subiu ao trono, alterou a política do reino aproximando-se de Castela e Aragão ao ponto de partilhar essas mesmas naus outrora secretas. O preço da nau mais cara? A nau Santo António, de 120 toneladas, que custou 330 mil maravedís.

Do valor total para a expedição, 3/4 do custo foram oficialmente pagos por Carlos I e 1/4 seria investimento próprio de um peculiar mercador de origem flamenga sediado em Lisboa. Cristóvão de Haro financiou durante anos várias expedições portuguesas a partir da capital do país, Lisboa, antes seguir Magalhães para Sevilha para ajudar o navegador a convencer o rei de Castela e Aragão a dar o aval à viagem.

Além de ajudar nessa missão e de financiar oficialmente um quarto da viagem, terá ainda emprestado o restante valor da expedição a Carlos I, “com juros elevados”. Essa informação consta do livro de 1975, de Francisco Leite de Faria, A Viagem de Fernão de Magalhães e a Questão das Molucas.

Sobre os motivos para investir, os do rei Carlos I parecem simples. Por um lado, estava a dar ouvidos a algo que, aparentemente, o rei português D. Manuel I não queria que fosse ouvido ou seguido. Por outro, embora fosse uma missão arriscada e inédita, o rei tinha um experiente navegador português a apresentar algumas provas obtidas graças às muitas viagens dos portugueses e às convicções do próprio de que contornando a América do Sul (conhecia-se apenas o Brasil) se iria chegar até à Ásia e às riquezas da época.

DR

Mapa da viagem que começou há 500 anos.. DR

O objetivo? Chegar às Molucas, onde se previa que estivesse um sem fim de especiarias orientais – um dos bens mais preciosos no comércio da altura. Se tudo corresse como previsto, Castela e Aragão iriam conseguir contornar algumas das desvantagens por terem assinado, anos antes, o Tratado de Tordesilhas que estava a trazer riquezas inimagináveis através da Índia e da Ásia para os portugueses, que iam aumentando o seu império que já incluía na altura o Brasil.

Magalhães conhecia bem o sudeste asiático fruto da sua estadia em Malaca e não se sabe ao certo se já teria estado nas Molucas mas, pelo menos, teria indicações (eventualmente de outros navegadores portugueses) da existência de especiarias em quantidade nessa zona das atuais Filipinas. Curiosamente, foi por lá que morreu, já depois de ter sido surpreendido pelo maior oceano terrestre até ali desconhecido – a que deu o nome de Pacífico (por ser bem mais calmo do que o complicado estreito que ficou com o seu nome). Daí que não tenha concluído a viagem de circum-navegação e nunca tenha voltado à Península Ibérica, de onde partiu. Julga-se que o seu servo, Henrique de Malaca, fugiu após a morte de Magalhães e pode ter voltado a Malaca, a sua terra natal, tornando-se possivelmente o primeiro homem a circum-navegar o planeta.

Já sobre as intenções de Haro, parecem puramente comerciais, já que se a teoria de Magalhães se comprovasse na íntegra seria aberta uma rota de especiarias para o Oriente através do Atlântico (e Pacífico) e não do Índico. Magalhães, em si, nunca explicou com pormenor o que o motivava. Além do óbvio possível sucesso financeiro e de reputação, julga-se que queria provar uma teoria antiga que Colombo não concluiu porque deu ‘de caras’ com a América.

Circum-navegação foi bónus valorizado à posteriori

É certo que a viagem, em si, nunca teve como principal objetivo fazer a primeira circum-navegação do planeta, mas sim estabelecer uma rota comercial lucrativa de especiarias chegando às Molucas e negociando com os locais – foi nessa negociação que Magalhães acabou por morrer (foi representar um rei local combatendo uma tribo rival com uma força já diminuta). Essa rota nunca foi estabelecida como inicialmente previsto, mas o que se descobriu teve um valor para a humanidade muitas vezes comparado com a chegada do ser humano à Lua, em 1969, e que abriu caminho à globalização.

Certo é que os portugueses não viam vantagem comercial na viagem (daí ter sido recusada por dois reis diferentes), porque já tinham o exclusivo da Ásia através do caminho marítimo pelo Cabo da Boa Esperança e, julga-se, já teriam noção que o caminho pelo oriente seria muito mais imprevisível e bem mais longo do que aquele que já tinham desbravado por Vasco da Gama e companhia.

