Energia

Quem são os portugueses que dão cartas na energia eólica no mar?

A PME portuguesa ASM Industries continua disposta para acompanhar a EDP nos novos projetos eólicos offshore que estão na manga para os próximos anos.

De acordo com as previsões da WindEurope, 350 MW de capacidade instalada no eólico offshore flutuante entrarão em produção na Europa até 2021, com base numa série de projetos em desenvolvimento no Reino Unido, França, Portugal e Noruega, muitos deles com mão da EDP Renováveis.

Analistas citados pela associação que defende a energia eólica na União Europeia estimam que a capacidade instalada de centrais eólicas flutuantes nos mares do continente em 2030 possa variar entre 6 e 19 GW, dependendo da rapidez com que este (ainda) nicho de mercado se afirme como competitivo em termos de custos de instalação, por comparação direta com o eólico offshore fixo no fundo do mar.

Desde o primeiro minuto, na apresentação oficial do projeto Windfloat Atlantic, em Portugal, o CEO da EDP, António Mexia, e o CEO da EDP Renováveis, João Manso Neto, não esconderam a vontade em exportar a tecnologia flutuante para outros países, sobretudo asiáticos, como a Coreia do Sul ou o Japão. Em outubro, surgiu a notícia: a EDP Renováveis, a WindPower Korea e a Aker Solutions formaram um consórcio para desenvolver parque eólico flutuante com 500 MW, ao largo da cidade de Ulsan, na Coreia do Sul.

Entretanto, durante a conferência Offshore 2019, na Dinamarca, a construtura de turbinas eólicas Vestas anunciou que irá fornecer à joint-venture formada pela EDP e pela francesa Engie para apostar no segmento offshore a nível mundial, três mega turbinas eólicas com 10 MW de capacidade, cada uma, que serão ligadas a plataformas flutuantes com a tecnologia Windfloat, para um projeto piloto em França. Situado no Golfo de Lyon, no mar Mediterrâneo, terá uma capacidade total de 30 MW e ficará pronto em 2022. Este será um dos quatro parques offshore com o apoio do governo francês, de acordo com a estratégia de Paris para assumir uma posição de destaque a nível mundial no eólico flutuante.

A dinamarquesa Vestas foi também a fornecedora das três turbinas eólicas com 8,3 MW de capacidade que farão parte do parque eólico português Windfloat Atlantic, que entrará em produção em breve.

O facto de que o eólico offshore (fixo e flutuante) tem um peso cada vez mais significativo no negócio da EDP Renováveis, refere a própria empresa, ficou comprovado mais recentemente quando o consórcio Mayflower Wind Energy LLC, criado pela EDP e pela Shell, foi escolhido pelas autoridades do Estado do Massachusetts para fornecer 804MW de energia renovável, que será produzida num parque eólico em alto mar, ao largo deste estado norte-americano, e que servirá para fornecer cerca de meio milhão de casas com energia renovável.

“A vitória neste leilão é mais um reforço do posicionamento da EDP naquilo que tem sido uma nova avenida de crescimento para o grupo: o offshore», disse o CEO António Mexia, acrescentando ainda que «a EDP Renováveis entra agora no segmento de offshore no principal mercado de crescimento das renováveis, os EUA, onde a empresa já é um dos principais players em energia eólica onshore”.

Além dos EUA, a EDP atua também na Escócia e está a desenvolver duas centrais eólicas offshore em França, com planos para concorrer a leilões futuros de energia eólica marítima nesse país.

Empresas portuguesas mostram o que valem no evento Offshore 2019

Pronta para acompanhar a EDP em alguns destes novos projetos eólicos continua a estar a PME portuguesa ASM Industries, responsável por trazer para Portugal a tecnologia Windfloat, criada pela norte-americana Principle Power, e por construir, entre Setúbal e Sever do Vouga, duas das enormes plataformas que vão integrar o parque Windfloat Atlantic, ao largo de Viana do Castelo.

Além da ASM Industries, outras quatro empresas portuguesas marcaram presença com stand próprio na conferência Offshore 2019, na Dinamarca: Endiprev, Motofil, ProDrone e Fibersail (esta última no espaço da feira reservado às empresas inovadoras). O evento mereceu também a visita da embaixadora de Portugal na Dinamarca, Rita Laranjinha que, acompanhada por Helga David da AICEP em Copenhaga, teve oportunidade de conversar com os representantes de todas as empresas, que apresentam “soluções muito impressionantes na área da energia eólica offshore. E todos estavam satisfeitos com a presença em Copenhaga, considerando esta feira um evento muito relevante e uma excelente oportunidade para fazer negócios”.

A representante de Portugal em terras dinamarquesas conversou ainda o CEO da Vestas Offshore Wind, “também ele muito satisfeito com a parceria com a EDP Renováveis”. “Para a Embaixada é muito positivo poder constatar que as empresas portuguesas têm capacidade para se posicionar num mercado tão competitivo como este”, frisou a embaixadora.

Por seu lado, a ASM Industries continua a pôr em marcha o seu plano de investimento de 40 milhões no eólico flutuante, com vista à exportação, garantiu o CEO Adelino Costa Matos, em plena capital dinamarquesa, revelando que a empresa poderá também apostar em muitas outras tecnologias para o eólico offshore, além do Windfloat.

