Alemanha

Recessão alemã pode doer mais a norte de Portugal e no setor automóvel

Angela Merkel de visita a Portugal acompanhada pelo primeiro-ministro, António Costa. Foto: Artur Machado/ Global Imagens
Angela Merkel de visita a Portugal acompanhada pelo primeiro-ministro, António Costa. Foto: Artur Machado/ Global Imagens

Alemanha compra por ano 10 mil milhões de euros em bens e serviços produzidos em Portugal e é um dos investidores de referência.

A economia portuguesa está altamente sincronizada com a alemã. Sempre que há uma recessão na Alemanha, cenário que agora é cada vez mais provável, as ondas de impacto acabam por se sentir diretamente, mais tarde ou mais cedo, por causa dos grandes investimentos que os alemães têm na economia nacional e por via das exportações.

A Alemanha é o terceiro maior cliente dos bens e serviços vendidos por Portugal ao exterior. O mercado germânico representa uma faturação de quase 10 mil milhões de euros anuais (dados de 2018).

De acordo com a AICEP e informação oficial (do INE), na lista das dez maiores exportadoras para a Alemanha estão quatro importantes fábricas localizadas na região norte: Bosch, Continental, Gabor e Preh.

Mais. Seis dessas dez empresas espalhadas pelo país são do setor automóvel ou atuam como fornecedores de componentes para carros, incluindo pneus (ver ficha com as dez maiores exportadoras no final do artigo).

Na semana passada, o Eurostat e o gabinete de estatística da Alemanha (Destatis) vieram confirmar o que há muito já se temia. A Alemanha, a maior economia da zona euro, está a meio caminho de uma recessão e efetivamente estagnada.

Ontem, o banco central alemão (Bundesbank) foi mais longe. É altamente provável que a recessão se concretize (dois trimestres consecutivos de contração trimestral do produto interno bruto ou PIB) já no terceiro trimestre deste ano.

Jens Weidmann, o presidente do Bundesbank, referiu que “até agora, as fraquezas da economia estiveram concentradas na indústria e nas exportações”. “As disputas comerciais internacionais e o brexit são razões importantes” para explicar este novo cenário.

A Alemanha está confrontar-se com “um declínio acentuado” das suas exportações e os empresários devem estar já a retrair-se no investimento (novas máquinas e equipamentos), observaram os economistas do banco central.

Com tudo isto em cima da mesa, o Bundesbank considera que o perigo de recessão é cada vez mais real e, em conformidade, cortou a previsão de crescimento deste ano para 0,3% (em julho, a Comissão tinha estimado uns meros 0,5%).

O governo de Angela Merkel já começou a falar num eventual plano de estímulos de grandes dimensões para evitar o afundanço de uma das maiores potências do mundo. Citado pela Bloomberg, o seu ministro das Finanças, Olaf Scholz, recordou que “a última crise custou-nos 50 mil milhões de euros, segundo as minhas estimativas”.

Margem de manobra?

Recorde-se que a Alemanha, cujas contas públicas estão mais do que equilibradas (saldo orçamental excedentário de 1% e um rácio de dívida de apenas 58% do PIB, abaixo do limite do Pacto de Estabilidade e Crescimento), é um dos países do euro com maior margem de atuação orçamental para fazer frente a uma crise.

Os mercados reagiram com alguma satisfação. As taxas de juros subiram, as bolsas europeias também. Até o petróleo valorizou.

Simona Gambarini, da Capital Economics, põe alguma água na fervura. A economista acredita que pode haver algum impulso público para deter uma eventual crise, mas nada como 50 mil milhões. “Duvido que haja muito apetite entre os decisores políticos alemães para enveredar por um grande impulso orçamental”.

Para mais, lembra esta analista numa nota aos jornais, o BCE continua ativo e com vontade de continuar a ajudar a economia com juros muito baixos, perto de zero ou mesmo negativos, pelo que a dívida vai continuar a ser muito barata.

Portugal muito exposto

Com ou sem grandes planos de combate à recessão na Alemanha, o certo é que a história recente mostra que Portugal dificilmente se livra de um embate direto e indireto de uma estagnação ou recessão naquele país. A zona euro muito menos.

Dados da AICEP compilados a partir de informação do Banco de Portugal mostram que a Alemanha continua a ser terceiro maior cliente das vendas portuguesas (a seguir a Espanha e França), absorvendo 11% das exportações lusas.

É também um investidor direto de alto perfil, com uma forte presença em tecnologias avançadas, sobretudo no cluster automóvel.

Mas não só. No ano passado, mais de 21% das compras alemãs a Portugal (quase 1400 milhões de euros) foram em automóveis e outros veículos de transporte. E o aumento foi impressionante, quase 18% face a 2017. É o segundo maior mercado português na Alemanha. A liderar estão os quase 2000 milhões de euros vendidos em máquinas e equipamentos (30% do total de mercadorias exportadas).

E nos serviços? Aqui o principal impacto pode acontecer no turismo e nas viagens. Em 2018, Portugal faturou 1900 milhões de euros com o mercado alemão. O aumento foi de 10%.

Uma crise ou um impasse prolongado na maior economia da moeda única vai ter um impacto negativo nestes valores, como sempre teve no passado.

Nos fluxos de investimento também. Sempre que a Alemanha entra em dificuldades, há uma forte retração no saldo líquido do investimento direto estrangeiro alemão em Portugal. Quando a situação desanuvia, esse saldo melhora, mostram os dados oficiais (apurados pelo Banco de Portugal) dos últimos 11 anos.

As maiores empresas exportadoras de Portugal para a Alemanha

Bosch Car Multimedia Portugal – Braga

Continental Mabor, Indústria de Pneus – V. N. de Famalicão

Delphi Automotive Systems – Lisboa/Seixal

Gabor Portugal, Indústria de Calçado – Barcelos

Grohe Portugal, Componentes Sanitários – Albergaria-a-Velha

Preh Portugal – Trofa

Repsol Polímeros – Sines

Schaeffler Portugal – Caldas da Rainha

The Navigator Company – Setúbal (sede)

Volkswagen Autoeuropa – Palmela

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
EPA/MICHAEL REYNOLDS

Ação climática. Portugal vai ter de gastar mais de um bilião de euros

Quartel da Graça, em Lisboa. (Fotografia: D.R.)

Revive: Sete hoteleiros na corrida para transformar o Quartel da Graça

Thomas Cook era a agência turística mais antiga do mundo. ( EPA/ARMANDO BABANI)

Thomas Cook declarou falência. 600 mil turistas procuram solução

Outros conteúdos GMG
Recessão alemã pode doer mais a norte de Portugal e no setor automóvel