No final de contas, Fernão de Magalhães acertou no facto – já sabido na altura e antes dela por vários estudiosos, embora fosse ignorada por muitos – que o planeta era redondo e que se poderia chegar ao Oriente seguindo para ocidente, seguindo para sul do Brasil. Foi assim que descobriu a custo e já depois de um motim que envolveu os capitães de Castela e Aragão da expedição – mortos ou deixados a morrer no desconhecido, na altura, Uruguai – o caminho marítimo para o Oriente, unindo as ‘pontas’ do planeta.

Fernão de Magalhães

Fernão de Magalhães

A importância de Tordesilhas, o tratado global

Foi a 7 de junho de 1494 – fez agora 525 anos -, na povoação castelhana de Tordesilhas, que foi assinado o Tratado com esse mesmo nome entre as Coroas ibéricas onde dividiam, entre si, o mundo conhecido e por descobrir. O tratado impedia os espanhóis de navegar para o Oriente pela via do Cabo da Boa Esperança, reservada em exclusivo para os portugueses. A proposta de Magalhães retomava em parte a ideia original de Colombo para permitir que Castela e Aragão chegassem ao lucrativo tráfico de especiarias orientais por outra via.

Daí que a assinatura do tratado tenha sido um momento-chave da diplomacia ultramarina na Europa que aconteceu dois anos depois de Colombo descobrir oficialmente o continente americano – há historiadores que defendem que o navegador poderia ser um espião ao serviço de D. João II e da coroa portuguesa para convencer os reis Católicos a assinaram o tratado. Como nos explica o historiador e autor de vários livros sobre a época dos Descobrimentos, José Manuel Garcia, “foi o momento mais importante a nível de comércio para Portugal e para o mundo”.

tratado tordesilhas portugal

“Como consequência da assinatura desse tratado, Portugal não só conseguiu o acesso ao Brasil – que só viria a ser oficialmente descoberto alguns anos mais tarde – como também reservou para si a área do globo com mais riquezas para trocar, do Brasil até à China (na verdade vai até às Molucas que Fernão de Magalhães tanto buscava)”. O historiador que é autor de livros com personalidades do tempo dos Descobrimentos, de Afonso de Albuquerque, passando por D. João II, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, admite que, na altura, os espanhóis ficaram com a pior parte do globo a nível de comércio.

“O Tratado de Tordesilhas foi aquele que teve maior impacto mundial inclusive até ao dia de hoje, nunca houve nada assim tão global e permitiu a Portugal ter o exclusivo da zona mais desejada, das especiarias e afins, durante 100 anos”. Essa conquista portuguesa está relacionada com o “muito mais avançado conhecimento dos mares e do Atlântico por parte dos portugueses”.

Numa nota final sobre o tema, a história atual conhece-se muito graças a Antonio Lombardo Pigafetta, um natural de Vicenza (na atual Itália) que rumou ao sul ibérico quando soube da expedição e convenceu Magalhães a seguir viagem não para fazer parte da tripulação, mas para relatar o que se passava – algo pouco comum e nem por isso bem visto na altura.

O registo da viagem que terminou em setembro de 1522 chamado Relazione del Primo Viaggio Intorno Al Mondo foi oferecido ao rei Carlos I e só foi publicado em Paris por volta de 1524-25. Magalhães é evidenciado como líder visionário, experiente e heróico. Foram esses relatos que tornaram o navegador português uma referência histórica tantos anos depois, homenageado inclusive e várias vezes na exploração espacial – é o caso das Nuvens de Magalhães, duas galáxias anãs perto da nossa galáxia, Via Láctea. Curiosamente, Juan Sebastián Elcano o piloto basco transformado capitão no final da viagem onde só uma nau e 18 pessoas sobreviveram nunca é referido por Pigafetta.

Notas bibliográficas principais:
Magalhães, o Homem e o Seu Feito, de Stefan Zweig
Portugal e o Segredo de Colombo, de Manuel da Silva Rosa
A Viagem de Fernão de Magalhães e a Questão das Molucas, de Francisco Leite de Faria
Magellan, de Tim Joyner

 

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