O mercado asiático continua a ser uma possibilidade (apesar de a ASM não integrar o projeto da EDP para a Coreia do Sul), mas a empresa está a avaliar com a EDP novos projetos de Windfloat para a Escócia e para a França, mas também para a Alemanha, Holanda Bélgica e EUA.

“Estamos completamente disponíveis para continuar a colaborar com a EDP: dominamos a tecnologia e o mercado, é uma questão de avaliar projeto a projeto”, garantiu Simão Antão, COO da ASM Industries.

No espaço de três anos, a metalomecânica ASM Industries tem um plano de investimento de 40 milhões de euros: 10 milhões nas fábricas de Sever do Vouga e Setúbal e 30 milhões na nova unidade de produção em série de fundações offshore no porto de Aveiro, que começou a laborar há três meses e será formalmente inaugurada em março de 2020, com a presença do primeiro-ministro, António Costa.

Criada 100% a pensar no eólico offhore, e para fabricar torres de maior diâmetro (até 10 metros), em Abril a fábrica de Aveiro poderá acrescentar um segundo turno de produção para chegar à sua capacidade máxima até ao final de 2020. “O céu é o limite e temos todo um mercado à nossa frente para crescer. A WindEurope prevê 9 GW de eólico offshore para Portugal em 2050 e nós queremos estar em todos os projetos. Estas tecnologias flutuantes fazem todo o sentido numa costa como a nossa”, confirmou o chief operating officer.

Para o próximo ano a empresa portuguesa está já com pipeline de projetos alinhado, depois de ter “fechado um grande conjunto de encomendas com novos clientes”, sendo importante aqui a estratégia de diversificação e expansão a novos setores de atividade. Como é o caso da Jerónimo Martins, que contactou a ASM Industries para uma parceria no seu projeto de aquacultura em Portugal, com a construção das estruturas de aço marítimas onde são criados os peixes em cativeiro.

Daqui a cinco anos, Adelino Costa Matos quer estar já a exportar para a Europa e América do Norte e já em 2020 prevê estar a faturar 50 milhões de euros (70% no offshore). Com um crescimento de 20% nos últimos anos, em 2018 a empresa duplicou a faturação, para 30 milhões de euros.

Quanto às gigantescas plataformas metálicas Windfloat, são capazes de se manter à tona da água já que são parcialmente ocas e têm um sistema automático de transferência de água entre as três colunas que mantém estabilidade. E se as torres e as pás eólicas do parque eólico offshore que vai nascer em Portugal vieram da Dinamarca, as massivas estruturas metálicas (com 70 metros de largura, 30 de altura – o equivalente a um prédio de 10 andares -, e vários milhares de toneladas de peso), equipadas com uma tecnologia inovadora que as faz flutuar, foram produzidas desde maio de 2018 em território nacional, nos dois estaleiros da ASM Industries, por mais de 250 pessoas.

Por ano, a empresa constrói 200 torres eólicas e 99% dessa produção é exportada para a Europa e para a América Latina. Com quase 40 anos de atividade no setor metalomecânico, o grupo familiar A. Silva Matos saltou para as luzes da ribalta quando venceu o concurso internacional para construir duas das três plataformas flutuantes Windfloat, com a terceira atribuída aos estaleiros espanhóis Navantia, em Ferrol, no norte da Galiza.

Com sede no Porto e experiência na Europa, América e Ásia, também a Endiprev marcou presença em Copenhaga para mostrar o seu trabalho no setor da energia eólica offshore desde 2013, no teste e validação de novas máquinas, assim como no comissionamento e na manutenção dos parques eólicos, tendo um grande foco na parte elétrica das turbinas eólicas. Foi a única empresa portuguesa a trabalhar no comissionamento e manutenção no primeiro projeto eólico offshore dos Estados Unidos, o parque eólico de Block Island, e participou ainda no desenvolvimento da turbina eólica para offshore da General Electric Haliade-X de 12MW.

“A empresa portuguesa assinou também este ano contratos com diversos fabricantes de turbinas eólicas (tais como a Vestas e com a Siemens Gamesa), pondo assim em marcha o plano para assegurar os seus objetivos a longo prazo”, disse o CEO da Endiprev, André Ribeiro, acrescentando: “Há já alguns anos que estamos a marcar presença no sector da energia eólica offshore na Europa, e estamos a dar os passos necessários para alcançar o mesmo sucesso no mesmo sector em outras geografias, particularmente no continente americano”.

De olho na energia eólica offshore flutuante, a Endiprev “tem vindo a desenvolver contactos para participar em projetos desta natureza brevemente. A Endiprev já fechou para o próximo ano vários projetos interessantes no setor de offshore, tendo contratado, no final de 2019, cerca de 100 técnicos e engenheiros para fazer face ao volume de trabalho dos novos projetos”.

Em parceria com os principais fabricantes de aerogeradores, a empresa tem experiência em mais de 30 países e escritórios na Alemanha, China, Espanha, Estados Unidos, Etiópia, Holanda, Portugal e Suécia.

 

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